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"A crise da democracia"


Os próprios colaboradores da democracia – o termo democracia é empregado como equivalente do termo Estado democrático-liberal-burguês – reconhecem a decadência deste sistema político. Concordam que ele se encontra envelhecido e gasto, aceitam sua reparação e sua revisão. Mais, em seus pareceres, o que está deteriorado não é a democracia como ideia, como espírito, mas a democracia como forma.

Este julgamento sobre o sentido e o valor da crise da democracia, inspira-se na incorrigível inclinação a distinguir em todas as coisas, corpo e espírito. Do antigo dualismo da essência e da forma, que conserva na maioria das inteligências seus velhos e clássicos traços, desprendem-se diversas superstições.

Mas uma ideia que se realiza, já não é mais valida como ideia, mas como realização. A forma não pode ser separada, não pode ser afastada de sua essência. A forma é a ideia realizada, a ideia agindo, a ideia materializada. Diferenciar, tornar a ideia independente da forma é um artificio, são convenções teóricas e dialéticas. Não é possível renegar a expressão e a corporeidade de uma ideia sem renegar a mesma ideia. A forma representa tudo o que a ideia animadora vale, prática e concretamente. Se a história pudesse ser refeita, verificar-se-ia que a repetição do mesmo experimento político teria sempre as mesmas consequências. Retornando uma ideia a sua forma pura, a sua virgindade original e às condições primitivas de tempo e lugar, ela não daria uma segunda vez mais do que deu na primeira vez. Uma forma política constitui, em suma, todo o rendimento possível da ideia que a engendrou. Tão verdade é isto, que o homem, praticamente, na religião e na política, acaba por ignorar o em sua igreja ou em seu partido é essencial, para apenas sentir o que é formal e corpóreo.

O mesmo acontece com os ent