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Barrar a regressão social, conquistar uma vida digna



Os jovens brasileiros, até uns trinta anos atrás mais ou menos, ao procurar se empregar, em geral conseguiam. Se tivessem escolaridade razoável, encontravam um emprego com salário definido e alguns direitos trabalhistas.


De uns tempos para cá, mesmo com boa escolaridade, os jovens estão sendo constrangidos a aceitar subempregos, praticamente sem direitos.


Não queremos dizer com isso que tudo ia bem para os trabalhadores até os anos 80. Havia muitos problemas, o analfabetismo era muito maior e o acesso geral aos serviços de Educação e Saúde era bem menor. No entanto, os avanços que ocorreram de lá para cá são bem maiores no papel do que na prática e em muitos aspectos regredimos. Por quê?


O progresso tecnológico, para os trabalhadores, tem significado jornadas maiores e mais intensas e não o contrário, como poderia ser. A legislação trabalhista que protegia os trabalhadores vai sendo eliminada. De um sistema de educação em boa parte precarizado, privatizado e voltado aos interesses da burguesia, os jovens proletários só podem participar parcialmente, uma vez que, ainda crianças, precisam dividir o tempo dos estudos com jornadas de trabalho, domésticas ou não.


O acesso aos serviços de saúde também é bastante parcial para a classe trabalhadora, uma vez que as pessoas da nossa classe, em geral, só buscam esse serviço quando já estão doentes, até porque as condições de vida que temos propiciam o adoecimento e não a sua prevenção. Também nessa área verifica-se uma regressão enorme e o tratamento dado à pandemia do coronavírus por parte dos governos está aí para demonstrar.


O SUS – Sistema Único de Saúde – conquista importante das lutas populares em nosso país, sofre desde a sua criação com o boicote da parte dos governos que buscam empurrar as pessoas para os grupos privados de saúde. Sem o SUS e a dedicação dos seus trabalhadores, a parcela mais empobrecida do povo não teria nenhum atendimento em saúde.


Não vamos nos alongar aqui em descrever tantos retrocessos na área da cultura, do lazer, do transporte público e em tantas outras esferas, essenciais para uma vida saudável. Uma parte considerável do povo brasileiro simplesmente não tem acesso a eles. Por quê?


Das respostas que dermos a estes porquês, depende a solução dos problemas que enfrentamos. Como já tivemos oportunidade de escrever aqui mesmo neste espaço, alguns naturalizam a tragédia social, colocando a culpa nas pessoas que as sofreriam por sua própria incapacidade. Outros sobrenaturalizam essa tragédia e colocam as esperanças numa reconciliação do ser humano com o divino. Não devemos esquecer também o papel da academia neste processo de justificação dos retrocessos verificados nas últimas décadas. Muito se escreveu e ainda se escreve sobre o fim da “centralidade do trabalho” no processo produtivo, sobre o fim do “compromisso fordista” e coisas assim.


Nós pensamos de outra forma e entendemos que o que desencadeou os enormes retrocessos sociais foi uma inversão na relação das forças políticas e sociais em favor da burguesia, conforme registramos em outro lugar.


“No final do século XX, a vitória da contrarrevolução capitalista determina o fim do bloco socialista. Tal fato foi festejado pela burguesia e anunciou-se o fim da luta de classes; o fim das ideologias; ou mesmo o fim da História! Segundo os apologistas dessa nova ordem mundial, incluindo aí parcela significativa da esquerda, entraríamos numa era de paz e progresso. Nada disso se verificou e as consequências não se fizeram esperar”.


Henri Aleg descreveu parte dessas conseqüências em “O Grande Salto Atrás”, afirmando que na ex-URSS, em pouco tempo, a expectativa de vida caiu dez anos. A subalimentação, num mundo que produz cada vez mais alimentos, ameaça boa parte da humanidade. Mais da metade do povo brasileiro corre risco de passar fome, mas as privatizações e os ataques aos direitos dos trabalhadores continuam. O auxílio-emergencial foi reduzido e o dinheiro público, em sua maior parte é direcionado a pagar juros aos especuladores que emprestam ao governo, sob os aplausos de muitos.

Do que foi dito até aqui, conclui-se que, se o capitalismo teve uma cara mais humana ao longo do século XX, não foi por méritos próprios, mas sim porque foi obrigado a isso por um forte movimento comunista internacional, que organizava partidos revolucionários em cada país, para levar a cabo a revolução. A burguesia nesse período teve que ceder os anéis para não perder os dedos, mas quando se viu livre desse constrangimento, trata de reaver tudo o que cedeu.


É justamente essa profunda regressão social que obrigou o proletariado de todos os países e as demais camadas exploradas do povo a desenvolver lutas heroicas, como as que ocorreram ainda nos anos 90 do século passado e outras tantas desde então. Lutas contra o fim dos direitos trabalhistas e contra as privatizações e desnacionalizações, contra as ocupações e intervenções imperialistas, contra as ameaças e ingerências à soberania dos povos.


Em 2019 tivemos, na esteira dessa resistência, verdadeiras insurreições no Chile e no Equador. Ano passado o proletariado indiano organizou uma greve geral com ampla repercussão. Esse ano foi a vez do povo paraguaio se insurgir contra a oligarquia que dirige o país, o mesmo ocorre no Haiti. Por estes dias também o povo colombiano se levantou contra um pacote do governo que pioraria ainda mais suas já precárias condições.


No Brasil também desenvolvemos uma importante resistência ao fim da aposentadoria para os trabalhadores, que é a consequência prática das reformas em andamento em nosso país.


Devemos saudar e apoiar com todas as nossas forças essas lutas. Mas, em nossa opinião, elas ainda esbarram no limite de serem lutas defensivas, desligadas da luta pela revolução que coloque a possibilidade de mudanças estruturais que, de fato, melhorem as condições de vida da maioria do povo. Tais lutas se chocam na domesticação de vários partidos ditos comunistas, na política dos partidos reformistas que desencoraja os trabalhadores, desorganiza-os, rebaixa seu nível de consciência e no papel que cumpre as centrais sindicais pelegas.


Nos dias de hoje, os revolucionários tem diante de si o desafio de reconstruir o seu partido, e juntamente com os setores patrióticos da sociedade brasileira, desenvolver a luta de resistência contra os ataques que temos sofrido, ligando-a com a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários, pela reforma agrária, por salário igual para trabalho igual, pela nacionalização dos bancos e demais monopólios. Sem essas medidas não será possível reorganizar a economia para atender as necessidades populares.


Os brasileiros e brasileiras que viverão para ver os duzentos anos da independência de nossa pátria devem assumir o compromisso de lutar pela segunda e definitiva independência, honrando a memória dos melhores filhos do Brasil, que se bateram em outras épocas para que tivéssemos uma vida digna, muitos com o sacrifício da própria vida. Sejamos dignos dessa história.



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