"A nação Mapuche não se rende"
- NOVACULTURA.info

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Há povos e territórios sobre os quais a História parece avançar sempre com botas militares. O Wallmapu — o território ancestral mapuche estendido entre o sul do Chile e da Argentina — é um deles. Há mais de cinco séculos, diferentes poderes foram mudando de bandeira, de hino, de uniforme e de linguagem, mas não de objetivo: apropriar-se da terra, extrair suas riquezas e transformar em mercadoria tudo aquilo que para o povo mapuche jamais o foi.
Primeiro chegou o império inca, que tentou conquistá-los. Depois, a espada e a cruz da Coroa espanhola. Em seguida, os exércitos republicanos. Mais tarde vieram a ferrovia, as grandes fazendas, as empresas florestais, as petrolíferas, as hidrelétricas e, agora, o capitalismo verde disfarçado de transição energética. O extrativismo muda de rosto, mas raramente muda de lógica.
E, no entanto, o povo mapuche continua ali. Essa é talvez a primeira questão que incomoda o poder há séculos: os mapuches nunca desapareceram. Nem sequer foram completamente conquistados pelo Império Espanhol. Enquanto grande parte do continente americano caía sob domínio colonial, os mapuches resistiram durante séculos ao sul do rio Biobío. Diante dessa resistência mapuche, a monarquia espanhola teve de assinar parlamentos e tratados com eles, reconhecendo de fato certa autonomia territorial. Não eram uma nota de rodapé do Império. Eram um problema militar, político e territorial permanente.
E talvez precisamente por isso as jovens repúblicas do Chile e da Argentina decidiram mais tarde completar aquilo que a Coroa espanhola não havia conseguido concluir. Fizeram-no, além disso, em nome de palavras solenes: progresso, civilização, nação e modernidade.
A história latino-americana está cheia de ironias sangrentas. Enquanto as novas elites crioulas proclamavam liberdade diante do colonialismo europeu, empreendiam simultaneamente campanhas militares brutais contra os povos indígenas que obstaculizavam a expansão do novo capitalismo agrário e a construção dos Estados nacionais. No Chile, isso recebeu um nome extraordinariamente perverso: “Pacificação da Araucânia”. Pacificação. Como se a ocupação militar, o deslocamento forçado, o roubo de terras e a destruição sistemática de comunidades inteiras pudessem ser descritos por uma linguagem administrativa quase higiênica.
Na Argentina, o processo foi chamado de “Conquista do Deserto”. Outro prodígio da linguagem colonial. Porque o deserto nunca esteve vazio. Havia povos vivendo ali desde séculos antes da chegada dos Estados ditatoriais que chamam de modernos. Havia cultura, espiritualidade, comércio, memória e formas complexas de organização comunitária. O que realmente precisava ser “desertificado” era a presença indígena, para abrir caminho a milhões de hectares destinados ao grande latifúndio pecuário e ao negócio agroexportador.
A modernidade latino-americana foi construída muitas vezes sobre esse paradoxo brutal: chamar de progresso a eliminação do outro. Desde então, o território mapuche converteu-se em uma gigantesca zona histórica de sacrifício. Primeiro foi a terra fértil. Depois a madeira. Mais tarde as represas hidrelétricas. Em seguida o petróleo e o gás. Agora os monocultivos florestais e o turismo de luxo.
Cada época traz seu vocabulário econômico da moda, mas o mecanismo profundo permanece intacto: extração de riqueza para fora e deslocamento das comunidades para as margens. Porque o extrativismo não consiste apenas em retirar recursos naturais de um território. Consiste também em extrair dignidade, memória, autonomia e capacidade de decisão daqueles que habitam esse território. E o Wallmapu vem funcionando há séculos como um laboratório perfeito dessa maquinaria.
Hoje, o povo mapuche constitui o grupo indígena mais numeroso tanto no Chile quanto na Argentina. Calcula-se que mais de dois milhões de pessoas se reconheçam como mapuches nos dois países, embora os números variem conforme os censos e os critérios de autoidentificação. Sua presença se estende desde a região chilena da Araucânia até amplas zonas da Patagônia argentina, incluindo províncias como Neuquén, Río Negro e Chubut.
Mas reduzir o conflito mapuche a uma questão étnica ou identitária é uma simplificação interessada. O que existe ali é uma disputa muito mais profunda sobre o próprio significado do território. Para o modelo econômico dominante, a terra é um recurso explorável, divisível, privatizável e rentável. Para grande parte da cosmovisão mapuche, em contrapartida, o território não é uma mercadoria, mas uma continuidade espiritual, comunitária e ecológica da vida. O rio, a floresta, as montanhas e os animais não fazem simplesmente parte de uma paisagem explorável: fazem parte de uma rede viva de relações em que o ser humano não ocupa necessariamente o centro absoluto.
E essa diferença filosófica é profundamente subversiva para um capitalismo que precisa transformar tudo em ativo econômico. Por isso o conflito nunca desaparece. Apenas muda de formato. No Chile, enormes empresas florestais substituíram florestas nativas por milhões de hectares de monoculturas de pinheiro e eucalipto destinadas à indústria madeireira. Onde antes existiam ecossistemas biodiversos e fontes naturais de água, hoje sobrevivem territórios empobrecidos em recursos hídricos e comunidades encurraladas.
Na Argentina, o avanço do fraturamento hidráulico (fracking) em Vaca Muerta impactou diretamente territórios mapuches em Neuquén. A promessa oficial volta a ser a mesma de sempre: desenvolvimento, emprego, progresso energético, modernização nacional. Mas por trás dessas palavras reaparece o velho mecanismo colonial: territórios indígenas convertidos em zonas sacrificáveis para alimentar mercados globais.
O subsolo gera riqueza. As comunidades absorvem o impacto. E quando essas comunidades protestam, recuperam terras ou questionam o modelo extrativista, a linguagem volta a ser ativada. Já não se fala de povos originários, mas de “grupos violentos”, “radicalizados”, “terroristas” ou “inimigos internos”.
A criminalização do povo mapuche constitui uma das grandes operações políticas e midiáticas das últimas décadas, tanto no Chile quanto na Argentina. As imagens se repetem: militarização, invasões policiais, crianças aterrorizadas em comunidades rurais, lideranças perseguidas judicialmente, campanhas midiáticas construindo inimigos funcionais para justificar a repressão.
O assassinato, no Chile, em 2018, de Camilo Catrillanca, mapuche morto aos 24 anos com um tiro pelas costas disparado por forças policiais, simbolizou para muitos essa violência estrutural do Estado contra o povo mapuche. Na Argentina, o desaparecimento e a morte, em 2017, de Santiago Maldonado, jovem de 28 anos e artesão solidário à causa mapuche, cujo corpo foi encontrado no rio Chubut 77 dias após seu desaparecimento (os gendarmes implicados foram absolvidos), são apenas duas pequenas amostras da feroz repressão enfrentada por esse povo. Ou ainda o caso mais recente, ocorrido em maio passado, da morte de Álvaro Quinchanao Hueche, ativista mapuche atropelado por um caminhão durante “uma ação de resistência e sabotagem contra a indústria florestal”.
Tudo isso revela até que ponto o conflito territorial se transformou em uma batalha pelo relato público. Porque o verdadeiro objetivo não consiste apenas em controlar territórios. Consiste também em controlar a legitimidade moral daqueles que os defendem. Por isso é tão importante construir a imagem do mapuche como ameaça.
O capitalismo extrativista necessita de inimigos internos que expliquem qualquer obstáculo ao crescimento econômico. Necessita apresentar toda resistência como irracionalidade, atraso ou extremismo. E precisa fazê-lo porque, no fundo, sabe algo incômodo: as comunidades indígenas questionam precisamente a lógica profunda sobre a qual o modelo se sustenta.
Elas não contestam apenas um projeto florestal ou petrolífero específico. Contestam a própria ideia de que a natureza exista unicamente para ser explorada. E aí reside talvez o núcleo mais importante de todo esse conflito histórico. Porque, enquanto o mundo fala de crise climática, transição ecológica e sustentabilidade, os povos indígenas vêm advertindo há séculos exatamente sobre isso: que uma civilização construída sobre a destruição ilimitada do território acaba destruindo também a si mesma.
Mas mesmo agora, em plena emergência climática global, o sistema parece incapaz de abandonar seu impulso extrativista. Apenas o maquila. A febre do lítio, por exemplo, apresenta-se hoje como parte indispensável da transição energética mundial. No entanto, muitas dessas explorações voltam a instalar-se em territórios indígenas e ecossistemas extremamente frágeis. O colonialismo fóssil ameaça transformar-se simplesmente em colonialismo verde. Mudam as fontes de energia. Não necessariamente as relações de poder.
Enquanto isso, dezenas de milhares de mapuches sobrevivem entre a precariedade rural, a migração urbana, a discriminação histórica e a perda constante de território cultural e material. Porque o extrativismo não destrói apenas ecossistemas. Também fragmenta comunidades, rompe línguas, desloca memórias e corrói lentamente formas inteiras de compreender a vida.
E ainda assim, o povo mapuche continua resistindo. Resiste nas recuperações territoriais. No mapudungun ensinado às crianças. Nas cerimônias espirituais. Nas mulheres que sustentam comunidades inteiras. Nos jovens que migram para cidades hostis sem deixar de reivindicar sua identidade. Naqueles que continuam defendendo que o território não pode ser reduzido a um índice de rentabilidade.
Talvez seja por isso que o conflito mapuche incomoda tanto. Porque obriga a formular uma pergunta que o capitalismo contemporâneo preferiria evitar: quanto território uma sociedade precisa destruir para continuar chamando-se civilizada? Talvez aí, precisamente aí, resida a verdadeira disputa histórica. Não entre civilização e barbárie, como durante séculos tentaram nos fazer acreditar as elites latino-americanas, mas entre dois modelos radicalmente distintos de relação com a terra.
Um entende o planeta como depósito de recursos. O outro como espaço vivo do qual o ser humano faz parte. E enquanto essa contradição permanecer aberta, o Wallmapu continuará sendo muito mais do que um conflito local. Continuará sendo um dos grandes espelhos incômodos do nosso tempo.
Desde Euskal Herria, um povo que conhece na própria carne o que significa defender uma língua, um território e uma identidade diante de quem pretende apagá-los, não podemos nos permitir o luxo de olhar para o outro lado. A solidariedade com o povo mapuche não pode ser um gesto protocolar ou uma declaração de boas intenções assinada em um ato cultural. Tem de ser concreta: apoiar as organizações mapuches para lhes dar visibilidade, exigir de nossas instituições que mencionem publicamente os mais de cento e cinquenta presos políticos mapuches, pressionar as empresas espanholas, francesas e bascas que operam em seus territórios e abrir os meios de comunicação às suas vozes. Os povos que não se solidarizam com aqueles que lutam pela mesma causa não merecem chamar-se livres.
Do Resumen Latinoamericano







































































































































