1/10

"Futebol: um esporte de massas?"



O fracasso da tentativa dos proprietários multimilionários dos grandes clubes de formar uma “super liga” das principais equipes europeias de futebol é apenas um capítulo ininterrupto na história da mercantilização do esporte em empresas capitalistas lucrativas, pertencentes e controladas pelo capital. Não é por acaso que a JP Morgan foi o gestor financeiro do plano da Super Liga – visto que o banco resume o papel do capital mundial no controle do esporte moderno. E não é por acaso que o principal motor para a nova liga tenha sido o presidente do Real Madrid, um clube de futebol dominado no passado pela corrupta monarquia espanhola e pelo franquismo, a ala fascista do capital espanhol. O Real Madrid é um clube controlado pelos sócios, ao contrário da maioria dos grandes clubes, mas apenas os muito ricos podem ser presidentes e o clube vive da promoção da marca, como acontece com a maioria dos clubes. E o Real Madrid tem enormes dívidas.


A Super Liga seria um cartel, destinado a criar um monopólio para os maiores clubes de futebol na Europa à custa dos clubes mais pequenos e, em última análise, à custa dos “fãs” ou dos torcedores desses clubes que em breve iriam pagar pesadas assinaturas para ver os jogos na TV ou altos preços para assistir aos jogos nos estádios. Mas tudo isso já estava a acontecer.


O debate sobre este cartel esconde o papel do próprio capitalismo. É a mesma ideia quando os economistas falam do papel desagradável dos monopólios, como se o capitalismo competitivo fosse uma coisa boa e justa e bastava que voltássemos à “livre competição”. A realidade é que o futebol já está capitalizado: possuído e controlado por multimilionários, frequentemente como um seu brinquedo, mas cada vez mais como um negócio de ganhar dinheiro. Os fãs não têm voto na matéria; os jogadores e os dirigentes obedecem às ordens. As organizações de fãs protestam contra a ditadura dos multimilionários, mas não propõem soluções e limitam-se a dizer “Precisamos de fazer mais do que denunciar a burla deles e contentarmo-nos com o compromisso de uma Liga dos Campeões alargada. Temos de reescrever as regras, refazer as instituições e reavaliar o nosso papel enquanto fãs”.


Assim, acabar com este cartel (para já) não altera a realidade da mercantilização do esporte, ou seja, a substituição do seu inicial “valor de uso” – as pessoas jogarem e assistirem – pelo valor de troca para lucro. O esporte tornou-se um negócio logo no início da evolução do capitalismo industrial em meados do século XIX. Vejamos o futebol. Há cerca de 600 jogadores profissionais na primeira liga em Inglaterra, cerca de 4000 futebolistas profissionais em Inglaterra e cerca de 65 000 jogadores profissionais no mundo. Claro, da base para o topo, as desigualdades de receitas ou salários para os futebolistas são gigantescas: de um jogador que ganha um milhão e meio de dólares por semana a um que não consegue viver do salário de futebol e precisa de um segundo emprego (claro que estes últimos são a esmagadora maioria). E ainda há as pessoas que só jogam por prazer, serão cerca de 250 milhões de jogadores de futebol em todo o mundo.


As desigualdades salariais são as mesmas noutros esportes importantes a nível mundial: beisebol e futebol americano, críquete e tênis. Mas o que se passa no futebol europeu e no beisebol americano é que, supostamente, deviam ser esportes de massas. Mas a níveis importantes, nunca foram “esportes de massas”. No primeiro, as mulheres foram excluídas deste jogo até há pouco tempo. O futebol não era um esporte de massas, mas um jogo de homens, jogado por homens e a que assistiam praticamente só homens. As mulheres não “faziam esporte” e muito menos futebol. O futebol feminino só apareceu no mundo nas últimas décadas e continua pouco apoiado pelo capital e por fãs. Supostamente, as mulheres deviam ficar em casa a preparar as refeições para quando os homens voltassem de jogar ou de assistir aos jogos. No caso do críquete, as mulheres deviam fazer o chá e preparar os sanduíches enquanto os homens estavam a jogar no terreno.


O racismo também foi uma força poderosa no esporte moderno. Quem era negro ou asiático estava excluído do esporte profissional. Por exemplo, só em 1947 é que as equipes profissionais americanas de beisebol incluíram um jogador negro. Até aí, o beisebol não era apenas um esporte masculino, era um esporte de homens brancos, especialmente quando havia dinheiro envolvido.


O críquete teve origem nas aldeias medievais da Inglaterra e da França, e era jogado sobretudo pelos trabalhadores rurais. Mas depressa se tornou num “esporte aristocrático”. A um nível organizado, acabou por ser dominado pela classe alta e pelos aristocratas (ainda em Inglaterra). Na Inglaterra, o jogo profissional estava dividido entre os que eram “jogadores” e eram pagos para jogar e os que eram “gentlemen”, que eram tão ricos que não precisavam ser pagos. Com efeito, em Lords, a capital do críquete em Inglaterra, havia entradas separadas para cavalheiros e para jogadores, e todos os anos cada grupo jogava um com o outro, preservando a tradição da separação.


Claro que o capitalismo moderno pôs tudo isso à parte quando o dinheiro falou mais alto. Agora, o críquete tornou-se numa empresa capitalista mundial, dirigido por multimilionários indianos que utilizam mercenários do críquete de todo o mundo nas suas competições lucrativas. O críquete tornou-se no esporte popular no sul da Ásia (um produto do domínio colonialista), mas está totalmente mercantilizado no topo. Claro, o cartel de futebol da Super Liga já funciona no críquete na Índia, enquanto as antigas ligas amadoras desaparecem perante o capital multimilionário. Hoje o críquete é pouco jogado nas escolas públicas inglesas e os jogadores profissionais são quase todos recrutados em escolas privadas ou nas “famílias” do críquete. Os jogadores da classe operária das áreas industriais de Yorkshire e de Lancashire quase desapareceram.