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"Conflitos por água batem recorde e chegam a 276 casos: aumento de 40% em 2018"


Foram registrados, no período, 276 casos, que envolveram mais de 73 mil famílias. Diante desse patamar, esse tipo de ocorrência superou a marca de 2017, até então a maior desde 2002, ano em que a CPT passou a notificar casos dessa natureza.

Em relação a esse tema, o destaque é para a ação das mineradoras, que estiveram envolvidas em 139 conflitos por água no ano de 2018, com uma representatividade de 50,36% do total. A CPT registra que 111 deles foram protagonizados por companhias internacionais e 28 por mineradoras nacionais.

No relatório, que é produzido pela entidade anualmente há mais de três décadas, outras estatísticas se sobressaem, como é o caso do número de pessoas envolvidas em conflitos no campo, que cresceu 35,6% entre 2017 e 2018, saltando de cerca de 708 mil para mais de 960 mil pessoas. Cerca de 49% desses conflitos se deram na Amazônia.

A pesquisadora de desenvolvimento urbano Diana Aguiar, assessora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), afirma que as pessoas atingidas pela violência no campo têm um perfil já esperado.

“Há um caráter sistemático na forma como esses conflitos acontecem, sempre contra os mais despossuídos, contra as pessoas que estão em terras de ocupação tradicional, nos territórios indígenas e territórios que são de profundo interesse pra expansão do modelo de produção hegemônico do agronegócio, da mineração”, explica.

Despejos e expulsões

O relatório da CPT sublinha ainda que, no ano passado, o poder público foi responsável pelo despejo de 11.235 famílias. Destaque ainda maior teve a ação do poder privado, que expulsou outras 2.307 famílias, provocando um aumento de 59% nesse índice no comparativo com 2017.

“Isso significa que o capital está investindo tudo que pode na tentativa de impedir a ação dos movimentos. Mostra que o fazendeiro hoje se sente muito mais empoderado a agir por conta própria do que antes. Eles se sentem com toda força pra agir por conta [própria] porque sabem que têm as costas quentes, têm o respaldo das autoridades”, analisa Antonio Canuto, colaborador da CPT, lembrando o avanço conservador que tomou conta do país.

Indígenas

Outro ponto de realce trazido pela CPT no novo relatório diz respeito à violência contra os povos indígenas a partir do primeiro turno das eleições do ano passado, que ocorreu em 7 de outubro. Das 276 ocorrências de conflitos por terra registrados entre essa data e o dia 31 de dezembro, 56 foram contra indígenas, o que representa 20,5% do total.

O número chama a atenção também pelo fato de corresponder a 44,3% de todos os conflitos envolvendo indígenas no ano de 2018. Canuto aponta que o dado reflete o contexto de avanço da violência contra os povos tradicionais, que já vinha se manifestando nos últimos anos. Ele ressalta que o problema tomou fôlego com a chegada de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República por conta do discurso do líder do PSL contra as comunidades tradicionais.