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"Líbia: o estigma de ser Gaddafi"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 18 minutos
  • 5 min de leitura

No contexto do turbilhão líbio, que se iniciou em 2011 com a operação que derrubou e assassinou o coronel Muhammad Gaddafi, seus filhos também foram vítimas do ódio desenfreado que o Ocidente teve em relação ao seu pai.

 

O último estágio dessa onda perversa foi o assassinato de Saif al-Islām Gaddafi (1972), um reformista liberal, que fez com que seu pai se afastasse de suas convicções nacionalistas e foi o principal responsável pela trágica aproximação da Líbia com o Ocidente a partir do ano 2000, bem como pelo depósito de milhares de milhões de dólares em bancos de Londres e New York, que dispararam a ambição do Ocidente de se apropriar desses fundos.

 

Saif foi emboscado em sua casa na cidade de Zintan, a cerca de 130 quilômetros ao sudoeste da cidade de Trípoli, onde reside o Governo de Unidade Nacional (GUN) designado pelas Nações Unidas, um dos centros de poder que se formaram no anárquico presente líbio. Considerado o herdeiro político de seu pai, no último 3 de fevereiro foi surpreendido por um grupo de desconhecidos que, após o crime, abandonaram o local sem deixar rastros.

 

A morte de Saif soma-se à de três de seus dez irmãos, nos dias da invasão da OTAN. Mutassim, nascido em 1974, que presidia o Conselho Nacional de Segurança da Líbia, foi assassinado junto com seu pai na cidade de Sirte, em outubro de 2011. Khamis Gadafi (1983), comandante da Brigada Jamis do exército líbio, morreu em combate alguns meses antes de seu pai, e Saif al-Arab Gadafi (1982), que já havia sido ferido nos bombardeios de 1986, ordenados por Ronald Reagan contra Trípoli, pelo caso Lockerbie e pelo programa nuclear, nos quais morreu sua irmã adotiva Hanna — embora algumas versões indiquem que a menina sobreviveu e foi dada como morta para ser utilizada como propaganda do “regime”. Saif al-Arab morreria em abril de 2011 em Trípoli, junto com seus três filhos, durante um bombardeio da OTAN.

 

Enquanto isso, os que conseguiram sobreviver foram… Talvez o destino mais curioso entre os filhos de Gaddafi tenha sido o de Hannibal (1975), que com a derrubada de seu pai exilou-se primeiro na Argélia e depois na Síria. Em 2015 foi sequestrado e levado ao Líbano, onde permaneceu uma década preso, sem julgamento, acusado de ter estado implicado — quando tinha apenas 3 anos — no desaparecimento de Musa al-Sadr, protagonista de um dos grandes mistérios da política internacional.

 

O influente imã xiita de origem libanesa, al-Sadr, desapareceu em 1978, no contexto de uma visita oficial à Líbia, sem deixar qualquer rastro. A versão líbia foi que ele havia embarcado sem inconvenientes em um voo de Trípoli para Roma. Enquanto isso, o Líbano suspeitava que Gaddafi havia cedido às pressões dos mulás iranianos, que preparavam sua revolução, e a quem al-Sadr disputava a preeminência do mundo xiita.

 

A situação gerou uma altíssima tensão entre Trípoli e Beirute, que jamais foi resolvida. Embora o mais provável seja que tenham tido intervenção o MOSSAD junto com a SAVAK, a inteligência do xá Pahlavi ainda no poder, para impedir seu derrubamento, o que naquele momento já era incontível.

 

O crítico estado de saúde de Hannibal, devido ao longo confinamento, obrigou um tribunal libanês a conceder sua libertação em novembro passado, e seus próximos passos ainda não estão claros, já que ele ainda não havia sido autorizado a deixar o Líbano.

 

Enquanto isso, Mohammed, o mais velho dos filhos do coronel, sempre teve pouquíssima relevância pública. Exilou-se inicialmente na Argélia e depois, segundo algumas fontes, instalou-se em Omã, onde se dedica à atividade privada, sempre com baixo nível de exposição.

 

Aisha, a única filha biológica de Gaddafi, também se manteve todos esses anos aparentemente radicada no sultanato do sul da península arábica, dedicada a resguardar a memória de sua família.

 

Durante um breve período, Saadi Gaddafi foi o mais conhecido dos filhos do coronel, apenas por sua tentativa de triunfar no futebol: primeiro como capitão da seleção de seu país e depois por uma curta e irrelevante temporada no futebol italiano, onde jogou no Perugia, no Udinese e na Sampdoria, com escassa importância além da excentricidade de ser filho de um dos homens mais influentes da história africana.

 

Quando começou a invasão da OTAN à Líbia, e após a morte de seu pai, ele teve de fugir, sendo finalmente detido no Níger, de onde foi extraditado para a Líbia em 2014. Foi julgado e envolvido em diversos processos judiciais, entre eles o assassinato do futebolista e treinador Bashir al-Rayani, ocorrido em 2005, até que, em 2018, um tribunal líbio o absolveu por falta de provas.

 

O último Gaddafi no emaranhado líbio

 

Saif al-Islām Gaddafi havia sido detido por rebeldes em novembro de 2011 perto da cidade de Awbari, no deserto líbio, quando tentava chegar ao Níger após ter perdido o polegar e o indicador direitos em um bombardeio.

 

Saif foi encarcerado em Zintan, após o que o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu uma ordem de prisão contra ele por supostos crimes contra a humanidade, embora em 2017 tenha sido beneficiado com uma anistia.

 

Por medidas de segurança, seu paradeiro era desconhecido. Seu domicílio era um dos segredos mais bem guardados da Líbia.

 

Embora em 2021, apesar de ser procurado pelas autoridades, ele tenha apresentado sua candidatura nas presidenciais daquele ano, contando com um importante núcleo de seguidores de seu pai. Finalmente, como tantas outras vezes, as eleições foram adiadas.

 

Naquela ocasião, disse-se que Saif teria tido muitas possibilidades de vencer, inclusive entre o voto jovem, para quem o sobrenome Gaddafi era algo demasiado borrado.

 

Após se conhecer sua morte e suas circunstâncias, seu advogado, Abdullah Othman Abdurrahim, declarou que seu cliente foi atacado por quatro homens armados, que invadiram a residência de Saif al-Islām após desconectar as câmeras de vigilância, para executá-lo imediatamente.

 

O advogado havia denunciado nas redes, algumas semanas antes, a degradação da segurança naquela propriedade, onde finalmente foi executado.

 

Esse não havia sido o primeiro atentado contra sua vida: em 2019, soube-se que foram oferecidos trinta milhões de dólares por sua cabeça, sem se saber se a operação havia sido paga apesar do fracasso.

 

Rapidamente, a Brigada de Combate 444, uma das tantas milícias autônomas financiadas pelo Ministério da Defesa do GUN, negou qualquer relação com o assassinato.

 

Sublinhou que não haviam sido emitidas ordens oficiais para seguir Saif, e que não tinham nenhuma unidade atenta a seus movimentos.

 

Algo difícil de acreditar, já que o filho do coronel era uma das figuras mais temidas pelo regime que governa Trípoli. Embora não tivesse presença decisiva no atual contexto político do país, era uma figura alternativa, com peso simbólico, pela simples posse do sobrenome, capaz de convocar muitas organizações e pessoas após o fracasso de todo o processo que se seguiu à morte do coronel.

 

Embora o Ministério Público tenha anunciado que, após os estudos forenses, seguem as investigações em busca dos suspeitos, elas dificilmente progredirão, como ocorreu na absoluta maioria das centenas de milhares de mortes produzidas a partir de 2011.

 

Outras versões sobre a responsabilidade do atentado apontam para a milícia de Saddam Haftar, filho de Khalifa Haftar, o senhor da guerra, antigo general do coronel, que se apoderou do leste da Líbia e é parte fundamental da atual anarquia.

 

Diversos analistas políticos consideram que o assassinato não mudará o equilíbrio político ou militar na Líbia, mas pode representar mais um fator da fragilidade geral instalada no país.

 

Sua ausência retira do contexto político, social e simbólico a presença do sobrenome Gaddafi, de qualquer disjuntiva possível, após ter sido fundamental nos últimos 57 anos, desde que o capitão Gaddafi liderou o golpe que pôs fim à farsa do reinado de Idris I, colocado a dedo pelas Nações Unidas após a unificação das regiões da Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan, dando espaço ao surgimento da Líbia para a criação da Jamahiriya — um acrônimo de duas palavras árabes que definem as palavras castelhanas massas e república — um sonho definitivamente morto para a Líbia.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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