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"Argentina, o país dos Santos Inocentes"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 21 minutos
  • 6 min de leitura

Os que acompanham com alguma frequência meus artigos sabem que, como bem se diz ao pé destas páginas, sou um jornalista argentino, especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central, embora às vezes eu chegue até o Sudeste Asiático e, em outras, em muitas poucas ocasiões, ocupe-me do Haiti. Já que o processo que ali se desenvolve é tão distópico quanto interessante. Um fenômeno de violência social nada frequente. O país encontra-se consumido por bandos criminosos, vinculados a cartéis da droga e a todo o rosário que diz respeito à delinquência comum: roubo, sequestros, contrabando e sicariato. Disputando a possibilidade concreta da tomada do poder estatal, é importante não confundir com grupos insurgentes organizados por trás de uma ideologia ou uma religião, porque, para além de seus métodos, estão impulsionados por um plano prévio para provocar mudanças de regime, como pôde ter sido o sandinismo na Nicarágua, que tomou o poder a partir de 1979, após deslocar a ditadura da família Somoza, ou o Talibã afegão, que após derrotar os Estados Unidos em 2021, instalou um emirado regido pela sharia.

 

O Haiti se assemelha mais a essa distopia narrada na saga de Mad Max, que há 47 anos criou o australiano George Miller. Nela, um conjunto de quadrilhas armadas percorre um mundo desértico, sem outra autoridade que o poder de fogo dos bandos rivais. Sobreviventes de um holocausto civilizatório provocado pelo esgotamento dos recursos naturais e por um sem-número de guerras, que terminaram por demolir o ecossistema e qualquer tipo de estruturação social.

 

Essa é a possibilidade, sem temor de exagerar, que hoje está em jogo no Haiti, a que nem sequer organizações tão poderosas como os cartéis colombianos ou mexicanos tiveram, ainda que em seu momento tenham desafiado o poder federal.

 

Este preâmbulo talvez seja para justificar por que vou tratar de entender o que acontece na Argentina, apesar de ser meu país, um território pouco frequentado neste espaço. O último publicado remonta ao começo do governo de Mauricio Macri, onde com certeza, não por possuir faculdades adivinhatórias e muito menos um fino olfato da realidade, mas por conhecer o protagonista, literalmente: um bruto avarento, que conheceu o poder no próprio poder, o que terminou por converter esse bruto apátrida, cheio de ressentimento por saber-se desprezado por seu pai e inclusive pela classe à qual seu poder econômico corresponde.

 

Sem outra possibilidade de expressar sua emoção que quando joga seu time de futebol Boca Juniors; no mais, como diriam seus conterrâneos calabreses, é um terrone, em toda a sua definição. Um bruto pedaço de terra compacta e impermeável a qualquer manifestação cultural, de bom gosto ou sofisticação.

 

Com a chegada de Macri ao governo, os bancos e as financeiras tomaram o poder, instalando as mesmas políticas econômicas da ditadura militar (1976-1983) e as mesmas que a partir de 1989 praticaria também Carlos Menem, junto a seu ministro da economia Domingo Cavallo, que fizeram da corrupção e da venda infame dos bens do Estado seu plano de governo.

 

Desde dezembro de 2015, quando se fechou o ciclo que começou em 2003, que se constituiu nos melhores doze anos da história argentina, desde o golpe militar que derrubou o general Perón em 1955, até agora tudo na Argentina tem sido pior.

 

O governo envididador de Macri levou o país mais uma vez às fauces do FMI, do qual havia sido resgatado em 2005 pelas políticas de Néstor Kirchner articuladas com as do presidente Lula do Brasil.

 

A Macri sucede Alberto Fernández, um tímido, muito suspeito de agente duplo, que, apesar de a faixa presidencial lhe ficar grande, enfrentou com acerto a pandemia e uma seca monumental. De todo modo, essa conjunção articulada com os meios opositores, praticamente noventa por cento do espectro midiático, terminou por selar seu governo. Ainda assim, comparado com seu antecessor e seu sucessor, Javier Milei, Fernández foi um homem de Estado de magnitudes históricas.

 

Se a chegada de Macri havia envolvido o país em penumbras, que os quatro anos de Fernández não puderam dissipar, com pouco mais de dois anos cumpridos do governo de Milei, essas penumbras se solidificaram como uma lápide e, por isso agora, sim, a Argentina encontra-se em risco de aniquilação.

 

Se o Haiti é algo tragicamente inédito, o da Argentina, se se consumar o plano de governo de La Libertad Avanza, marchará na mesma direção. A isso se dedicam com esmero o atual ministro da Economia, Luis Caputo, e seu colega de Desregulação e Transformação, Federico Sturzenegger. Enquanto Milei, com um esgar cada vez mais parecido ao do indiano Hrundi V. Bakshi em The Party, ainda não entende como aterrissou na Casa Rosada. Nós tampouco.

 

O plano não é nada inovador: deixar, progressivamente, mais de trinta milhões dos quarenta e seis que habitam o país, literalmente submersos na miséria. Para isso estão aniquilando os mecanismos de um Estado que soube ser profundamente generoso com os seus, instaurando um sistema de tal robustez que, apesar de ser detonado todos os dias há setenta anos — a saúde pública, a educação pública, as leis trabalhistas e um longuíssimo e praticamente inesgotável etecétera — essas estruturas, cada vez mais fracas, seguem resistindo. Até hoje existem nichos onde ainda se dá resposta aos mais desamparados graças a mecanismos que praticamente continuam funcionando por uma saudável inércia.

 

O melhor exemplo talvez seja o Hospital de Clínicas da cidade de Buenos Aires, que “magicamente” (não existe outra palavra), seu corpo profissional, que poderia aspirar a trabalhar nos melhores centros hospitalares do mundo, atende diariamente milhares de pessoas, as quais em sua grande maioria saem não apenas com uma resposta, mas em muitos casos com os medicamentos para seus tratamentos. Ainda que tragicamente essa magia tenha as horas contadas.

 

Diante dessa realidade, o país não tem outra opção que ou cair literalmente sob um protetorado administrado por Washington, ainda mais procaz que o que hoje exerce na Venezuela; um estalo constitucional que provoque que o país se dissolva em uma dezena de regiões, e siga cada uma à sua sorte; ou o mais improvável, que emerja uma força suficientemente poderosa para reverter a situação, se os escassos setores nacionalistas das forças armadas reagirem. O que também precipitaria o país, antes ou depois, a uma guerra civil ou à intervenção aberta e efetiva dos Estados Unidos.

 

A hora dos lebréis

 

Diante dessa realidade e do nada que um cidadão comum possa fazer para preservar o pouco que lhe resta de saúde mental, muitos nos evadimos; no meu caso, prefiro leituras que me fazem compreender com muito mais clareza as tensões entre Kandahar e Cabul, ou a crise armada do leste da República Democrática do Congo, do que o que acontece na Casa Rosada, literalmente a dez quilômetros de onde estas linhas são escritas.

 

Aturdidos, presenciamos diariamente como juízes, jornalistas e governadores provinciais disputam encarniçadamente o lugar do cão de caça, que tão magistralmente descreve Miguel Delibes com o Azarías de Los santos inocentes.

 

Enquanto se ignoram os flagrantes atos de corrupção, que permitiram ver o próprio presidente fraudar milhares de pessoas por centenas de milhões de dólares, recomendando a compra das criptomoedas Libra, ou uma camarilha dirigida pelo advogado pessoal de Milei, que edificou um sistema centrado em roubar os recursos destinados pela Agência Nacional de Deficiência (ANDIS) aos deficientes.

 

Com este governo na Argentina, perdem até os que nunca antes haviam perdido. Os grandes grupos empresariais, que pela mesa de importações, o atraso cambial e a queda abismal do consumo tiveram de fechar suas plantas demitindo milhões de trabalhadores, ou optam por reconverter-se em exportadores ou desmontar até que passe, como tantas vezes. Embora se entenda isso de que “perdem até os que nunca antes haviam perdido”, é uma intervenção, uma imagem quase poética, já que suas fortunas são tão inesgotáveis quanto sua imoralidade.

 

A armadilha em que caiu a Argentina é de uma magnitude insuperável: uma poderosa entente de ocupação, composta pelo poder midiático, judicial, empresarial, os mesmos que se tornaram poderosos graças às políticas de desenvolvimento dos governos peronistas. Como o cão que morde a mão que o alimentou, tem sonhos úmidos diante da perspectiva real do desaparecimento do peronismo de uma vez por todas.

 

Enquanto a liberdade de imprensa se extingue, a repressão a qualquer protesto provoca feridos e centenas de detidos, a possibilidade de uma articulação opositora, distraída em brigas internas, é cada vez mais remota e o jornalismo independente do regime fascista só pode convencer os convencidos. Em algum lugar, alguém está talhando uma lápide que diz: “Aqui jaz a República Argentina”.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

 

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