Eles não Usam Black-Tie: por uma questão de classe



Um jovem que acaba de ingressar nas fileiras do proletariado urbano é posto diante de duas situações decisivas: está às voltas com a vontade (e a necessidade) de se casar com sua companheira, que acaba de anunciar-lhe a gravidez; e a metalúrgica onde trabalha está na iminência de uma Greve, a qual ele reluta em participar com receio de perder o seu emprego e, consequentemente, as condições financeiras para sustentar sua futura família. O caso certamente serve de exemplo para largas camadas da juventude urbana que compõem o quadro geral do proletariado brasileiro – ainda que dar-se ao “luxo” de continuar ou não em seu emprego seja algo que passa muito longe da escolha de nossos jovens, amargados no desemprego.


Os dilemas desse jovem – que já podemos chamar de Tião – nos são apresentados na eterna e clássica peça Eles não Usam Black-Tie, escrita por Gianfrancesco Guarnieri para o Teatro Arena, em 1958 – no próximo dia 22 completam-se exatos 63 anos da primeira data de sua apresentação. Guarnieri apresenta ao público um texto político, que repousa sobre os louros conquistados em meio a dramaturgia brasileira. A peça contou com renomado elenco (além do próprio Guarnieri, no papel de Tião, atuaram ainda Chico de Assis, Eugênio Kusnet, Lélia Abramo e Milton Gonçalves) e músicos (o maestro Guerra Peixe e o sambista-cronista Adoniran Barbosa compuseram a sua trilha sonora), que asseveraram o seu sucesso.


A peça, cujo título revela uma clara provocação à dramaturgia da época, que abordava temas estranhos à realidade de nosso povo em ribaltas reservadas à alta-roda burguesa, conseguiu a proeza de trazer operários e camponeses para o cerne do teatro brasileiro. Em 1981, foi adaptada para o cinema sob a direção de Leon Hirszman. Além de Guarnieri, que agora faz as vezes de Otávio, pai de Tião, operário progressista e espécie de liderança entre os demais companheiros da mesma metalúrgica em que ele e o filho trabalham, o elenco da película traz Fernanda Montenegro, como Romana – matriarca de fibra, esposa de Otávio e mãe de Tião –, Bete Mendes, no papel de Maria – futura esposa de Tião –, e novamente o grande Milton Gonçalves, vivendo o mesmo Bráulio da peça – velho companheiro de Otávio.


Peça e filme abarcam diferentes conjunturas: a primeira retrata o Brasil dos anos 1950, com o recente avanço de suas forças produtivas em contraste com a carestia do agora encorpado operariado; o segundo faz analogia ao Brasil do final da ditadura militar e fascista instaurada em 1964, período em que ribombavam as Greves na região do Grande ABC. Embora falem de diferentes “Brasis”, o mote de ambas as representações é o mesmo: o embate ideológico e moral entre pai e filho num contexto de luta grevista.


Otávio, visivelmente temperado nas lutas de massas, não aceita a posição de seu filho, enfant terrible fura-greve. Isto porque Tião, embora de origem humilde como todos os personagens da obra (anote-se: os “patrões” não aparecem em nenhum momento, senão via repressão policial, indicando o tratamento impessoal que a burguesia reserva aos seus subordinados), por vezes apresenta valores contraditórios com os de sua classe social. A narrativa deixa transparecer que tais valores advêm da época em que Tião, durante parte de sua infância, fora criado pelos seus padrinhos – aparentemente pequenos burgueses –, em virtude das prisões do militante Otávio. Desse período de transplantação, Tião teria herdado aspectos da moral burguesa, como a ascensão econômica individual e o machismo. Este último é desferido contra Maria, sua noiva e também trabalhadora da fábrica, quando de seu resoluto envolvimento com o movimento grevista: Tião não reconhece a capacidade de julgamento autônomo da moça e se engana ao pensar que ela aprovará quaisquer de suas atitudes, inclusive a de fura-greve.


Na parte final da obra, as contradições se acirram: o primeiro dia de Greve chega e, de um lado, Tião assume com convicção a atitude de traidor, boicotando o movimento e, de outro, Maria e Otávio cerram fileiras com o operariado em luta. As consequências são (quase) trágicas: Maria quase perde o bebê e Otávio é levado pela repressão – e só não permanece preso por obra da brava Romana, que reclama sua soltura no temido DOPS. Passado o imbróglio, Tião é execrado pelos seus companheiros, por Maria e por seu pai, restando-lhe a ressentida partida. Apenas Romana se despede de seu filho, nem por isso deixando de repreendê-lo em tom materno: “Sabe, meu filho... você vai ver que é melhor passar fome entre os amigos do que passar fome entre os estranhos”.


Eles não Usam Black-Tie toca em sensíveis questões sociais – além das lutas de classes no âmbito fabril e dos conflitos familiares, Guarnieri e Hirszman explicitam o racismo, o alcoolismo e outros aspectos do dia-a-dia dos trabalhadores nos guetos e periferias das cidades – e é um clássico justamente por trazer à tona assuntos ainda hoje candentes em nossa sociedade de classes. O posicionamento do jovem Tião (na peça interpretado por Guarnieri e no filme por Carlos Alberto Ricceli), resistente à greve e à identificação com o proletariado, nos dá subsídios para discutir o pernicioso papel das ideologias dominantes – incluso aqui as ilusões com o empreendedorismo e a meritocracia – que, consoante ao sistemático corte de direitos trabalhistas e encerramento de postos de trabalho, oculta as contradições centrais entre capital e trabalho. Em outras palavras, oculta o papel revolucionário das classes trabalhadoras.





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