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Lenin: "Ao Governo Czarista"



Este trabalho foi escrito como um panfleto no cárcere, antes de 25 de novembro (7 de dezembro) de 1896, e depois impresso em mimeógrafo pela “União de luta pela emancipação da classe trabalhadora” de Petersburgo. Era a resposta à circular enviada por S. Witte aos inspetores do trabalho e o comunicado sobre as greves de verão de 1896, em Petersburgo, publicado em 19 de julho (31) daquele ano no n.158 de Pravttielttvenni Viéstník.

Neste ano de 1896, o governo russo publicou apenas duas vezes informações sobre a luta dos trabalhadores contra os patrões. Em outros países não são raras tais informações, nelas não se oculta o que está acontecendo e os jornais publicam livremente noticias sobre as greves. Mas na Rússia o governo teme, mais que o fogo, a publicidade relacionada aos regulamentos em vigor nas fabricas e o que nelas acontece: está proibido escrever nos jornais sobre as greves, e aos inspetores do trabalho está proibido tornarem públicos seus relatórios, e até mesmo examinarem as causas relacionadas às greves nos tribunais ordinários, cujas audiências são publicas. Em uma palavra, o governo tem adotado todas as medidas necessárias para manter em sigilo absoluto tudo que esta ocorrendo nas fabricas e entre os trabalhadores. E de repente todos estes truques da policia desaparecem como bolhas de sabão, e o próprio governo se vê obrigado a dizer abertamente que os trabalhadores estão em luta contra os patrões. O que causou esta mudança? Durante o ano de 1895 o numero de greves dos trabalhadores foi particularmente grande. Antes mesmo de acontecerem às greves, o governo trabalhou para manter em segredo as movimentações, afim de que outros trabalhadores não tivessem conhecimento do que estava acontecendo. As greves atuais estão sendo muito mais poderosas que as anteriores e estão sendo concentradas em um só lugar. No entanto aconteceram greves anteriores também poderosas, como por exemplo, as de 1885 e 1886, nas cidades de Moscou e Vladimir. Apesar de tudo, o governo ainda se mostrava forte e nada informava sobre a luta dos trabalhadores contra os patrões. Por que então, que este tempo quebrou o silencio? Porque desta vez os socialistas vieram em auxílio dos trabalhadores, ajudaram-nos a esclarecer a situação, a torná-la conhecida em toda parte, tanto entre os trabalhadores como na sociedade, para formular claramente suas demandas, para mostrar a todos a má fé e a violência desenfreada do governo. O governo então percebeu que era completamente impossível manter-se calado, quando todo mundo estava ciente dos ataques, e falando sobre eles, e decidiu fazer como todo mundo, e começar a falar. Os panfletos dos socialistas exigiam uma resposta do governo, e o governo se apresentou e deu.

Vejamos agora qual é a resposta.

No principio, o governo tratou de evitar uma resposta publica e franca. Witte, o ministro de finanças, enviou um circular aos inspetores do trabalho, no qual qualifica os trabalhadores e os socialistas como “os piores inimigos da ordem social”, aconselhando os inspetores a intimidar os trabalhadores e persuadi-los de que o governo proíbe os patrões de fazerem concessões, mostrando a boa intenção e os generosos propósitos dos patrões, dizer aos trabalhadores os quão preocupados estão os patrões com as necessidades e o bem estar de seus trabalhadores, e quais são os “bons sentimentos” que os encorajam. O governo não falou nada sobre as greves diretamente, não disse uma só palavra sobre suas causas, nem em que consistiam os escandalosos abusos dos patrões e as transgressões da lei, sobre quais eram as reivindicações dos trabalhadores; em uma palavra, enquanto as greves eram levadas a cabo entre o verão e o outono de 1895, o governo seguia seu costume de mentir, tentou se defender com as frases banais e burocráticas sobre os atos de violência e "ilegais" dos trabalhadores, apesar de não terem cometido nenhuma violência; apenas a polícia recorreu a este recurso. O ministro queria que a circular fosse mantida em segredo, mas nem mesmo os funcionários a quem confiaram o documento mantiveram o sigilo, e este se tornou publico, e em seguida os socialistas a publicaram. O governo, então, sentindo-se ridicularizado como de costume, pelos segredos confiados aos inspetores, e que agora era conhecido por todo mundo, tratou de publicá-lo nos jornais. Como já dito antes, esta foi sua resposta em relação às greves de verão e outono de 1895. O resultado foi que na primavera de 1896 as greves se repetiram, e com muito mais força [1]. Os rumores que despertaram, juntaram-se aos panfletos lançados pelos socialistas. O governo começou a calar-se covardemente, continuando a observar até que o assunto terminasse, então, quando a ascensão dos trabalhadores se acalmou, interveio intempestivamente com sua mentalidade burocrática, e uma notificação policial atrasada. Mas desta vez, teve que falar abertamente e comprometer-se a fundo. Seu comunicado foi publicado no num. 158 de Pmvítielstvenni Viéstnik [2]. Mas não conseguiu como antes, difamar a greve dos trabalhadores. Teve que relatar os acontecimentos e quais foram os abusos dos patrões, quais as reivindicações dos trabalhadores; teve que reconhecer que os trabalhadores portaram-se ”decentemente”. Foi assim que os trabalhadores tiraram do governo o infame costume de usar das mentiras policiais; forçando-o a reconhecer verdadeiro o seu levante em massa, quando recorreram aos panfletos para informar publicamente, e isto é um grande progresso, agora os trabalhadores sabem qual é o único meio de tornarem publicas suas necessidades e informar toda Rússia sobre suas lutas. Agora sabem que a falsidade do governo só pode ser combatida pela luta unida dos próprios trabalhadores e pelos seus posicionamentos conscientes para a obtenção de seus direitos. Ao informar sobre o ocorrido, os ministros começaram a dar desculpas; No comunicado, começaram afirmando que as greves foram causadas apenas por “algumas peculiaridades da indústria de fiação de algodão e de lã”. Isso é um absurdo! Não é por causa das peculiaridades de toda a produção russa, pelos métodos do governo russo, que permite que a polícia persiga e detenha trabalhadores pacíficos que se defendem da opressão? Bons senhores ministros, por que é então, que os trabalhadores arrancavam os panfletos de suas mãos, liam-nos e pediam mais? Os trabalhadores não falavam sobre algodão e nem fio, mas sim sobre a falta de direitos dos cidadãos russos, da selvagem arbitrariedade do governo e de sua servidão aos capitalistas. Não, esse novo pretexto é ainda pior, mais odioso do que o usado pelo ministro das Finanças, Witte, em sua circular, jogando a culpa de tudo para os "instigadores". O ministro Witte, pensa sobre a greve, da mesma maneira que pensa qualquer policial que recebe algum dinheiro dos patrões: os instigadores chegaram e a greve surgiu. Depois de verem trinta mil trabalhadores em greve, todos os ministros colocaram-se a pensar juntos, e chegaram à conclusão de as greves não começaram por haver instigadores socialistas, mas os instigadores socialistas apareceram em decorrência do inicio das greves e por ter começado a luta dos trabalhadores contra os capitalistas. Os ministros dizem agora, que os socialistas “dobraram” após as greves. É uma boa lição para o ministro de finanças Witte. Aprenda um pouco senhor Witte! Aprenda a analisar direito as causas de uma greve, aprenda a ouvir as demandas dos trabalhadores e não os relatórios dos seus ratos da policia, aqueles que você mesmo não confia. Os senhores ministros asseguram que eles não são nada além de “indivíduos maliciosos”, que trataram de dar as greves “um caráter político criminal”, ou, como eles próprios dizem em uma passagem, "um caráter social" (os ministros queriam dizer socialista, mas por ignorância grosseira ou covardia burocrática, disseram socialmente, o que acabou sendo um absurdo: dizer socialista seria expor o novo caráter da luta dos trabalhadores contra o capital, usar o termo social, é uma forma de reduzir, e simplesmente dizer que é relativo à sociedade. Como então, pode-se dar um caráter social a uma greve? É como se você quisesse dar aos ministros apenas um caráter ministerial! Isso sim é divertido! Os socialistas dão as greves um caráter político! Mas se foi o próprio governo que, à frente de todos os socialistas, tomou as medidas para que as greves tivessem caráter político, por que é que ele começou a prender os trabalhadores pacíficos como se fossem criminosos? E prende-los e deportá-los? Quem enviou provocadores e espiões por todas as partes? Quem levou todos aqueles que caíram sob suas mãos? Quem prometeu ajudar os patrões a não fazer concessões? Quem perseguiu os trabalhadores apenas por levantar dinheiro em favor dos grevistas?