"Incendiários no mar Vermelho"

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Levará muito tempo e muitos recursos para fazer a atual posição dos Estados Unidos no Oriente Médio retornar à que tinha até 27 de fevereiro deste ano, se isso já fosse de alguma maneira possível. Os danos provocados pela artilharia do Irã, se à primeira vista são incomensuráveis, ainda são maiores do que só podemos suspeitar, já que a informação sobre essas perdas está mais bem guardada do que os verdadeiros arquivos do pedófilo e agente sionista Jeffrey Epstein. Embora nenhum dos danos, públicos ou secretos, tenha a magnitude do provocado na escola da cidade de Minbad, onde mais de 170 meninas foram massacradas em suas salas de aula, razão pela qual de modo algum foi um dano colateral, mas um crime de guerra buscado e programado pelo Mossad para quebrar a vontade do povo iraniano, o que, passados mais de 210 dias, não foi alcançado.
Analistas, jornalistas e historiadores terão de dedicar muito tempo a reconstruir a verdadeira razão que levou o presidente estadunidense Donald Trump, ignorando seus generais, a se meter em semelhante aventura. E a infligir aos Estados Unidos uma derrota cujas consequências ainda são piores que as do Vietnã ou do Afeganistão.
Isso porque não só complicou o comércio marítimo internacional, como perdeu o controle da península arábica, da qual era dono desde 1945, e hoje seus aliados estão batendo em retirada.
Seria insensato desvincular a vitória de Teerã do renovado impulso dos houthis. Isso os levou a tomar das forças “oficiais” do Iêmen, financiadas por Riad, toda a margem iemenita do mar Vermelho e do estreito de Bab el-Mandeb, para atacar o sul da Arábia Saudita, onde atingiram refinarias, instalações da petrolífera oficial Aramco, o oleoduto Leste-Oeste, portos como o de Yanbu, no mar Vermelho, bases militares e cidades. Chegando inclusive a atacar locais próximos ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, motivo pelo qual estão ocorrendo cancelamentos e atrasos nos voos programados. Já durante a guerra de 2015-2022, o rei Khalid havia sido atingido em várias ocasiões.
Nesse contexto, o reino espera desesperadamente uma reação da Casa Branca que, com um olho na disparada dos preços dos combustíveis e no esgotamento militar, e o outro na terça-feira, 3 de novembro, prefere fingir estrabismo. Trump já sabe que os houthis não são fáceis de conter quando se obstinam. Entre o final de 2024 e o início de 2025, executou a Operação Guardião da Prosperidade, uma campanha de bombardeios, junto com o Reino Unido e os sionistas, contra posições houthis e, apesar do anúncio de que os haviam exterminado, vemos que continuam lá.
O presidente norte-americano também não se comove com o investimento de dois bilhões de dólares que os sauditas fizeram em 2024 na Affinity Partners, a firma de investimento privado do genro presidencial, Jared Kushner, nem com o monumental negócio de outros 55 bilhões de dólares, com os quais os sauditas acabam de comprar, por intermédio de Jared, a Electronic Arts Inc., desenvolvedora e distribuidora de videogames. Já sabemos que crime doesn't pay.
Para piorar, os sócios sauditas do Acordo de Meca (Paquistão e Turquia) desconhecem o acordo, atentos às suas próprias questões internas, tanto econômicas quanto políticas e até militares, que os impedem de intervir, conforme o combinado há apenas 50 dias.
Nesse contexto de total orfandade, a Arábia Saudita conseguiu a promessa de apoio aéreo “defensivo” do Reino Unido, para tentar contrabalançar as ações dos rebeldes iemenitas. Andy Burnham, o primeiro-ministro britânico, afirmou que se devem restabelecer os combatentes houthis e a estabilidade no Oriente Médio, ao mesmo tempo que se reduz o custo de vida no país. Burnham concordou com o reabastecimento em voo da aviação saudita para defender sua infraestrutura energética, manter aberto o fluxo de seu petróleo para aliviar a galopante crise econômica global e manter aberto o Bab al-Mandeb.
Portos, armas e interesses
Diante das mudanças produzidas após a ofensiva houthi na margem oriental do mar Vermelho, que abrange também o estreito de Bab el-Mandeb, de pouco mais de 30 quilômetros de largura, todas as nações da região, que já estão de per si envolvidas em graves conflitos de segurança, como a Etiópia, à beira de uma reedição da guerra civil; a Somália, com a presença do grupo fundamentalista al-Shabaab, que não dá trégua a Mogadíscio; o Sudão, há mais de três anos em uma guerra civil que está consumindo o país; a que, em outro contexto de violência, podemos somar a Eritreia, Djibuti e o Egito, em crescente tensão com a Etiópia pelas consequências para o Nilo da entrada em operação da Grande Represa do Renascimento Etíope, mais cedo ou mais tarde o novo contexto começará a influir em cada uma delas.
De imediato, todos os portos africanos no mar Vermelho adquiriram importância fundamental para a segurança das embarcações que transitam do golfo de Áden a Suez, e vice-versa, transportando quase 25% do comércio mundial (12% do petróleo).
O que já experimentamos com o fechamento parcial ocorrido entre 2023 e 2024, que disparou os custos dos fretes, já que muitas empresas de navegação, por segurança, decidiram contornar a África, estendendo a rota em 20 a 25 dias.
Embora, por mais proteção que esses portos tentem lhes dar, se os houthis decidissem, o que é bastante improvável, fechar o Bab al-Mandeb, para o que dispõem de recursos como mísseis, minas e lanchas rápidas ao longo de toda a faixa iemenita do mar Vermelho e inclusive nas ilhas interiores próximas à desembocadura do mar Vermelho, o que, se fosse coordenado com o fechamento do estreito de Ormuz, já estaríamos falando praticamente de um colapso absoluto do comércio mundial, o que seria quase distópico caso ocorresse.
O Egito, dado que as taxas pela passagem pelo canal de Suez são sua principal fonte de receita em um contexto de economia cada vez mais deprimida, seria um dos países africanos mais afetados pelo bloqueio. Já em 2024, a diminuição do tráfego marítimo lhe custou mais de sete bilhões de dólares.
Djibouti, que já foi afetado pela chegada de mais de 2 mil refugiados iemenitas com o início desta nova etapa da ofensiva rebelde, e cujo número se espera que continue aumentando caso a situação siga se agravando, também será prejudicado economicamente, já que seus portos trabalham fundamentalmente com o fluxo do comércio exterior da Etiópia, por ser esta última um país sem litoral, em aproximadamente 95%.
A posição geográfica da Eritreia, um país altamente militarizado, a torna particularmente interessante para Riad e o Cairo, pois precisam garantir que nem o Irã nem os houthis consigam aumentar sua influência no litoral ocidental do mar Vermelho.
A influência houthi, apesar das enormes diferenças filosóficas entre ambos e o grupo fundamentalista somali al-Shabab, já ficou clara, depois de conhecido o acordo entre os dois grupos, que está produzindo um importante intercâmbio de homens, armamento e tecnologia de drones do Iêmen para a costa do norte da Somália, o que também beneficiará a já lendária pirataria nas costas da Somália, um fator nada desprezível para as empresas de navegação, tendo alcançado este ano seu nível mais alto em dez anos.
Para o atual contexto da guerra civil do Sudão, essa nova realidade tampouco é um detalhe menor, já que os Emirados Árabes Unidos, dos quais não estão alheios nem os sionistas nem a Ucrânia, assistem os paramilitares das Forças de Apoio Rápido com armamento que chega em aviões e dali é introduzido por terra no Sudão; um fluxo menor também chega da Líbia. As Forças Armadas Sudanesas estariam recebendo assistência militar de Teerã, por alguns portos menores do mar Vermelho, enquanto em Port Said se recebe assistência alimentar e sanitária para os mais de 15 milhões de deslocados que o conflito já gerou.
Embora a Turquia tenha muitos interesses na região, tendo destacado efetivos sob a cobertura de “assessoria” militar e policial para as tropas regulares do país, até agora tem tentado se manter à margem do conflito central, que, se não for controlado logo, pode incendiar o leste africano.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional













































































































































