"'America First': um canto de guerra que pode resultar no oposto"
- NOVACULTURA.info

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“America First” é a licença criada pelo governo de Donald Trump para guerras e agressões imperialistas norte-americanas em busca de seus próprios interesses. Ela exige prioridade sobre recursos e esferas de influência ao redor do mundo, desde petróleo até rotas comerciais, minerais e metais de terras raras. Ao mesmo tempo, quer excluir os rivais imperialistas da América em países com os quais mantêm negócios ou tratam como “aliados” ou parceiros comerciais e de segurança. Se não estiverem com os Estados Unidos ou não prometerem fazê-lo, esses países enfrentarão sanções, aumento de tarifas, intervenção (que vai desde sequestro, mudança de regime, demonização global etc.) e guerra.
Trump está liderando a iniciativa para reafirmar o controle hegemônico não apenas sobre seus aliados, mas também sobre antigas colônias e regiões que têm se voltado para os rivais dos Estados Unidos. Busca uma expansão imperialista mais profunda e ampla, ao mesmo tempo em que enfrenta déficits orçamentários cada vez maiores e desafios ferozes de rivais imperialistas.
Um ano após o início de seu segundo mandato, as ações e declarações de Trump afirmam sem rodeios que a força faz o direito — ao inferno com as regras do direito internacional, as convenções de guerra, a soberania de outros países ou o respeito aos seus chamados aliados. Na verdade, ao inferno até mesmo com as Nações Unidas e outras instituições multilaterais que eles próprios ajudaram a formar após a Segunda Guerra Mundial. Essas instituições deveriam inaugurar o que líderes de países aliados hoje lamentam como uma competição e disputa “baseadas em regras” entre superpotências e potências emergentes. Como disse um dirigente da Comissão Europeia numa conferência regional de segurança realizada em Munique: “Algumas linhas foram ultrapassadas e já não podem mais ser ultrapassadas”.
Na realidade, os chefes do imperialismo norte-americano — e não apenas Trump — nunca deixaram de perseguir seus próprios interesses enquanto líderes dos EUA imperialistas. Eles vêm cruzando linhas inaceitáveis desde que os Estados Unidos se tornaram imperialistas. Parafraseando o próprio Trump, eles não foram inocentes nas guerras passadas. O que “mudou” sob Trump foi o aumento da intensidade e do descaramento de suas políticas, guerras e intervenções. Alguns relatos da mídia chamam isso de “violação de normas”. Trata-se simplesmente de um líder criminoso agindo em desespero porque o imperialismo norte-americano está em uma crise da qual parece incapaz de sair. Intensificou seu envolvimento em guerras, um grande negócio imperialista que o ajuda a se manter. Até agora, porém, quanto mais tenta sair da crise, mais afunda, como num atoleiro.
O Departamento de Defesa dos EUA agora é apropriadamente chamado de Departamento de Guerra
O governo Trump revisou a estratégia de segurança imperialista dos Estados Unidos. Apropriadamente, renomeou o Departamento de Defesa dos EUA para Departamento de Guerra. Seu Secretário de Defesa (Guerra), Pete Hegseth, é conhecido por seu desprezo pelas leis da guerra. Hegseth afirmou que as regras de combate “amarram as mãos dos soldados em campo”. Ele demitiu muitos consultores jurídicos seniores em operações militares e desmantelou o Escritório de Mitigação e Resposta a Danos Civis do Pentágono. Isso se assemelha a preparativos para cometer crimes de guerra com ainda mais liberdade.
O governo Trump está renovando ou ampliando o controle neocolonial imperialista dos EUA em várias regiões do mundo. Em relação aos países vizinhos, Trump reviveu a Doutrina Monroe para acrescentar o “Corolário Trump”, reafirmando o controle imperialista norte-americano sobre os países do continente americano. O exemplo emblemático de sua postura é o sequestro, em 3 de janeiro, do presidente em exercício da Venezuela, Nicolás Maduro, e as “negociações” que se seguiram com (ou ameaçaram) os dirigentes venezuelanos.
A estratégia de segurança de Trump revela tanto a ganância imperialista quanto sua crise e falência
A Venezuela nacionalizou duas vezes sua indústria petrolífera, enfurecendo as grandes empresas do petróleo, inclusive as dos EUA. O país possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Também recebeu os maiores empréstimos e subsídios oficiais chineses na América do Sul (US$ 106 bilhões entre 2000 e 2023, segundo um centro de pesquisa chamado AidData).
“Vamos retirar uma enorme quantidade de riqueza do solo”, disse Trump depois que forças norte-americanas sequestraram Maduro.
Hoje, todo o petróleo bruto extraído da Venezuela está sendo transportado para o Texas, nos EUA, para processamento, disse um professor chavista num webinar após o ataque dos EUA à Venezuela. Grandes empresas petrolíferas norte-americanas estão “negociando” contratos exclusivos de fornecimento de petróleo bruto com a Venezuela.
Na nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, declararam que negarão aos concorrentes a capacidade de posicionar forças militares ou controlar ativos estratégicos no hemisfério ocidental. Esse concorrente é a China. O imperialismo norte-americano está alarmado com o fato de os chineses terem se tornado uma força econômica em seu “quintal”, o hemisfério ocidental. Os chineses possuem investimentos em infraestrutura em toda essa região.
No Canal do Panamá, Donald Trump utilizou o poder imperialista dos EUA para forçar o Panamá a expulsar o conglomerado chinês que operava e possuía portos em ambas as extremidades do canal.
Na Europa, Donald Trump, representando o imperialismo norte-americano, lança uma longa sombra. Diz-se que a Europa é a colônia digital imperialista da América. Em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia, que já dura quatro anos, Trump quer assinar um acordo de paz com a Rússia. Relatos sugerem que tanto os EUA quanto a Rússia discutiam dividir os despojos da guerra. Enquanto isso, a guerra continua. Trump quer que a Europa aumente seus gastos militares, reduza sua “dependência” da América e arque cada vez mais com os custos de operação da OTAN. Trump reclamou que a América tem pago pela OTAN. Seu Secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que a América (na verdade, os contribuintes norte-americanos) gastou US$ 22 trilhões a mais do que os europeus em “defesa” desde 1980.
A Europa forneceu bases ao imperialismo norte-americano, ajudando os EUA a projetarem poder e defenderem seus interesses, inclusive no Ártico; serviu como mercado para US$ 1 trilhão em bens e serviços dos EUA; forneceu tecnologias e até inteligência. Cooperaram contra os soviéticos durante a Guerra Fria. Agora, o imperialismo norte-americano também quer que desembolsem cada vez mais dinheiro.
A estratégia de segurança de Trump revela tanto a ganância imperialista quanto sua crise e falência.
O imperialismo norte-americano intensificou seu envolvimento nas guerras
Em meio às bravatas do tigre de papel Trump, há um grito revelador sobre os crescentes déficits e dívidas orçamentárias dos Estados Unidos. Ele reclama de ter sido injustiçado, ao mesmo tempo em que injustiça seus aliados. Se seguirmos sua lógica, o imperialismo norte-americano poderá desgastar suas próprias alianças. Se os EUA, por meio de Trump, conseguirem tornar a Europa desconfiada — não apenas por seus insultos à participação deles na OTAN ou por sua cobiça em relação à Groenlândia — serão os próprios Estados Unidos de Trump que perderão força.
Relatórios indicam que afastar a Europa da dependência de equipamentos e tecnologia militar norte-americanos também pode desencadear uma nova corrida armamentista, inclusive nuclear.
Em outras partes do mundo, o imperialismo norte-americano de Donald Trump está intermediando acordos enquanto maximiza os benefícios dos EUA em conflitos na África que o próprio imperialismo norte-americano ajudou a fomentar. Por exemplo, no conflito entre o exército do Congo e as tropas ruandesas e o M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda. O imperialismo norte-americano está ajudando o Congo em troca de acesso a seus minerais. Eles negociaram um acordo de paz entre as partes em dezembro, mas os combates continuam. O governo congolês apoiado por Trump também está impondo repressão contra cidadãos do Congo.
Na Ásia Ocidental (Oriente Médio), como todos sabemos, Donald Trump continuou e intensificou a guerra de seus antecessores contra o que costumavam chamar de Estados “párias”, como o Irã. A guerra EUA-Israel contra o Irã entrou em sua quarta semana, matando milhares de pessoas, incluindo o antigo líder iraniano, e causando devastação não apenas na Ásia Ocidental, mas em grande parte do mundo devido ao aumento dos preços do petróleo.
Trump disse que venceram no primeiro dia da guerra. Mas até mesmo programas de sátira zombaram disso — pois ainda era difícil encerrar a guerra globalmente impopular no momento em que este artigo foi escrito. Trump foi forçado a pedir a outros países que enviassem tropas ao Irã e agora recorre a divulgações enganosas do que o Irã chama de notícias falsas, como supostas negociações de paz para encerrar as guerras.
Até agora, a fanfarronice de Trump sobre o “America First” está empurrando-o para baixo. Mas os altos custos estão sendo suportados pelos trabalhadores nos Estados Unidos e em todos os lugares onde os EUA estendem suas garras.
Do Liberation







































































































































