Ilusões de Marcelo Freixo sobre a “unidade da esquerda” nas eleições de 2020


Há alguns dias, Marcelo Freixo anunciou a retirada de sua candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro para as eleições municipais de 2020. Em diversos meios, dentre eles uma Live feita em sua conta do Instagram, fundamenta as razões que o levaram a se retirar do pleito nas condições de candidato. No fundo, tais razões sintetizam uma série de entendimentos e concepções que, profundamente equivocados, influenciam bastante a prática do movimento popular e dos círculos socialistas de nosso país. Portanto, não pretendemos personificar a crítica na figura de Freixo, pois suas noções são compartilhadas por inúmeras pessoas em nossos país, e trazem danos políticos a nível coletivo, até mesmo para quem não compartilha das mesmas opiniões.

A não concorrência à prefeitura por Freixo parece trazer consigo boas intenções. Diante do avanço do fascismo (fascismo este que ainda pouco se preocuparam em precisar o que significa) no Brasil, não seria tolerável uma esquerda dividida, e assim sendo, a retirada de seu nome se apresenta como um gesto em defesa da unidade da “esquerda” contra a onda fascista representada, no seu entender, por Bolsonaro. Mas por que essa unidade não se concretiza? Não há um programa comum capaz de unificar todos os partidos da chamada “esquerda”? Quais são os fatores de unidade e divergência entre os diferentes partidos?

Se verificarmos os programas de partidos como PT, PCdoB, PDT, PSOL, PSB e outros, ao menos na letra fria, há realmente muito mais semelhanças que divergências, então poder-se-ia imaginar que a unidade já deveria ter se concretizado muito antes da emergência do golpe de 2016 ou da eleição de Bolsonaro em 2018. Temos o PT, com sua noção de “democratização do Estado”, PDT e PCdoB com o chamado “desenvolvimentismo” ou “projeto nacional de desenvolvimento”, PSOL com suas chamadas “agendas identitárias” e de “defesa dos direitos humanos”, PSB com seu fisiologismo: noções estas que não são exclusivas das diferentes siglas e compartilham-se mutuamente entre todas elas. Verificando as aparências, portanto, a falta de unidade realmente é de se causar espanto, mas não o é se verificarmos a substância da prática das mesmas siglas.

O que realmente unifica todos os partidos da chamada “esquerda” é o cretinismo parlamentar e o hegemonismo eleitoral, não a luta contra o fascismo. Dado que os funcionários e parlamentares destes partidos se tornaram, na prática, capitalistas burocráticos, é natural que cada um deles busquem demarcar seus respectivos territórios, a manutenção dos respectivos cargos, etc. Tais disputas por “demarcação de territórios” e hegemonismo eleitoral não se manifestam apenas entre as diferentes siglas, mas no seio delas próprias. Pior ainda, como vemos, são disputas pessoais, burguesas, e não de divergências de princípios, programa ou concepção política a nível tático e estratégico. Nestas condições, qualquer unidade não é senão frágil, sem fundamentos e temporária, prevalecendo, ao contrário, a lei da selva pura e simples para a manutenção de feudos pessoais e dos respectivos correligionários.

É notório que Freixo, ao tratar da luta contra o fascismo, tenha falado exclusivamente em termos de alianças eleitorais para a derrota do chamado “projeto bolsonarista”, manifestando assim uma grave incompreensão (ou oportunismo deliberado, mas tratando-se de um ou outro, não importa para os resultados práticos). O fascismo não é um fenômeno puramente eleitoral, nem mesmo predominantemente eleitoral, ainda que haja no Brasil e nos países restantes políticos francamente fascistas. Não se tratando de um fenômeno eleitoral, jamais conduziremos contra o fascismo qualquer golpe consequente por vias eleitorais.

Freixo não fala uma vírgula sequer sobre a presente situação do movimento operário, camponês, estudantil, dos trabalhadores sem-teto, ou das demais massas trabalhadoras. Que programa (mínimo e máximo, pensando a curto, médio e longo prazo) permite unificar as amplas e verdadeiras forças políticas do povo trabalhador, que se traduza numa extensa campanha de denúncias de cortes salariais, demissões, manutenção de condições insalubres, assédios e demais arbitrariedades conduzidas nas fábricas e empresas pelo grande patronato? Como combater o peleguismo no movimento operário? O que pode ser feito para repercutir os morticínios e assassinatos de lideranças e militantes do movimento camponês, das populações tradicionais organizadas, por parte dos senhores de terras e agroindustriais? O que fazer para que os pobres do campo se protejam das humilhações, torturas e assassinatos e conduzam uma verdadeira ofensiva contra a reação rural fascista? Como unificar as massas trabalhadoras dos centros urbanos brasileiros para que se protejam contra as constantes humilhações e assassinatos por parte da Polícia Militar, milícias e demais bandos armados? O que pode ser feito para arrastar para um amplo movimento popular os pequenos e médios empresários que também têm sido depenados pelas medidas não apenas do governo Bolsonaro como dos governos passados? Como causar ampla indignação entre o povo os frequentes ataques contra os intelectuais, o pensamento científico, e a defesa do obscurantismo por parte de Bolsonaro e seu governo? Que medidas tomar e que caminhos seguir para restaurar o prestígio e a vitalidade, há muito tempo perdidos, dos instrumentos de luta do povo trabalhador, dos sindicatos, cooperativas, frentes de massas e demais?

Pretender aclarar tais questões soa como algum tipo de “arrogância” – é a resposta mais comum para estes questionamentos! –, mas independentemente da existência ou não de respostas prontas para problemas realmente complexos como estes, não há o menor esforço de reflexão por parte de Freixo e demais figuras do oportunismo (consciente ou não) eleitoral. Mas esquecem estes senhores que somente respondendo corretamente tais perguntas, e manifestando as respostas corretas na prática cotidiana e militante dos milhões que compõem o povo, será possível combater a reação fascista e entreguista e levar as massas à ofensiva. Somente assim será conquistada verdadeira unidade, forjada na luta e no amplo debate (contrariando as noções de Freixo, segundo as quais as críticas são prejudiciais à unidade) sobre os problemas mais candentes que afetam as massas brasileiras e sua organização. Freixo, porém, como irresponsável que é, pretende responder à formação de milícias armadas de extrema-direita com uma impossível “unidade” em torno do cretinismo parlamentar. Lamentavelmente, tais noções são influentes nos círculos socialistas e movimentos populares.

A fragmentação política do campo democrático e progressista constitui, realmente, uma grave debilidade sobre a qual galopa o fascismo em ascensão, ascenso este que só pode ser respondido com uma unidade profunda. Quando, no passado, o fenômeno do fascismo se apresentou na História pela primeira vez, os comunistas, organizados na III Internacional Comunista, estiveram na linha de frente em defesa da ampla unidade de forças para a luta antifascista. Principalmente durante as décadas de 1930 e 1940, o clamor pela unidade resultou na formação de amplíssimas Frentes Populares antifascistas em quase todos os países do mundo, que abarcavam não apenas os comunistas (embora estes constituíssem seu núcleo mais sólido e militante), como também os socialistas (socialdemocratas), anarquistas, liberais burgueses e pequeno-burgueses, católicos, muçulmanos, etc., e tal unidade tão ampla de forças e concepções políticas tão diferentes se refletiam na unidade entre os sindicatos e demais movimentos de massas, formando o imenso bloco mundial pela democracia que conduziu o golpe mortal contra o fascismo em 1945. Mas esta unidade nada teve a ver com a falsa unidade apregoada por Freixo, pois a verdadeira unidade política do povo brasileiro só se concretizará com uma unidade programática, organizativa e, sobretudo, assentada numa compreensão firme sobre quais são, na sociedade brasileira, as classes revolucionárias, reacionárias e vacilantes. Tal compreensão permitirá que lidemos com as diferentes situações, bem como com as frequentes e súbitas viradas políticas.

Nossos liberais (conhecidos como “esquerda”) e socialdemocratas não são honestos o suficiente para reconhecer que são eleitoreiros e estão afundados no cretinismo parlamentar. Em palavras, reconhecem a importância de termos como “movimentos sociais”, “sociedade civil” e outras palavras bonitas, sustentando inclusive que devemos combater o “conservadorismo” não só nas “urnas”, mas também nas “ruas”. Iludem os incautos ao falarem sobre os “limites” das eleições e a importância dos “movimentos sociais”. Nas atitudes, porém, transformam os chamados “movimentos sociais” em apêndices eleitorais, subordinam a atuação deles às eleições burguesas e prostram sua combatividade. Aqui, novamente, qualquer unidade mais ou menos duradoura é impossibilitada.

Em suas declarações, Marcelo Freixo incorre em cada vez mais equívocos. Dado que a discussão de princípios é deixada de lado, na visão dele, apesar disso, nenhum projeto pessoal pode estar acima da defesa da democracia. A unidade da esquerda, assim, deve se apoiar na defesa da democracia. Sem que seja bem definido, o termo “democracia” torna-se genérico (como no passado fizeram os comunistas, que também defenderam a unidade em defesa da democracia) e não é capaz de unificar ninguém, e menos ainda de mobilizar em sua defesa as massas brasileiras. Esta incompreensão se manifestou nos elogios feitos por Freixo a um sujeito tão podre como Rodrigo Maia, que por conta de disputas com Bolsonaro (pois o próprio governo brasileiro está sendo triturado por disputas interiores) e protestos de boca contra as manifestações que defendiam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Até mesmo Maia se tornou um “democrata”. Pela mesma lógica, Dória, Witzel e demais também são “democratas”, que manifestam sensatez contra as insanidades de Bolsonaro. A estreiteza de pensamento da concepção liberal travestida de “esquerda” torna obscuras todas as disputas que ocorrem no Estado brasileiro, e inimigos do povo, que apenas querem ocupar o lugar de Bolsonaro como bandido-mor, são postos como democratas e sensatos.

A unidade das massas brasileiras exige, como podemos ver, uma ruptura radical com a ideologia burguesa que nada mais pode fornecer para a prática que cretinismo parlamentar.

NOVACULTURA.info

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