• NOVACULTURA.info

Pra Frente, Brasil



Pra Frente, Brasil é um filme nacional com direção de Roberto Farias. Enquadrando-se no gênero drama e ficção histórica, com lançamento oficial em 1982, foi um dos primeiros filmes a retratar de forma explícita a repressão da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Esse texto teve como impulsionador o Cine Debate proposto a partir da Campanha Brasil: pela Segunda e Definitiva Independência, que aconteceu em junho de 2021, onde assistimos e discutimos a importância da obra, nos dias atuais e na época da sua estreia em território brasileiro. Enquanto cada vez mais há setores que relativizam o horror vivido pelos brasileiros na ditadura militar, mais é necessário não esquecer e relembrar esses capítulos do passado, que fazem parte da memória do desenvolvimento de uma nação. Dessa maneira o filme Pra Frente, Brasil assume o papel de trazer à tona espectros de um passado não muito distante, representando o ano de 1970, marcado pelo ápice da ditadura e pelo terceiro título da seleção brasileira na Copa do Mundo. Durante a Campanha Brasil: pela Segunda e Definitiva Independência outras obras de audiovisual serão propostas para discussão, dessa maneira fica o convite para participar das atividades e conhecer melhor a Campanha, mais informações estão disponíveis no site NOVACULTURA.info e em nossas redes sociais.


O nome “Pra Frente, Brasil” faz referência à canção Pra Frente Brasil de Miguel Gustavo, que foi escolhida pelo regime para representar e inspirar a seleção brasileira na Copa do Mundo FIFA de 1970 no México. Canção essa que foi cantada pelo país de forma ufanista, marcada pela euforia de, pela primeira vez, uma Copa ter a transmissão ao vivo e a cores pela TV brasileira, tornando-se o hino dessa edição. O filme retrata entre às cenas de tortura, de forma ácida, pausas para assistir a seleção, e tem cenas fortes ao som dos gols do jogo Brasil versus Itália e da marchinha do tricampeonato. No período histórico em questão, o país vivia sob o AI-5, instituído dois anos antes pelo presidente e general Arthur Costa e Silva, apesar de entre 1969 e 1974, ser colocado no poder pela ditadura Emílio Garrastazu Médici. Essa época ficou conhecida como anos de chumbo, onde a vitória da seleção fora usada juntamente com os versos da canção para conquistar corações e mentes para o nacionalismo de um país que vivia sob o auge da repressão, onde havia censura, tortura e assassinatos encobertos, para qualquer pessoa que pudesse ser entendida como opositor ao regime vigente, chamados subversivos.


O diretor do filme, Roberto Farias dirigiu a Embrafilme durante o período Geisel (1974-1979), quarto presidente da ditadura, mesmo assim teve sua obra interditada pela censura. O filme rodou em 1981, e no ano seguinte saiu com o prêmio principal do Festival de Gramado. Teve como lançamento mundial oficial março de 1982, mas fora proibido de lançá-lo comercialmente. Na época, o atual presidente da Embrafilme, Celso Amorim, que havia liberado o financiamento da produção com recursos públicos, viu-se obrigado a pedir demissão do cargo em abril do mesmo ano. A censora foi Solange Maria Teixeira Hernandes, que se baseou na Lei 20.943, alínea D do artigo 41, de 1946 que previa “interdição quando a obra for capaz de provocar incitamento contra o regime vigente, a ordem pública, às autoridades e seus agentes”, afirmando haver “excessos de liberdade no cinema e no teatro”. Posteriormente o filme foi liberado, estreando nos cinemas brasileiros em fevereiro de 1983.


O enredo cinematográfico gira em torno de Jofre Godói (representado por Reginaldo Faria), homem branco de classe média, que trabalha em uma construtora e no meio de uma viagem a trabalho acaba, por azar, sendo confundido com um subversivo, dessa forma é capturado e torturado para falar. Carlos Zara é quem representa Barreto, o chefe da tortura, com atuação marcante, em um papel forte para qualquer pessoa, fora ainda mais desafiante para Carlos, pois seu irmão Ricardo Zarattini havia sido preso e torturado em 1968. Após o sumiço de Jofre, sua esposa, Marta Godói (Natália do Vale) e seu irmão Miguel Godói (Antônio Fagundes) começam uma procura por meios legais, cercada de dificuldades da polícia conivente, informações contraditórias, medo e desconfianças, que são marcantes das artimanhas ditatoriais. As práticas de tortura, entretanto, são restringidas a grupos autônomos, justiceiros e empresários, sem conexão aparente com o Estado, fato que revela a consciência que mesmo em período de “redemocratização”, o filme passaria pela censura. A polícia fica posicionada entre os subversivos e a repressão clandestina, apesar de claramente não ajudar na procura de Jofre, não apoiando os extremismos armados.


Uma fala marcante da obra é: “O que eu estou fazendo aqui? Sempre fui neutro. Apolítico. Tenho emprego, documentos, trabalho, filhos, pago imposto. Ninguém tem o direito de fazer isso comigo. E os meus direitos?”. Essa fala é de Jofre e essa posição apolítica é repetida muitas vezes pelas personagens, marcando uma posição de alienação política de uma classe média que, se não fosse o azar de ser confundido com um subversivo, se negaria a desenvolver a consciência do que estava acontecendo durante a ditadura. Marta e Miguel também são marcados por essa alienação, mas durante a procura de Jofre vão sendo colocados em situações desafiadoras que fazem com que eles contestem suas verdades. A classe trabalhadora com menos privilégios quase não aparece, marcando também um público alvo da produção. Miguel é responsável pela curva dramática mais ousada, sendo capaz de atos de bravura ao tomar consciência do que acontecera com o irmão, ao lado de Mariana (Elizabeth Savalla), seu par romântico e representante de uma resistência armada. Não fica claro se a resistência de Mariana, ao lado de alguns camaradas, é um movimento ligado a alguma organização maior, ou independente, mas fica claro que em 1970 restavam poucos que ainda não tinham caído, ou pedido asilo político em outro país. Outro setor que é representado são os empresários, burgueses que ou apoiam esses grupos de paramilitares justiceiros, ou se veem forçados a apoiar, sob a ameaça de serem desbancados de sua classe social. Em uma das cenas dá a entender que há apoio e ensinamentos de tortura por parte de estrangeiros que falam inglês a esses empresários, possivelmente uma referência ao governo estadunidense.


O filme apresenta dessa maneira uma ficção histórica não muito distante da realidade vivida, com um enredo envolvente e forte, é capaz de impactar desde as pessoas que viveram aquela época até jovens que nunca passaram por isso e pouco sabem desse período. Apesar de todas as críticas que podem ser feitas, por aquilo que falta, ou que não é explicitado, é preciso entender o momento histórico onde foi lançada a obra, um tempo áspero, ainda sob ditadura, onde a coragem dos atores e de todos que se envolveram na produção merece todos os méritos. A forma em que foi conduzida, ainda que incompleta, a representação da violência e sufoco dos anos de chumbo, contém denúncias fundamentadas e nunca antes feitas em uma obra com tal financiamento e repercussão. Resta uma reflexão central do filme, mesmo que você se entenda como apolítico, a política sempre está a sua volta, influenciando diretamente sua vida, controlando e impondo às vontades daqueles que estão no poder, é necessário posicionar-se, pois se você não o fizer alguém o vai por você, os direitos nem sempre são garantidos e deve-se sempre lembrar que nunca houve direitos ofertados sem luta.