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Crise política no Peru em meio às disputas entre as classes dominantes



Uma das expressões da crise do regime reacionário peruano tem sido a incapacidade de consenso entre suas classes dominantes para consolidar um chefe de Estado. Com efeito, nas duas últimas semanas, o Peru teve três presidentes, quatro nos últimos três anos.


A turbulência política no país se intensificou desde 9 de novembro, quando um processo de impeachment movido pelo Congresso Nacional derrubou o então presidente Martín Vizcarra, cujo mandato foi marcado por um discurso de cunho reformador e anticorrupção. A partir daí, assumiu no dia seguinte o então líder do Congresso, Manuel Merino, integrante do partido direitista Ação Popular. As massas peruanas, enfurecidas por inúmeras razões que remontam não apenas à corrupção e crise política escandalosas, mas também à fome, miséria, desemprego massivo, respostas ineficazes do Estado à pandemia da Covid-19 (atualmente, o Peru já é o país com a maior taxa mortalidade pela doença no mundo), repressão política e demais, foram às ruas e tiveram o mérito de forjar as maiores demonstrações já vistas no país em muitas décadas. Os movimentos operário e camponês entraram em campo, com a Confederação Geral dos Trabalhadores Peruanos (CGTP) assumindo a linha de frente. Manuel Merino assumiu a presidência em meio à maior convulsão social vivida pelo Peru em décadas, e recorreu à demagogia fascista para lidar com a situação, chamando os manifestantes de terroristas, e até mesmo de “remanescentes do Sendero Luminoso”, um discurso francamente reacionário. A repressão foi brutal, e terminou com centenas de manifestantes gravemente feridos não só em Lima como em outras grandes cidades, e na morte dos estudantes universitários Jack Sanchéz e Jordan Camargo, assassinados pela polícia. Centenas de manifestantes terminaram desaparecidos, sendo sequestrado