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"Haiti: a revolução que o sistema não perdoa"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

 

A comemoração de 1º de janeiro de 1804 volta a colocar em cena a revolução que o colonialismo tentou apagar: a insurreição de pessoas escravizadas que triunfou e a primeira independência da América Latina. Derrotou três potências imperiais, aboliu a escravidão e fundou a primeira república negra do mundo, um processo radical que ainda incomoda a ordem global.

 

A independência do Haiti foi declarada em 1º de janeiro de 1804. A Revolução Haitiana não foi um excesso nem uma anomalia histórica. Foi a resposta inevitável a um sistema baseado na escravidão, no racismo e na violência colonial. Entre 1791 e 1804, na colônia francesa de São Domingo, homens e mulheres escravizados protagonizaram a experiência emancipatória mais radical da era moderna: derrotaram os exércitos das principais potências imperiais (França, Inglaterra e Espanha), aboliram a escravidão e fundaram a primeira república negra do mundo.

 

São Domingo era a colônia mais rica do Caribe. Sua prosperidade se apoiava sobre uma maquinaria de exploração extrema, sustentada pelo trabalho forçado e pela desumanização racial. Quando em 1791 começou a rebelião, não se tratou de um estouro irracional nem de uma revolta desordenada, mas de uma revolução social que colocou em questão a ordem colonial como um todo. Ali onde a Revolução Francesa proclamava direitos universais, mas os negava em suas colônias, o Haiti levou essa consigna até suas últimas consequências.

 

Desse processo emergiu a figura de Toussaint Louverture, ex-escravizado convertido em dirigente militar e político. Sua liderança encarnou um dos maiores temores do mundo colonial: um homem negro governando, organizando exércitos, negociando com potências europeias e projetando uma sociedade sem escravidão. Louverture não apenas derrotou os exércitos europeus no campo de batalha; impulsionou reformas administrativas, educacionais e produtivas que desafiavam o racismo estrutural do sistema colonial.

 

A independência proclamada em 1804 marcou um ponto de ruptura histórico. A resposta internacional foi o isolamento e o castigo. As potências escravistas temiam o efeito contagiante. A França, derrotada militarmente, impôs décadas depois uma indenização colonial que endividou o Haiti por mais de um século. O Haiti foi obrigado a pagar por sua liberdade, inaugurando uma forma de dominação econômica que ainda hoje condiciona sua soberania.

 

O castigo não foi apenas material. Foi também simbólico. A Revolução Haitiana foi sistematicamente minimizada, distorcida ou apagada dos relatos históricos dominantes. No Haiti independente, surgiram intelectuais como Jean-Louis Vastey, pensador e funcionário do século XIX que denunciou o colonialismo, o racismo e a violência estrutural do sistema escravista. Vastey assinalou com clareza que a barbárie não residia nos escravizados que se rebelaram, mas na ordem colonial que os havia reduzido a mercadoria. A Europa escolheu não ouvi-los. Reconhecer o Haiti implicava aceitar que a modernidade ocidental havia sido construída sobre a escravidão e o genocídio. A revolução haitiana evidenciou uma contradição central da modernidade ocidental: a igualdade proclamada na Europa não incluía os povos escravizados, as maiorias. O Haiti expôs essa hipocrisia e, por isso mesmo, foi condenado.

 

Falar hoje do Haiti não é falar de um “Estado falido”, mas de uma nação castigada por ter ousado ser livre. Nada do que ocorre hoje no Haiti pode ser compreendido sem essa história. As novas forças de ocupação, a tutela internacional e a permanente intervenção externa fazem parte de uma continuidade colonial que adota outras linguagens, mas persiste em seus objetivos. Apresentar o Haiti como um problema sem passado é uma forma de justificar seu controle no presente. Por trás da crise contemporânea há séculos de saque, endividamento forçado e ocupações que nunca buscaram fortalecer o país, mas controlá-lo.

 

Enquanto o Haiti continuar sendo administrado de fora, o mundo continuará eludindo sua responsabilidade histórica. Não há crise sem castigo colonial acumulado. Para a América Latina, e também para a Argentina, olhar para o Haiti não deveria ser um exercício de caridade humanitária, mas um espelho incômodo: ali onde um povo escravizado ousou levar a igualdade até o fim, o sistema ainda continua cobrando a conta.

 

Do Página 12

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