top of page
!
Widget Didn’t Load
Check your internet and refresh this page.
If that doesn’t work, contact us.

"Iêmen, a geografia fraturada"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 12 horas
  • 5 min de leitura

 

Os abalos da Primavera Árabe, quase quinze anos depois de ocorridos, no Iêmen continuam a ser sentidos em toda a sua magnitude. Aqueles tímidos movimentos, que terminaram com o governo de Ali Abdullah Saleh (1990–2012), deram início a um processo de convulsão constante, do qual não estiveram ausentes nem as guerras civis nem as guerras de ocupação, como a que a Arábia Saudita iniciou em 2015 sob o pretexto de reinstalar no poder Abd al-Mansour Hadi, vice-presidente de Saleh, que, após um breve período, renunciou ao cargo de presidente para se exilar em Riad, onde foi obrigado a reassumir.

 

A intervenção militar saudita, conhecida como Operação Tempestade Decisiva, para além de seus incontáveis apoios — essencialmente de Washington e Tel Aviv —, somados a uma entente de países árabes e muçulmanos encabeçada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), jamais conseguiu derrotar a resistência houthi, razão pela qual o conflito acabou sendo desativado em 2020, embora os Saud nunca tenham reconhecido a humilhante derrota.

 

Essa situação é a que acabou por acelerar a anarquia no Iêmen, onde hoje atuam três claros fatores de poder. Em primeiro lugar, o grupo Ansarullah (Partidários de Deus), conhecidos mundialmente como houthis, pelo nome de seu fundador Hussein Badreddin al-Houthi, que, embora sejam de origem xiita — o que lhes proporciona inegáveis vínculos com Teerã —, por não serem fundamentalistas integram em suas fileiras setores populares sunitas, laicos e de esquerda. Além de terem sido os vencedores da guerra saudita, atualmente representam o único movimento no mundo que apoia a Palestina de maneira concreta e efetiva, atacando qualquer embarcação relacionada com o sionismo que atravesse o estreito de Bab el-Mandeb (a Porta das Lamentações), rumo ao ou desde o mar Vermelho.

 

A persistente ofensiva houthi, iniciada meses depois do começo do genocídio em Gaza, provocou um colapso no comércio marítimo internacional, obrigando as companhias de navegação a realizar trajetos muito mais extensos e, portanto, mais demorados. Suas operações no mar Vermelho não conseguiram ser interrompidas, apesar dos constantes bombardeios norte-americanos, britânicos e sionistas.

 

Além do movimento Ansarullah, atuam atualmente os grupos apoiados pela Arábia Saudita — atrás dos quais se ocultam os Estados Unidos e Israel —, que respaldam o Governo Internacionalmente Reconhecido (GIR), o qual foi desalojado de Sanaa, a capital do Iêmen, por Ansarullah.

 

O terceiro ator é formado pelas bandas separatistas financiadas pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), que incentivam uma nova cisão entre o sul e o norte do país, como já ocorreu durante a Guerra Fria, entre 1967 e 1990, quando no Sul existia a República Democrática Popular do Iêmen (RDPI), alinhada ao Pacto de Varsóvia, enquanto o Iêmen do Norte respondia aos interesses dos Estados Unidos.

 

O grupo apoiado pelos EAU, as forças leais ao Conselho de Transição do Sul (CTS), tomou, no final do ano passado, por meio da Operação Futuro Promissor, áreas ocupadas por forças aliadas do GIR em duas das maiores províncias do país, Hadramaut e Al-Mahra, elevando as tensões entre Riad e Abu Dhabi, desde a guerra contra os houthis, a um ponto de não retorno.

 

A situação obrigou à intervenção do reino, que em 30 de dezembro bombardeou a cidade portuária de Mukalla, capital da província de Hadramaut, no golfo de Áden, para impedir a recepção de armamento enviado pelos EAU desde Fujairah, uma cidade portuária na costa oriental dos Emirados.

 

Os sauditas consideram particularmente a província de Hadramaut, fronteiriça com a Arábia Saudita, uma zona de segurança vital, fundamentalmente para a proteção das explorações petrolíferas próximas a essa fronteira.

 

Embora essa rivalidade seja notória no sul da península Arábica, também se expressou em outros cenários, particularmente na guerra civil sudanesa, onde Abu Dhabi apoia abertamente com armamentos e recursos as Forças de Apoio Rápido (FAR) em troca de enormes quantidades de ouro, além de sustentar perspectivas diferentes acerca da problemática do mar Vermelho, onde o reino saudita possui mais de 1800 quilômetros de costa, enquanto os EAU se encontram a mais de 1200 quilômetros de distância, do outro lado da península Arábica, no golfo Pérsico.

 

Essa ingerência levou o príncipe herdeiro e homem forte do reino, Mohammed bin Salman (MbS), em sua visita a Washington em novembro passado, a solicitar a Donald Trump que interviesse no Sudão, denunciando a ingerência emiradense em um conflito no qual se aprofunda um genocídio não suficientemente divulgado em Darfur e Cordofão.

 

As operações cada vez mais intensas entre essas monarquias poderiam derivar em uma guerra que arrastasse toda a região, da qual tanto os houthis — jogadores menores nesse contexto — quanto as muito ativas khatibas do Daesh e da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), historicamente uma das mais letais da organização fundada por Osama bin Laden, tirariam claras vantagens.

 

Desde o final de 2022, Hadramaut, com uma população aproximada de dois milhões e meio de habitantes — de onde é originária a família bin Laden —, tem sido cenário de confrontos entre os separatistas do Conselho de Transição do Sul (CTS) e o Corpo da Guarda Republicana local (não confundir com seu homônimo iraniano), que controla o interior da província, enquanto o CTS é mais forte na orla do golfo de Áden, zona que adquiriu uma importância substancial por sua crescente produção petrolífera, o que incide de maneira fundamental no orçamento nacional.

 

No intricado panorama do conflito iemenita deve-se anotar outro jogador de peso: a Irmandade Muçulmana, que, pelos meandros da realpolitik, vê-se obrigada a atuar ao lado saudita, apesar de serem forças historicamente enfrentadas.

 

Razões para o conflito

 

Durante o último ano, as forças tribais hadramitas, lideradas por Amr bin Habrish, têm enfrentado um discurso cada vez mais agressivo por parte de Abu Dhabi e de seus peões do CTS. Instrumentalizando o controle dos campos petrolíferos e produzindo constantes cortes de energia elétrica em Áden e outros pontos, gerou-se um aumento das tensões que já resultou em confrontos esporádicos entre grupos apoiados pelo reino saudita e pelos emiradenses.

 

Apesar de a base populacional da província de Hadramaut se recusar a iniciar um conflito fratricida, está consciente de que esse enfrentamento só beneficiaria potências estrangeiras e inclusive setores marginais do entramado iemenita.

 

Na semana passada, uma delegação conjunta saudita-emiradense tentou encontrar uma solução. Enquanto Riad pretende a retirada das forças do CTS do interior da província em disputa e sua substituição pela unidade criada pelos sauditas em 2023 — a Força do Escudo Nacional —, sob o controle direto do presidente do Conselho Presidencial, Rashad al-Alimi.

 

Nesse incremento de hostilidades que fatores externos — o Reino e o Emirado — executam no Iêmen, não podem ser ignoradas duas questões que golpeiam muito perto desse epicentro: a grave convulsão interna do Irã, que talvez como nunca desafia o poder dos aiatolás, abrindo a Trump a desculpa perfeita — como se precisasse de alguma — para iniciar uma escalada bélica contra a República Islâmica, o que terminaria de completar os planos sionistas de destruir qualquer fator de oposição às suas políticas expansionistas. Na mesma direção insere-se o recente reconhecimento, por parte de Tel Aviv, da região semiautônoma da Somalilândia, o que daria a Israel a possibilidade de instalar bases para o monitoramento não apenas do Chifre da África e do golfo de Áden, mas também do centro e do leste do continente africano, o que intensificaria ainda mais as crises de uma geografia fraturada.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

Comentários


1.png
SORTEIOS DE LIVROS (1).png
  • TikTok
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Telegram
  • Whatsapp
capa38 miniatura.jpg
PROMOÇÃO MENSAL 2026 01 janeiro.png
GIF NC10ANOS (campanha) (5000 x 1932 px).gif
JORNAL-BANNER.png
WHATSAPP-CANAL.png
TELEGRAM-CANAL.png
bottom of page