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"República Democrática do Congo, não importa quando"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • 9 de jun.
  • 5 min de leitura

 

Não importa quando alguém revise as informações, consulte sua agenda ou olhe um pouco além das grandes manchetes: na República Democrática do Congo (RDC), haverá uma guerra, uma antiga ou uma nova, não importa, pois absolutamente sempre será a mesma e por um único motivo: a pilhagem de seus infinitos recursos naturais (coltão, cassiterita, ouro e outros minerais estratégicos). Por isso, nas guerras da República Democrática do Congo, os mapas geológicos se sobrepõem aos mapas militares com uma precisão exasperante.

 

Sobrepostas umas às outras, no leste do país, um sem-número de grupos armados, financiados do exterior, reivindicam há décadas, com maior ou menor intensidade, porções de sua geografia; reapareceram “surpreendentemente” as brigadas de uma guerrilha extinta conhecida como Movimento 23 de Março (M-23), para reivindicar uma nova oportunidade. E, como se sabe, sempre é uma boa ocasião para uma nova guerra no leste do Congo.

 

Sob essa premissa, desde janeiro do ano passado, um novo conflito explodiu na província de Kivu do Norte, na fronteira com Ruanda, quando o M-23, articulado e financiado a partir de Kigali, lançou uma ofensiva contra Goma, a capital de Kivu do Norte, deslocando milhares de civis e centenas de combatentes. As Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC), apoiadas pelas milícias Wazalendo (patriotas, em suaíli) e por contingentes regionais, tentaram recuperar terreno por meio de diversas operações. No entanto, os resultados obtidos até agora são limitados, gerando desde então um minueto de avanços e retrocessos, tomadas e retomadas de localidades e até de cidades importantes, incluindo capitais provinciais do leste, e desde então o conflito não cessou.

 

Embora naquele momento todos tenham voltado o olhar para a República Democrática do Congo, mais pela possibilidade de um confronto direto entre Kinshasa e Kigali, uma vez superada essa possibilidade, pelo menos no plano formal, tudo voltou à normalidade; no leste, travava-se uma guerra sem importância.

 

Importante ou não, a característica essencial de qualquer guerra é que ela produz mortos. E esta, sem ser o auge absoluto da guerra, também cumpre seu papel.

 

Segundo o que acaba de ser divulgado, desde o início do ano são cerca de 500 os civis mortos em ataques das Forças Democráticas Aliadas (ADF, na sigla em inglês), uma criação financiada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), que desde 2029 se proclamam signatárias do Daesh e operam nas províncias de Ituri e Kivu do Norte.

 

Sua última operação foi executada entre 30 e 31 de maio contra uma aldeia da etnia Mbuti, na comuna de Ruwenzori, próxima à cidade de Beni (Kivu do Norte), onde pelo menos sete membros foram assassinados, enquanto vários integrantes dessa comunidade continuam desaparecidos desde então. Como de costume, as Nações Unidas emitiram vários comunicados sobre o assunto, exigindo o esclarecimento dos fatos e reivindicando maior proteção para essas comunidades, esquecendo que, desde outubro de 2023, teve início a última etapa do longo genocídio sionista contra o povo palestino, e elas agem como se nada estivesse acontecendo.

 

As ADF (não confundir com as IDF — Forças de Defesa de Israel — que possuem a mesma metodologia, mas, ao menos na superfície, não são a mesma coisa) assassinaram, ao longo do ano passado, cerca de 1.300 pessoas, além de destruírem as economias locais e infraestrutura crítica: escolas e centros de saúde, usinas elétricas e estações de tratamento de água. Isso precipita mais uma vez a República Democrática do Congo em uma das maiores crises humanitárias do mundo e provocou o deslocamento massivo de milhares de pessoas.

 

Além da fome e dos massacres, elas fogem do trabalho forçado, da escravidão sexual e do recrutamento de crianças para suas fileiras.

 

Os mujahidins das ADF costumam utilizar diferentes táticas antes de atacar populações, como vestir-se de civis e misturar-se à população horas antes de iniciar a operação, para não despertar suspeitas; foram detectados inclusive casos em que chegaram carregando feixes de lenha para fogueiras rituais em funerais. Quando chega o momento apropriado, começam a disparar para o alto, avisando os grupos de atacantes que aguardam nos arredores das aldeias, dando início ao ritual de mortes, muitas vezes utilizando martelos, machados e facões, quando as armas de fogo não lhes parecem suficientemente cruéis.

 

M-23 e Ebola

 

Com o reaparecimento do Ebola no leste da República Democrática do Congo, acrescenta-se um novo fator, particularmente perigoso, ao cenário configurado nessa região do país.

 

Somado aos contínuos avanços do M-23 e ao que parece ser a plena reativação das Forças Democráticas Aliadas (ADF), a crise sanitária pode ser considerada uma nova frente na guerra multifacetada que o governo do presidente Félix Tshisekedi precisa enfrentar.

 

A epidemia já não se trata apenas de mais uma emergência sanitária, que poderia ser “resolvida” com um plano compatível com a gravidade da crise; ela está entrelaçada com a própria guerra, de modo que equipes médicas, suprimentos e até os responsáveis por enterros em massa passaram a ser alvos dos insurgentes.

 

Assim, os fatores capazes de aprofundar a anarquia em todos os níveis vivida pela região há mais de 30 anos encontram-se mais ativos e melhor articulados do que nunca. Isso porque o epicentro da crise sanitária está localizado no próprio teatro de operações, onde a presença do Estado é praticamente inexistente ou está gravemente enfraquecida pelo conflito armado.

 

Em vastas regiões de Kivu do Norte e Ituri, onde operam o M-23, as Forças Democráticas Aliadas (ADF) e um sem-número de milícias locais, as equipes médicas enviadas para combater a epidemia enfrentam situações de extrema violência e, em muitos casos, tornaram-se mais um alvo de uma guerra que jamais teve códigos.

 

O controle do território muda constantemente de mãos, sem que jamais se saiba com quem é preciso negociar para que uma caravana com suprimentos médicos e suas equipes possa deslocar-se até o local necessário, a fim de continuar o rastreamento da doença e articular os meios para combatê-la. A experiência congolesa demonstra que o Ebola não prospera apenas por razões biológicas. As epidemias anteriores, especialmente as de 2018 e 2020, já haviam revelado que a violência armada atua como aliada da doença.

 

Enquanto isso, torna-se cada vez mais difícil instalar hospitais de campanha, centros de isolamento para os infectados e depósitos para a conservação dos insumos necessários, pois essas estruturas e os profissionais que as integram são constantemente atacados.

 

Ao mesmo tempo, o deslocamento contínuo de milhares de pessoas, muitas vezes vítimas do fogo cruzado, também contribui para que a propagação da doença permaneça fora de controle.

 

Desde o início, em janeiro do ano passado, deste novo capítulo da guerra permanente da República Democrática do Congo, milhões de pessoas tiveram de abandonar suas casas em Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri para montar acampamentos nos arredores de Goma e de Bukavu, capital de Kivu do Sul, onde, no início da contenda, ocorreram intensos combates.

 

Esses acampamentos carecem de todo tipo de serviço, começando pela água potável, tratamento de resíduos e infraestrutura médica, fatores fundamentais para a transmissão de doenças em qualquer contexto, ainda mais em um tão grave como o que se vive ali, onde a epidemia foi declarada em meados do mês passado.

 

O manejo da doença deixou de ter apenas uma dimensão médica para transformar-se em instrumento político, dado que quem consegue garantir atendimento sanitário conquista imediatamente a confiança da população.

 

Especificamente nas áreas controladas pelo M-23, a prestação de serviços médicos está fortalecendo a imagem dos insurgentes. Já a incapacidade de controlar a epidemia põe essa possibilidade em dúvida, aumentando tensões que poderiam acelerar o surgimento quase espontâneo de um novo foco de violência armada. Afinal, nessa região atravessada por décadas de guerra, obter armas é, em muitos casos, mais fácil do que conseguir uma fruta ou um copo de água potável.

 

Enquanto nas entranhas da República Democrática do Congo se trava a guerra de sempre, neste caso, para muitos observadores, existe como nunca antes a possibilidade de que ela se expanda para além de suas fronteiras, alcançando Ruanda, Uganda e Burundi, não apenas pela porosidade dessas fronteiras, mas também pelo envolvimento dessas nações vizinhas no conflito. Para lá, além da violência armada, poderia chegar também o Ebola, tão mortal quanto os drones e as baterias que alimentam uma guerra que, não importa quando, estará ali, sempre vigente.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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