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"O Gigante sem Cabeça: Balanço do Processo Catalão"


Levantou ferro por estes dias do Porto de Barcelona o paquete Moby Dada, que ficou conhecido internacionalmente como “o barco do Tweety” por ter um desenho dessa personagem dos Looney Tunes no casco. O paquete tinha sido fretado pelo Estado espanhol de modo a servir de ponto de apoio aos destacamentos da Guardia Civil e da Polícia Nacional enviados para a Catalunha, no sentido de reprimir o processo independentista que se previa - e se verificou - que sofreria uma pronunciada radicalização com o referendo da independência convocado inconstitucionalmente pela Generalitat. Se a chegada do navio significou que o Estado espanhol entendia a alta probabilidade de ter de reprimir, a partida do mesmo revela que, nem dois meses e meio desde o referendo e apesar de a vida política institucional da Catalunha estar hoje virada do avesso, já não se faz necessário utilizar o bastão da polícia para meter na linha os independentistas.

Como se explica que um processo de independência nacional que se reclama herdeiro de uma tradição soberanista que remonta à Revolta dos Ceifeiros de 1640, que obtém 93% dos votos no referendo, que consegue brandir duas greves gerais em políticas pouco mais de um mês, que obriga o Estado espanhol a tirar a máscara da bonomia e da reconciliação nacional que usa desde a transição, caia sem disparar um tiro em menos de um trimestre? O que explica que as mobilizações de centenas de milhares, mesmo de milhões de pessoas, exigindo a independência, possam ter sido metidas na linha com um reforço da presença policial, sim, mas sem qualquer necessidade de repressão letal e sistemática? Para entender isto é preciso entender que o processo independentista catalão se jogou desde o começo a duas escalas - a do catalanismo burguês, mais ou menos exaltado verbalmente consoante o peso relativo dos sectores pequeno-burgueses e aristocratas laborais em cada organização, e a do independentismo popular, dinamizado nas ruas, nas fábricas, nos bairros, em torno dos CDRs (sigla que começou por significar Comités de Defesa do Referendo para se transmutar em Comités de Defesa da República no dia 27 de Outubro, quando a Generalitat declarou unilateralmente a indepen