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História das Três Internacionais

"Torcendo pela Copa do Mundo em meio ao genocídio"

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  • há 1 hora
  • 6 min de leitura

 

Em 16 cidades e três países-sede, a Copa do Mundo da FIFA de 2026 atraiu bilhões de espectadores para um espetáculo global de alegria, rivalidade e orgulho nacional.

 

Ela também ocorreu durante um genocídio em andamento. Ainda assim, o futebol e o esporte de forma geral, diferentemente de praticamente todos os outros espaços culturais e institucionais, permaneceram amplamente isentos da responsabilização política que três anos de massacres em Gaza impuseram à vida pública.

 

O torneio de 2026 foi o maior da história das Copas do Mundo. Foi ampliado de 32 para 48 seleções nacionais e transmitido para uma audiência global estimada em cinco bilhões de pessoas. Somente a final foi assistida por 1,4 bilhão de espectadores.

 

A maior parte das partidas, incluindo todas as fases eliminatórias a partir das quartas de final, foi disputada nos Estados Unidos.

 

Esta é a segunda Copa do Mundo realizada sob a sombra de um genocídio em curso — o genocídio de Ruanda, que durou 100 dias, terminou no meio da Copa de 1994, também sediada pelos Estados Unidos.

 

Mas é a primeira Copa do Mundo sediada principalmente por uma nação que financia um genocídio.

 

Em 2022, a FIFA suspendeu a Rússia poucos dias após sua invasão da Ucrânia, declarando que o futebol estava “totalmente unido” em solidariedade. Durante o apartheid, a FIFA expulsou a África do Sul em 1961 e manteve essa exclusão por mais de três décadas.

 

No entanto, mais de dois anos após o genocídio em curso de Israel em Gaza, que já matou mais de 73 mil palestinos, nenhuma medida comparável foi tomada contra Israel.

 

Tudo, menos o esporte

 

O torneio de futebol também posicionou os Estados Unidos — um país que forneceu mais de 21 bilhões de dólares em ajuda militar durante o genocídio em curso, travou uma guerra de escolha contra o Irã e participa da contínua limpeza étnica do Líbano — como promotor de alegria global precisamente no momento em que facilita a morte em massa.

 

Em 29 de junho, bem no meio da Copa do Mundo, o goleiro Saleem al-Ashqar, de 32 anos, foi morto a tiros por forças israelenses enquanto procurava recarregar um botijão de gás de cozinha. Ele estava casado havia cinco meses e sua esposa espera o primeiro filho do casal.

 

A Associação Palestina de Futebol informa que mais de 1.000 atletas palestinos foram mortos desde outubro de 2023, incluindo 567 jogadores de futebol. Quase 300 instalações esportivas foram destruídas em Gaza, onde estádios foram convertidos em centros de detenção ou abrigos para deslocados.

 

Desde outubro de 2023, a pressão contínua por boicotes remodelou o engajamento popular com corporações, universidades, eventos culturais e fabricantes de armas ligados ao genocídio em curso.

 

O esporte, entretanto, foi uma exceção.

 

O teórico italiano Umberto Eco argumentou certa vez que o futebol habita “uma área profunda da sensibilidade coletiva” que nenhum movimento de protesto jamais conseguiria penetrar, um espaço que ninguém “permitirá que seja tocado”.

 

Jules Boykoff, cientista político da Pacific University e autor de Red Card, desenvolveu essa ideia ao longo de duas décadas de pesquisas sobre megaeventos. Seu trabalho documenta como os grandes espetáculos esportivos globais funcionam como motores do que ele chama de “capitalismo da celebração”, gerando uma atmosfera de euforia coletiva que desencoraja ativamente o escrutínio crítico das instituições que os promovem.

 

Nessa perspectiva, o esporte não apenas distrai da realidade política. Ele cria um espaço emocional paralelo onde as regras normais do engajamento político são suspensas.

 

Em fevereiro de 2026, uma coalizão de jogadores palestinos, clubes e grupos de defesa apresentou uma denúncia de 120 páginas ao Tribunal Penal Internacional acusando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, de auxiliar e incentivar crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

 

A denúncia concentra-se no apoio financeiro deles a clubes israelenses que operam em assentamentos ilegais em terras palestinas ocupadas, bem como na continuidade da participação de clubes israelenses e da seleção nacional de Israel em competições internacionais. Segundo o documento, isso “normaliza a vida nos assentamentos e legitima a ocupação ilegal da Palestina por Israel”.

 

O próprio Comitê de Monitoramento Israel-Palestina da FIFA alertou que a manutenção do status quo carecia de legitimidade internacional e recomendou a expulsão dos clubes dos assentamentos. Infantino ignorou a recomendação. Um dos advogados envolvidos declarou ao Drop Site que a FIFA vem protegendo Israel da responsabilização há anos.

 

O esporte a serviço do poder

 

De fato, apenas dois meses antes do anúncio da denúncia ao TPI, Infantino entregou a Donald Trump um repentino e improvisado “Prêmio FIFA da Paz”, uma honraria organizada tão às pressas que surpreendeu vários dos mais altos dirigentes da FIFA.

 

Desde então, a FIFA abriu escritórios na Trump Tower. Dave Zirin, editor esportivo da revista The Nation, descreveu Infantino como alguém que “se curva sem vergonha diante do homem que armou o último ano do genocídio em Gaza e atualmente é cúmplice de sua limpeza étnica”.

 

Como escreveram Zirin e Jules Boykoff na The Nation, poucos conseguem “usar o esporte para encobrir criminosos de guerra e desviar a atenção do trabalho sangrento do império como Infantino”.

 

Enquanto isso, o Departamento de Estado dos EUA confirmou que “trabalharia para impedir completamente qualquer esforço” para suspender Israel do futebol internacional.

 

Apesar de tudo isso, bilhões de torcedores decidiram acompanhar a Copa do Mundo, compartilhar vídeos e lotar estádios semana após semana, sustentando um envolvimento que normaliza o torneio e a ordem política que ele serve.

 

Dentro dos estádios, bandeiras palestinas apareceram atrás dos gols durante transmissões ao vivo. Gritos de “Palestina Livre” ecoaram em áreas de torcedores por diversas cidades-sede. O técnico do Egito, Hossam Hassan, caminhou pelo gramado em Dallas segurando uma bandeira palestina.

 

Esses gestos e seu peso emocional para milhões de pessoas não estão em questão. A questão é o que eles realizam dentro da própria estrutura do torneio.

 

O teórico francês Guy Debord descreveu um processo que chamou de recuperação, o mecanismo pelo qual o espetáculo intercepta imagens radicais, retira delas seu significado subversivo e as incorpora com segurança à corrente dominante.

 

Quando uma bandeira palestina aparece atrás de um gol ou um treinador dedica uma vitória a Gaza, o ato inicialmente interrompe o espetáculo. Ele introduz uma realidade política que a FIFA preferiria manter fora do torneio. Mas essa interrupção dura pouco. As câmeras de televisão a enquadram como mais um momento dramático da Copa do Mundo, as redes sociais a transformam em um vídeo viral e a cobertura jornalística passa a girar em torno da controvérsia gerada pelo gesto.

 

O próprio torneio continua sendo o centro incontestável das atenções, gerando mais transmissões, comentários, receitas e engajamento online.

 

Momentos acima dos movimentos

 

A economia política da atenção favorece momentos em vez de movimentos. Uma fotografia de torcedores exibindo bandeiras palestinas pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas porque é visualmente impactante, emocionalmente compreensível e fácil de compartilhar.

 

Já a exigência formal da Associação Palestina de Futebol pela suspensão de Israel, as campanhas de boicote organizadas nas cidades-sede e os desafios jurídicos à governança da FIFA operam em registros que o espetáculo não consegue absorver facilmente — exatamente por isso recebem apenas uma fração da cobertura.

 

A satisfação de ver uma bandeira tornar-se viral substitui o trabalho mais difícil e lento de apoiar campanhas e reivindicações institucionais que realmente ameaçam as estruturas que tornam possível o genocídio.

 

Essa é a lógica que Boykoff descreve como capitalismo da celebração. O espetáculo não exige neutralidade política. Ele pode acomodar uma dissidência limitada, desde que essa dissidência permaneça parte da celebração, e não um desafio às condições que tornam a celebração possível.

 

Para os palestinos e seus apoiadores, nada disso significa que os atos simbólicos careçam de significado. Ver uma bandeira exibida diante de bilhões de espectadores pode afirmar uma humanidade compartilhada que muitos governos negam. Mas, como essa visibilidade é mediada inteiramente pela vitrine da FIFA, ela acaba sendo reincorporada ao próprio espetáculo. A energia política é absorvida e devolvida como engajamento, e não como responsabilização.

 

A questão, então, não é se a Copa do Mundo gera solidariedade, mas a que essa solidariedade acaba servindo. Boykoff resumiu claramente o que está em jogo:

 

“Estamos em um momento histórico em que é preciso escolher um lado, e a Copa do Mundo de 2026 oferece uma oportunidade para escolher o lado certo.”

 

O jornalista palestino Abubaker Abed, colaborador frequente da The Electronic Intifada e alguém que tem reportado de dentro do genocídio em curso, escreveu no dia de abertura do torneio:

 

“A FIFA é cúmplice. Os anfitriões da Copa do Mundo são cúmplices do genocídio em Gaza... Se você realmente não quer ver crianças mutiladas todos os dias, então não contribua para isso.”

 

O que o entusiasmo popular faz, estrutural e politicamente, quando é direcionado a uma instituição cúmplice de um genocídio em curso é uma questão à qual cada espectador responde, tenha refletido sobre ela ou não.

 

O espetáculo converte energia política em experiência emocional, distribui essa experiência como conteúdo e deixa intactas as estruturas de poder. Para aqueles que assistem, compartilham e torcem, isso tem um custo que ainda não foi devidamente contabilizado.

 

Por Rushda Fathima Khan, no Electronic Intifada

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