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"Somalilândia ou a culpa do porco"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura
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 Não é preciso ser um gênio para conjecturar algumas das razões que levaram o governo sionista de Israel a tomar a decisão de se converter no primeiro país do mundo a reconhecer a Somalilândia como nação independente. Algo que o enclave rebelde do norte da Somália vem pretendendo há já 35 anos.

 

Entre algumas das razões que saltam à vista, não se pode ignorar a posição geográfica da Somalilândia, com seus mais de 800 quilômetros de costa sobre o Golfo de Áden, localizada à entrada do estratégico estreito de Bab el-Mandeb, que comunica o Mar Vermelho — passagem de ida e volta para o canal de Suez — com o oceano Índico, de um valor estratégico incomensurável para o comércio internacional.

 

A região que, desde a invasão sionista a Gaza em outubro de 2023, os houthis iemenitas vêm bloqueando a passagem de navios vinculados de alguma maneira a Israel, com projéteis certeiros que já afundaram alguma embarcação, o que obrigou muitas companhias de navegação a modificar suas rotas, incrementando o valor de seus fretes.

 

Com isso, essa medida de Tel Aviv imprime à região ainda mais tensões às que historicamente vive o Chifre da África, como os atritos entre Etiópia e Somália, pela assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) de janeiro de 2024, que Adis Abeba acordou com a Somalilândia, que lhe permitia utilizar um porto, o que gerou a reação imediata de Mogadíscio, que ameaçou com a possibilidade de uma guerra.

 

A presença na Somália do grupo integrista al-Shabab, uma das khatibas mais letais da al-Qaeda no mundo, à qual é preciso somar as tensões da Etiópia com Eritreia e Egito, e, mais distante, mas cuja magnitude não deixa de perturbar toda a região, a guerra civil sudanesa.

 

A esse espectro somou-se, nas últimas semanas, o reaquecimento da situação no sul do Iêmen, onde os Emirados Árabes Unidos (EAU) estão incentivando as intenções separatistas de grupos armados pertencentes ao Conselho de Transição do Sul, o que provocou a reação da Arábia Saudita, bombardeando a cidade portuária de Mukalla depois de se saber que duas embarcações emiradenses haviam entregue armas e veículos de combate aos separatistas. Riad acusou seu principal aliado na guerra contra os houthis (2015-2020) — guerra que tiveram de abandonar antes da iminente vitória dos iemenitas — de realizar ações “altamente perigosas”.

 

Para além da derrota dissimulada, os sauditas não deixaram de considerar o Iêmen, com o qual compartilham uma fronteira de cerca de 1500 quilômetros, como um território ao qual somente eles podem ter acesso. Por isso, o Reino deu aos emiradenses um prazo de 24 horas para abandonar o Iêmen. O que, para além dos primeiros arroubos, começaram a fazer sem maiores condicionamentos.

 

Nas cada vez mais agitadas águas do Golfo de Áden, acaba de ser conhecido o anúncio da Turquia de que, em fevereiro, dispõe-se a realizar sua primeira exploração em águas profundas no exterior. O ponto é nada menos que diante das costas somalis. Em 2024, Ancara, um aliado-chave do governo de Mogadíscio, havia assinado um acordo de prospecção para diversificar suas fontes de energia e reduzir sua dependência das importações, investindo em explorações tanto em nível nacional quanto internacional.

 

É nesse contexto que os sionistas se posicionam na área com a desculpa do reconhecimento da Somalilândia, o que lhes permitirá, para além da questão diplomática, realizar investimentos, com tudo o que isso acarreta, não apenas na busca de gás e petróleo em Áden, mas também aproximar-se das bases houthis, no momento em que estoura uma nova e “casual” onda de protestos no Irã, que já provocou cerca de dez mortos.

 

De quem é o porco?

 

A arriscada decisão de Tel Aviv, apresentada por Netanyahu como uma extensão do espírito dos “Acordos de Abraão”, impulsionados por Donald Trump ao final de seu mandato anterior, buscava normalizar as relações entre Israel e algumas nações árabes, como os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos. O que permitiu a estes últimos “legalizar” os territórios usurpados desde 1975 da República Árabe Saarauí Democrática (RASD). Com isso, Washington pretendeu isolar ainda mais Teerã e começar a exterminar a causa palestina.

 

A ação propagandística de Israel gerou um pequeno terremoto diplomático, começando pela rejeição categórica por parte do governo central de Mogadíscio e de grande parte da comunidade internacional, à exceção de Taiwan, que apoia a soberania e a integridade territorial da Somália.

 

Enquanto a decisão de Netanyahu, notificada diretamente ao presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed “Irro” Abdulahi, repercutiu de imediato nas ruas das principais cidades da região semiautônoma, onde centenas de milhares de pessoas celebraram a data como um dia histórico.

 

Israel prometeu incrementar a cooperação com seu novo sócio, enquanto o governo do presidente somali, Hassan Sheikh Mohamud, definiu a ação judaica como uma “agressão ilegal”. O parlamento, por sua vez, em sessão extraordinária, declarou nulo o reconhecimento, qualificando-o como uma violação do direito internacional.

 

A União Africana, a Liga Árabe e a Turquia — que conta com uma importante base militar no país — além do Irã, do governo palestino, do movimento Hamas e dos rebeldes houthis, definiram a medida como uma tentativa de Tel Aviv de se envolver na região.

 

Estima-se que, após normalizadas as relações com Hargeysa, Israel tentará estabelecer acordos militares e de segurança com a Somalilândia, o que incluirá a instalação de bases militares a partir das quais poderia atacar não apenas o Iêmen, mas irradiar influência para outras nações do Chifre da África, além de Quênia, Uganda e Burundi, país com o qual Tel Aviv mantém muitas coincidências e acordos em áreas sensíveis: defesa, tecnologia e energia solar.

 

Segundo autoridades palestinas e do Hamas, esse reconhecimento teria também o objetivo de reassentar população expulsa de Gaza e da Cisjordânia na Somalilândia. Versão que já foi rejeitada pelas autoridades da região semiautônoma, assegurando que essa opção nunca esteve nas negociações.

 

A Turquia, ademais, observa com muita atenção a intromissão sionista na questão interna da Somália, não apenas pelos grandes interesses de Ancara no país — que abriga a maior base militar turca fora de seu território — mas também pela relação cada vez mais tensa que mantém com os sionistas, devido à crescente ingerência destes últimos na Síria.

 

Como era de se esperar, já que medidas como a que Israel acaba de tomar nunca são decididas de forma isolada e são consensuadas com o Departamento de Estado, os Estados Unidos saíram na segunda-feira com veemência, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, para respaldar a decisão dos sionistas, argumentando que: “Israel tem o mesmo direito de estabelecer relações diplomáticas que qualquer Estado soberano”. Enquanto isso, a China, no mesmo âmbito, criticou a decisão, pois, segundo Pequim: “Nenhum país deveria incentivar nem apoiar forças separatistas internas de outros países por seus próprios interesses”. De forma semelhante posicionou-se a Rússia, declarando na reunião de segunda-feira em New York que: “Estamos profundamente preocupados com a decisão politicamente motivada de Israel de reconhecer a independência da Somalilândia. Essa decisão contradiz a soberania, a integridade territorial e a unidade da República Federal da Somália”.

 

Embora o mais previsível seja que Tel Aviv, a partir de agora, mantenha um perfil baixo na região, mais cedo ou mais tarde acelerará suas ações bélicas, para além do que digam os Estados Unidos, que, afinal, neste caso, são os donos do porco.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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