"A 'Vida Eterna' de Víctor Jara"

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“Canto que mal que sales
cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo,
espanto como el que muero”
Estes foram os últimos versos que Víctor Jara conseguiu escrever num caderno esfarrapado minutos antes de ser executado em 16 de setembro de 1973. Cinco dias antes havia começado o golpe de Estado do general Augusto Pinochet contra o governo legítimo de Salvador Allende no Chile. Na manhã de 12 de setembro, Víctor Jara estava na Universidade Técnica do Estado quando foi detido junto com parte do corpo docente e alunos. Dali foram levados ao Estádio Chile, agora rebatizado como Estádio Víctor Jara.
No local, transformado numa espécie de campo de concentração para prisioneiros afins a Allende, os golpistas reconheceram rapidamente Jara. O cantautor havia se transformado em um símbolo dentro e fora do Chile. Era o compositor do povo humilde, o que cantava ao vento de Miguel Hernández, à luta da classe operária, essa que sempre rega com seu sangue as guerras. Víctor Jara escreveu para os camponeses a quem o sol escurece a pele, a quem o suor faz sulcos, para seus pais. Para os explorados que perdem a vida, para os que tudo lhes tiraram. Em suma, Víctor Jara escreveu e cantou para aqueles a quem ninguém nunca escreve nem canta, para os que não aparecem em uma canção. E por isso mesmo era tão perigoso para Pinochet e os seus.
“Tragam esse filho da puta para cá!”, conta o advogado Boris Navia, também detido, que ouviu um oficial gritar quando viu Jara na fila dentro do estádio. “Tragam esse filho da puta para cá!”, repetiu. “Aquele idiota, aquele ali!”, gritava enquanto apontava para o cantautor. “Ei, sua mãe! Você é o tal Víctor Jara, seu idiota. O cantor marxista, o cantor de pura merda!”, conta Navia que lhe disse, para em seguida começar a chutar o corpo e o rosto do compositor, que se protegia como podia. Tudo isso, sem perder o sorriso. Porque, segundo relataram as testemunhas, Víctor Jara jamais perdeu o sorriso. Um sorriso de trincheira que era preciso defender da miséria e dos miseráveis, como diria Mario Benedetti.
Passou a quarta-feira, 12 de setembro, e a quinta, 13. Quase 5 mil presos se amontoavam no Estádio Chile. Víctor Jara não havia provado bocado. Tinha várias costelas quebradas e um olho estourado. Aproveitando uma confusão na tarde de quinta-feira, alguns presos deram um pouco de água ao cantautor, e até conseguiram um ovo cru, que Jara furou com um fósforo para poder sorvê-lo, sempre segundo a versão de Boris Navia. Naquele dia conseguiu dormir com seus companheiros. Parecia que os golpistas haviam se esquecido dele. No sábado, 15 de setembro, o compositor pegou papel e lápis e escreveu seus últimos versos, para que ficasse registrado no papel o espanto que estava vivendo. Espanto que o levaria à morte pouco depois.
Víctor Jara chegou a ser nomeado embaixador cultural quando Allende alcançou o poder em 1970. Foi protagonista de um esplendor cultural sem precedentes na história do Chile. E, apesar de se erigir como um mito, Jara jamais rompeu com suas raízes; ao contrário, decidiu se envolver nelas, em suas misérias, em sua beleza. Queria a revolução tanto quanto a queriam o jovem secundarista, o universitário e o proletário. E para isso sempre pensou que a educação seria o caminho para alcançá-la.
En la Universidad
se lucha por la reforma
para poner en la horma
al beato y al nacional.
Somos los reformistas,
los revolucionarios,
los antiimperialistas,
de la Universidad.
Os soldados voltam a torturar o cantor a coronhadas. “Duas vezes Víctor consegue se levantar, ferido, ensanguentado. Depois não se levanta mais. É a última vez que vemos com vida nosso querido trovador. Seus olhos pousam pela última vez sobre seus irmãos, seu povo maculado”, relembrou Navia no ato-homenagem ao cantautor em 2003. Era o momento de calar Víctor Jara para sempre. Até mesmo de cortar-lhe a língua para que nunca mais se ouvisse a voz do povo.
Quarenta e quatro balas puseram fim à vida de um dos compositores mais importantes da história. Terminou a vida do trovador que estava prestes a completar 41 anos, e seu corpo foi jogado perto do Cemitério Metropolitano, onde um trabalhador o reconheceu e avisou sua esposa, Joan. Desde aquele dia, como disse o Quilapayún — grupo no qual Jara atuou como diretor artístico entre 1966 e 1969 — durante um concerto, seus míticos ponchos ganharam um sentido diferente daquele que lhes deram quando criaram seus trajes: “Agora são um luto que carregamos e carregaremos sempre por Víctor”.
Do Resumen Latinoamericano









































































































































