1/10

"Ghouta e o bombardeio midiático"



Bombas explodem em um subúrbio de uma capital árabe; mais que uma capital árabe, uma das grandes cidades da humanidade. Damasco é a capital da Síria e Ghouta Oriental o subúrbio que passou os últimos anos dominado por grupos armados que lutam contra o governo de Bashar al-Assad. As forças do exército sírio, controlado pelo governo, somam esforços neste momento para retomar a região, que forma um cinturão em volta da capital. Os rebeldes recorrem a um histórico de dominância de Bashar al-Assad e autoritarismo na Síria para se valer da posição de combatentes da liberdade que lutam contra um ditador. Assad se firmou como defensor do secularismo e da diversidade frente a militantes radicais e fundamentalistas. As forças auto-proclamadas revolucionárias contaram e contam com apoio dos Estados Unidos e seus aliados, França e Inglaterra na Europa, Arábia Saudita, Qatar e Turquia no quadro regional. Assad resistiu aos ventos iniciais de sua derrubada e encontrou aliados no Irã, na Rússia e no Líbano (o poderoso partido nomeado Hezbollah). A guerra em breve completará oito anos, e nada disso é novidade. A parte oriental de Ghouta já está ocupada por rebeldes há muito tempo, com a diferença de que a hoje são um resto de uma rebelião desmoralizada e derrotada – o único outro pedaço de terra relevante com bandeiras “revolucionárias” é uma parte do norte de país ocupada pela Turquia e pela Al-Qaeda. Pessoas já escreveram e reescreveram sobre essa guerra, se posicionaram uma vez e se posicionaram de novo. Mas 2018 veio sim com uma aparente novidade: a comoção foi geral por causa de Ghouta Oriental. Governos, grande mídia e principalmente internautas passaram a chorar as dores da ofensiva do exército sírio contra o enclave rebelde. Não podemos criticar como as pessoas se sentem, é claro. O que temos aqui, no entanto, é mais do que subjetividade; é uma grande orquestra sentimental conduzida por uma fábrica política, um verdadeiro espetáculo. Espetáculos nós podemos criticar e isso não está muito longe da pretensão contra-hegemônica de nosso espaço. Somos críticos de espetáculos; antes críticos de espetáculo do que transmissores de informação. A potência global comandada por Trump está fazendo exigências sobre a Síria, grupos de interesse pró-intervenção ganham força e a ONU teve sua atenção des