"Etiópia, a música de sempre"
- NOVACULTURA.info

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Depois de dois anos de guerra civil etíope (novembro de 2020-novembro de 2022), entre a milícia separatista da Região de Tigray, no norte da Etiópia, a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF, na sigla em inglês) e o exército regular do governo central, as Forças de Defesa Nacional da Etiópia (FDNE), novos abalos vêm ocorrendo desde primeiro de agosto. Isso porque partes do acordo de paz assinado em 2022 não foram implementadas, como a retomada por parte do TPLF do controle da região, com o fim da administração interina criada como parte da resolução do conflito.
Os confrontos mais graves desde o fim da guerra escalaram no último fim de semana em Shererina, perto da fronteira com o Sudão. Algumas testemunhas denunciaram que os combates se prolongaram até domingo, com uso de artilharia pesada e drones, e continuaram na segunda-feira com drones em Merewa, no sul da região.
A guerra civil anterior, que deixou aproximadamente um milhão de mortos, cinco ou seis milhões de deslocados e bolsões de devastação de infraestrutura em todos os Kililoch (regiões) onde ocorreram as grandes batalhas, teve origem na busca de Tigray por independência do governo central, depois que um plebiscito, não reconhecido por Adis Abeba, indicou que a maioria pretendia ter um governo independente.
É verdade que o Acordo de Pretória (África do Sul), que encerrou a guerra em 2022, pareceu dar um fim definitivo àquele conflito, ainda que também seja igualmente certo que nenhum acordo, por mais gentil que possa parecer, consegue apagar as trágicas consequências que as guerras sempre deixam, e muito menos os massacres de características étnicas e tribais ocorridos entre 2020 e 2022, que incluem o extermínio de aldeias inteiras, fuzilamentos sumários, pilhagem e roubo de bens, estupros em massa de mulheres e, em diversas ocasiões, bombardeios contra cidades e povoados do Kililoch, incluindo sua capital, Mekelle, além da destruição do abastecimento de água e da infraestrutura hospitalar.
Nessa guerra, participou ao lado de Adis Abeba o poderoso exército eritreu, que tinha contas pendentes com os rebeldes tigrínios, já que essas comunidades étnicas, que são maioria na Eritreia, se aliaram a seus irmãos etíopes na busca pela criação de uma pátria tigray unificada.
A etnia tigray ocupou por décadas as posições mais relevantes da estrutura governamental da Etiópia; seus membros foram generais e altos oficiais influentes do exército, além de ministros, secretários de Estado e até primeiros-ministros, como é o caso de Hailemariam Desalegn (2012-2018), removido de forma abrupta por um golpe palaciano que deixou no cargo Abiy Ahmed, um amhara/oromo bem visto pelo Ocidente, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2019, cuja ascensão significou o ostracismo de milhares de funcionários tigrínios, que, novamente em sua terra, começaram a cogitar a ideia de uma nação autônoma.
Vários fatores se conjugaram para que a atual tensão entre Mekelle e Adis Abeba não surgisse imediatamente após os Acordos de Pretória: a devastação em que Tigray ficou submersa, a campanha repressiva que o presidente eritreu, Isaias Afwerki, lançou contra os tigrínios de seu país, e o recrudescimento das operações armadas de movimentos insurgentes ativos em outros kililoch, como Amhara e Oromia.
A conformação federal do Estado etíope permite que cada um de seus doze kililoch constitua sua própria milícia, além das FDNE, o que, a partir de abril de 2023, o primeiro-ministro Abiy tentou desarticular, estabelecendo a desmobilização de todas as milícias regionais e sua incorporação ao exército regular. A esses fatores de altíssima tensão é preciso somar a Guerra Civil do Sudão, iniciada em 15 de abril de 2023, apenas cinco meses e alguns dias após o Acordo de Pretória, e que, dada a extrema permeabilidade dos 1.600 quilômetros de fronteira — reduzidos a quase a metade após a independência do Sudão do Sul em 2011, embora os povos ali estabelecidos desde muito antes desses traçados artificiais estejam intimamente ligados por consanguinidade, comércio, cultura e interesses comuns —, tornou praticamente impossível conter as centenas de milhares de pessoas que fugiram do Sudão para a Etiópia. Desde então, sem controle oficial, elas vêm se estabelecendo em acampamentos improvisados, misturando-se a seus irmãos transfronteiriços, e em muitas ocasiões têm sido vítimas dos exércitos de ambos os países.
É nessas áreas do lado etíope que operam fundamentalmente as guerrilhas conhecidas como Fano (juventude), uma milícia etnonacionalista desgarrada da milícia regional Amhara, que desde 2023 enfrenta as tropas das FDNE, as quais não conseguiram neutralizá-la.
Adis Abeba também enfrenta o Exército de Libertação de Oromo (OLA), organização dissidente da Frente de Libertação de Oromo (OLF), que igualmente luta por sua independência.
Pulando do fogo para o fogo
Uma denúncia recente da Human Rights Watch relata que, pelo menos desde o último mês de abril, as autoridades do Kililoch de Tigray lançaram uma operação de sequestros e recrutamento forçado de civis e combatentes já licenciados, incluindo menores. Estes são capturados por meio de batidas nas ruas, com vítimas escolhidas em vias públicas, locais como escritórios e mercados. Há denúncias de que também são invadidas residências privadas durante a noite e acampamentos de explorações mineiras, os únicos lugares onde os mais jovens conseguem encontrar trabalho. As denúncias chegam de aldeias e povoados do interior da região, responsabilizando militares e funcionários do kililoch de Tigray.
Essas levas geraram uma psicose entre a população masculina de todo o kililoch, o que tem forçado muitos a começarem a abandoná-lo. Essa operação teve início a partir do aumento da tensão entre Adis Abeba e o principal partido político de Tigray, a Frente de Libertação Popular de Tigray (TPLF).
Desde o princípio, o TPLF está engajado em uma campanha de recrutamento para convocar os ex-combatentes das Forças de Defesa de Tigray (TDF) a retornarem às suas fileiras, diante da situação de segurança da região, que está prestes a entrar em colapso sob a pressão do poder central.
Essa campanha se intensificou no final de abril por meio de recrutamentos forçados e levas arbitrárias, com possíveis recrutas sendo colocados em caminhões com destinos desconhecidos, supostamente levados a campos de treinamento não declarados nas montanhas — violando as leis internacionais que proíbem incorporações compulsórias.
Centenas de etíopes da região de Tigray começaram a cruzar para o vizinho Sudão após os confrontos entre as forças regionais e o exército etíope durante o fim de semana.
Essa escalada obriga a considerar a possibilidade de retorno ao conflito em larga escala, contagiando-se com a guerra civil do Sudão, onde um entrecruzamento de acusações aponta que há partes envolvidas operando em ambos os lados da fronteira.
A administração regional de Tigray responsabilizou o governo central por deflagrar uma “guerra aberta” na zona de Shererina, uma pequena localidade no oeste de Tigray, particularmente sensível por estar em disputa com o Kililoch Amhara, violando os acordos de paz, com o objetivo de “subjugar e dividir” o povo de Tigray.
Em meio a tanta confusão e acusações cruzadas, também não foi possível conhecer o número de mortos desses confrontos, que nunca se sabe se são os primeiros ou os últimos, embora façam parte da mesma música.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional




































































































































