1/10

"Mali: Instabilidade como forma de governo"



Desde o golpe contra o presidente Amadou Touré, em março de 2012, no país do Sahel, cerca de 20 milhões de habitantes vivem em constante estado de oscilação política e militar. Desde então, uma sucessão de presidentes fracos fez com que o país mergulhasse em um estado de constante debacle, no qual um novo capítulo foi escrito em 24 de maio, que seguramente não será o último.


Há nove anos o país mantém um dos mais virulentos khatibas de guerra da Al-Qaeda, que pouco depois, os do Daesh, que dominando o norte, agora controlam quase 70% do país, transbordaram em direção a Burkina Faso e Níger, o que obriga Bamako a realizar enormes esforços militares para contê-los, além de obrigar a França, vários países da OTAN, a Missão de Estabilização Multidimensional Integrada das Nações Unidas (MINUSMA) e o Grupo Sahel Five (GS5) composto por tropas de Burkina Faso, Chade, Mauritânia, Níger, assim como Mali, para se envolverem em um conflito, que está cada vez mais longe de ser resolvido.


O sacrifício das Forças Armadas do Mali (FAMA), que há anos lutam contra os defensores no norte, foi ignorado pelos políticos de Bamako, portanto, em agosto de 2020, o golpe foi realizado contra o presidente Ibrahim Boubacar Keïta conhecido popularmente como IBK, no poder desde 2013. O golpe foi liderado por um grupo de jovens militares, integrados no Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), liderado pelo Coronel Assimi Goïta. Após árduas negociações e pressões dos Estados Unidos e da França, os militares do CNSP concordaram em deixar a presidência para o agora deposto Bah Ndaw e enquanto o Coronel Goïta manteria a vice-presidência.


Após ter chegado a um acordo político para convocar eleições em fevereiro de 2022, o CNSP foi dissolvido em janeiro passado, de modo que o presidente Bah Ndaw começou a podar o poder do coronel Goïta, retirando de seu cargo, por meio de um suposto ministro da reforma, dois outros coronéis influentes do CNSP, Sadio Camara no comando do Ministério da Defesa e Modibo Kone no Ministério da Segurança, que seriam substituídos pelos generais: Souleymane Doucouré e Mamadou Lamine Diallo, que desde o golpe de agosto afastaram-se do poder.


Na segunda-feira, após fortes ondas de rumores, soube-se que tanto o presidente Ndaw e seu primeiro-ministro Moctar Ouane, juntamente com outros altos funcionários do governo, foram presos e transferidos para a base militar de Kati, perto de Bamako, e libertados na madrugada do dia 27, por pressão dos Estados Unidos e da França, que não conseguem colocar os dirigentes do CNSP no cabresto, que apesar de terem sido dissolvidos, os seus dirigentes continuam a ter grande apoio dentro do exército e aparentemente determinados a jogar um novo jogo com o Ocidente.


Embora algumas fontes apontem que o último golpe não teve o apoio total do Exército e mencionem tensões internas, não se pode descartar a possibilidade de confrontos entre diferentes forças de segurança, como aconteceu em março de 2012.


Por sua vez, a sociedade civil, muito ativa nas ruas em apoio ao golpe de agosto, não se mobilizou nesta ocasião, embora várias organizações civis, partidos políticos e diferentes personalidades tenham exigido a libertação dos políticos detidos na base de Kati.


Entre os muitos que ainda não se manifestaram está o muito influente Imam Mahmoud Dicko, que dirige a Coordenação de Movimentos, Associações e Simpatizantes (CMAS), protagonista de inúmeros e massivos acontecimentos em Bamako, desde antes do golpe de agosto e durante estes meses.


Embora, internacionalmente, o novo golpe aparentemente não tenha sido recebido por vários países e instituições internacionais, como a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), a União Africana (UA), a MINUSMA, a União Europeia (UE), além da França, Estados Unidos e Alemanha entre outros países ocidentais.


Até agora, a resposta do novo governo do Mali tem sido nomear o coronel Assimi Goïta como presidente provisório, embora já tenha sido anunciado que as prometidas eleições serão realizadas no próximo ano.