"Depois de Gaza, tudo será permitido"
- NOVACULTURA.info

- 22 de abr.
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Quem são os libaneses, quem são os iranianos e quem somos todos nós, para não merecermos a sorte de Gaza? Para esse destino nos precipitamos, por não termos detido o sionismo antes que emergisse de seu ovo.
Agora, para tudo é tarde demais e tudo está distante demais. Sob os escombros de Gaza, foi enterrada a condição humana, e aquela enteléquia que um dia se chamou Direito Internacional.
Por que então nos espantarmos como matronas de bairro quando os Estados Unidos bombardeiam conscientemente uma escola e matam 170 meninas, sem que ninguém diga nada? E continuam assassinando, junto a seus sócios sionistas, milhares de civis no Irã, no Líbano e em Gaza. Destruindo não apenas instalações militares, mas também infraestrutura básica para a subsistência humana, como estações de tratamento de água, usinas elétricas, laboratórios médicos e hospitais, com tudo o que há dentro.
Trump mal havia terminado de aceitar a oferta paquistanesa de uma trégua de duas semanas, para sentar-se imediatamente a negociar com o Irã em Islamabad, quando a aviação israelense aprofundava suas operações no sul do Líbano, com a mesma intenção com que atua na Palestina há quase 80 anos, e que, a partir de 8 de outubro de 2023, já sem nenhum freio, martiriza Gaza em busca da solução final: o genocídio ou o deslocamento forçado dos moradores de Gaza, para finalmente impor esse evangelho que combina supremacismo com expansionismo.
Nesse contexto, cabe perguntar por que Teerã aceitou viajar a Islamabad. Eles, sem dúvida, conhecem as razões para se sentar mais uma vez em uma nova rodada de negociações com Washington: apesar de já terem caído duas vezes na mesma emboscada. Recordemos que as discussões estavam em pleno desenvolvimento quando, como sempre, Israel atacou traiçoeiramente, dando início à guerra dos 12 dias; e o mesmo aconteceu nesta última ocasião, em 28 de fevereiro.
Foi uma necessidade estratégica de Teerã? Para organizar sua frente interna, calcular danos, reestruturar suas linhas de produção e abastecimento de drones e mísseis? Ou talvez tenha considerado que, com esse gesto ao “mundo”, demonstrava disposição para encontrar uma solução pacífica para um conflito que já dura 47 anos? Também existe a possibilidade de ter cedido às pressões de Pequim, que foi quem redigiu o comunicado assinado pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif.
Não importam os porquês; o resultado de Islamabad, em termos turfísticos, era certo. Trump enviou para negociar a paz Jared Kushner ou Steve Witkoff, os mesmos personagens que, junto com Benjamin Netanyahu, o envolveram com a história de que a Operação Fúria Épica seria uma questão de dois ou três dias. Ao time sionista somou-se o vice-presidente J.D. Vance, apesar de que, desde o início, não concordava com a guerra e se manteve fazendo contorções durante esses 45 dias, assim como muitos na Casa Branca e no Pentágono, para expressar publicamente sua verdadeira opinião. E, obediente, submeteu-se às ordens do chefe, sabendo que tudo seria abortado como nas duas cúpulas anteriores.
Após 21 horas de conversas entre Vance (monitorado constantemente por telefone por Netanyahu), além das 11 vezes em que teve de atender chamadas da Casa Branca, chegou-se ao esperado: o nada.
Diante da delegação persa, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, e outras autoridades de primeira linha do governo, que apresentaram propostas concretas: manter o controle sobre Ormuz, com direito a cobrar pedágio e decidir quem entra e quem sai do Golfo Pérsico. Além de continuar com seu projeto nuclear, levantar as sanções econômicas e recuperar os ativos retidos por bancos ocidentais há décadas.
Os Estados Unidos apenas compareceram para ganhar tempo, sem saber muito bem quais eram suas próprias pretensões. Para a chegada da delegação de Vance à capital paquistanesa, Trump pretendia compartilhar os pedágios com o Irã; diante da recusa iraniana, decidiu então que seria ele quem bloquearia o bloqueio persa, em um jogo constante de troca de posições que confundiria até os irmãos Marx.
Se queres a paz, prepara-te para a guerra
Não haverá paz no Oriente Médio, não importa até onde avancem agora as negociações iniciadas em Washington nesta terça-feira, dia 14, entre duas enteléquias difíceis de descrever: Líbano e Israel, nas quais participará Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano.
Sem a presença do Hezbollah nessa mesa — à qual se recusou categoricamente a participar — tudo será inútil. Porque esse grupo é o verdadeiro poder no Líbano, e foram eles que impediram, não agora, mas em 2006, que a Entidade sionista anexasse o país, como fez com a Palestina.
O número de mortos causados pelos ataques israelenses no Líbano, apenas desde outubro de 2023 até agora — embora seja praticamente impossível reconstruir a cifra exata — nunca pode ser inferior a cerca de 15 mil pessoas, sendo mais de três mil apenas no fim de semana anterior à fracassada rodada de Islamabad. Os ataques desde o início dessa guerra no Líbano também provocaram o deslocamento de mais de um milhão de pessoas.
Ainda que sejam alcançados os desejos de Joseph Aoun, presidente libanês, de um cessar-fogo, todos sabem que esses objetivos, como sempre, têm prazo de validade, e que, assim que Tel Aviv se sentir minimamente recuperada dos graves danos causados pela ação coordenada de Hezbollah e Irã — como nunca antes —, voltará a atacar com toda a força disponível. Por isso, sua pretensão de desarmar o Hezbollah é impossível de aceitar, já que é a milícia xiita que sustenta a existência do Líbano.
É por isso que o Hezbollah não aceitará o que for acordado em Washington; manter-se-á alinhado com Teerã no momento de reiniciar a guerra, que mais cedo ou mais tarde voltará a se reativar.
E, prevendo isso, Naim Qassem, sucessor de Hassan Nasrallah — assassinado em outubro de 2024 — como secretário-geral do Hezbollah, advertiu que as negociações de Washington são um ato de “submissão e rendição”.
As diatribes maximalistas tanto de Benjamin Netanyahu quanto de seu aliado Donald Trump estão muito longe de trazer calma à região — muito pelo contrário.
Com o bloqueio de Ormuz, mais uma vez Trump subiu em uma posição da qual será muito difícil descer sem voltar a fazer o ridículo, como já nos acostumou. Pois não parece haver resposta para a pergunta sobre o que pode acontecer se algumas das embarcações que os Estados Unidos dizem interceptar no Golfo de Omã — indo ou vindo de Ormuz — forem russas ou chinesas. Atrever-se-ão a deter suas tripulações e confiscar os navios e suas cargas?
Tanto Moscou quanto Pequim sabem que aceitar algo assim — que deve ser considerado um ato de guerra — seria enviar um sinal a Trump para que volte a se considerar dono da situação e aja em consequência, o que poderia incluir avançar sobre o Irã.
Enquanto isso, Israel continua ameaçando agora também a Turquia, apoiando-se na crescente cooperação com Grécia e Chipre.
Ancara, que assim como o Cairo havia se mantido à margem da guerra, agora foi acusada de ter vínculos com Teerã e seus aliados: Hezbollah, Hamas e os houthis do Iêmen, cada vez mais próximos de estabelecer um novo bloqueio no estreito de Bab al-Mandeb, que regula a passagem do Golfo de Áden para o Mar Vermelho — o que, combinado com Ormuz, detonaria a já fragilizada economia global.
Declarações recentes do ministro turco das Relações Exteriores, Hakan Fidan, explicam que Israel não pode existir sem um inimigo: “Depois do Irã, buscará designar a Turquia como um novo inimigo”. Prevê-se, obviamente, que até lá a OTAN — da qual a Turquia faz parte — já terá se desintegrado ou optará por olhar para o outro lado.
A ruptura se originou a partir das declarações do presidente Recep Tayyip Erdoğan, que acusou Israel de “perpetrar um genocídio em Gaza”.
Por isso, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, chamou Erdoğan de “tigre de papel”, criticando-o por não ter reagido aos supostos lançamentos de mísseis do Irã contra seu país — ação que se especula ter sido um ataque de falsa bandeira, buscando provocar a reação de Ancara contra Teerã.
Israel baseia suas provocações em sua associação em matéria de energia e defesa regional, no valor de 3 bilhões de euros, para adquirir o sistema de mísseis israelense PULS para o sistema de defesa grego conhecido como “Escudo de Aquiles”. Fidan afirmou que a nova aliança (Israel, Grécia e Chipre) pretende cercar a Turquia.
O ente sionista, embora ainda não saiba como sairá da guerra com o Irã, já se lançou a desafiar a Turquia — o segundo maior exército da OTAN — esperando que seus novos aliados do Mediterrâneo oriental o acompanhem. Porque, depois de Gaza, tudo será permitido.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional







































































































































