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História das Três Internacionais

"Distúrbios em Paris, até além do inferno"

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  • há 2 horas
  • 6 min de leitura

 

A Hossam Hassan

 

Demoraremos a entender as verdadeiras consequências que deixa o genocídio que, com toda naturalidade, Israel perpetra a céu aberto em Gaza, desde 8 de outubro de 2023, para fixar uma data… porque todos, também, sabemos que isso começou há quase 80 anos e que vai continuar até além do inferno.

 

Agora, como nunca antes, a violação dos direitos humanos, do direito internacional, das Convenções de Genebra, da ética e da moral tão apregoada no Ocidente, pode ser justificada sem nenhum temor de represálias, com um simples: "Faço porque posso fazê-lo".

 

Por isso estamos tomando conhecimento de que, mais uma vez, Benjamin Netanyahu, apertando não se sabe que mola, conseguiu que sua marionete preferida, Donald Trump, reiniciasse os ataques contra o Irã, casualmente no momento em que milhões de iranianos atravessam o período culminante das exéquias do ex-líder supremo da nação, o aiatolá Ali Khamenei, martirizado em 28 de fevereiro passado, junto com boa parte de sua família, e no momento em que também se bombardeava, sabendo, entre outros alvos, uma escola em que morreram 170 meninas na cidade de Minab, a 1.400 quilômetros ao sul de Teerã, "detalhe" pelo qual ninguém se despenteou.

 

Os últimos bombardeios de 8, 9 e 10 de julho tiveram como alvo principal a rede ferroviária do país, com toda a intenção de impedir que outras centenas de milhares de iranianos se juntassem aos milhões que se preparavam para se despedir em Mashhad, a cidade natal do aiatolá Khamenei e onde se encontra o santuário do imã Reza, construído no ano de 818 e considerado o coração espiritual da nação. O cortejo em honra a Khamenei chega ali após uma longa peregrinação, que começou na capital iraniana, percorrendo por via terrestre, aviões e helicópteros, a cidade santa de Qom e as cidades iraquianas de Najaf e Karbala, que também têm uma profunda carga simbólica para o xiismo.

As bravatas de Trump, tão instáveis quanto o açafrão de seu cabelo, mais uma vez ameaçam destruir o Irã, colocando-se na mesma situação em que esteve desde o início de março e com a qual conseguiu uma derrota de grandes proporções, motivo pelo qual é muito difícil que possa continuar por muito mais tempo até que volte a sentar seus representantes numa mesa de negociações e, mais uma vez, a cabra volte ao monte, para recomeçar até nos encontrarmos com que já não há onde, nem o quê, recomeçar.

 

Já que parece que o mundo está submerso em um fim civilizatório onde tecnovigaristas da mesma laia de Peter Thiel ou Elon Musk se atrevem a anunciar que projetam um mundo que até poucos meses parecia distópico, no qual todos seremos seus servos, e no qual conceitos como democracia, independência, autodeterminação, direitos, justiça, igualdade e liberdade vão se esvaindo depois de tê-los convertido em remoras que nos prendem a um passado absurdo, onde, mais ou menos, todos éramos iguais perante a lei, e o Estado protetor acabe se convertendo em uma barreira obsoleta para que os multibilionários possam ficar com tudo, até comercializar o ar, caso encontrem a maneira de fazê-lo, porque o direito à água já se discute há anos.

 

Enquanto se começa a considerar um grave erro ter acabado com a sociedade escravista, em tempos em que ainda existem alguns ignorantes, seguramente comunistas, que insistem que o mundo é uma esfera, maltratada, mas esfera afinal, e não plano, como já todos, há tempos, sabemos.

 

Reinterpretação do uroboro

 

Por isso, quem pode o mais, pode o menos; sem nos surpreender, testemunhamos como, à vista de todos, o mesmo homem que pode incendiar o mundo apertando um botão, beliscando as nádegas de sua bailarina de plantão, Gianni Infantino, faz com que se retire o cartão vermelho do jogador da seleção norte-americana, que foi à bola com mais força do que deveria, sem que isso tenha a magnitude simbólica que semelhante ridicularia, ínfima e vulgar, pode habilitar milhões de pessoas a fazerem o que lhes ocorrer, e isso já está acontecendo.

 

Enquanto a Copa do Mundo de futebol continua nos colocando em estado de êxtase, como nenhum outro fenômeno consegue com boa parte da humanidade, porque sem dúvida o futebol é o jogo belo, porque nele, como em nenhum outro, reina a “dinâmica do impensado”, como definiu melhor do que ninguém o jornalista argentino Dante Panzeri. E nele, se de verdade Davi pode vencer Golias.

Um jogo que pode fazer com que milhões de bangladeshianos torçam até a exaustão pela seleção de um país, a Argentina, neste caso, que fica literalmente do outro lado do mundo. Exatamente a 16.787 quilômetros, por razões que têm a ver com o que aquele povo sofreu nas mãos do colonialismo britânico, reconhecendo-se na reivindicação da Argentina por suas Ilhas Malvinas e sua guerra de 1982. Ou onde, tristemente, apenas um homem, entre os milhares de participantes diretos do certame, que entre jogadores, comissões técnicas, árbitros, dirigentes, funcionários da FIFA, jornalistas, voluntários, forças de segurança e pessoal de apoio, que segundo a IA foram 150 mil, de todos eles, esse homem é o treinador da seleção egípcia Hossam Hassan, que teve o que é preciso ter, naquele famoso lugar que costumava ficar entre as pernas dos homens, para se atrever a lembrar publicamente o genocídio palestino, exibindo ao mundo a bandeira da nação mártir.

 

Nessa viagem entre o profano e o sagrado à qual nos impele, a cada quatro anos, a Copa do Mundo de futebol, onde gols como os de Lionel Messi, por mais maravilhosos que pareçam, a ponto de serem festejados até por seus adversários, podem disfarçar a tragédia da Venezuela, esquecer guerra e genocídios ou evitar por um momento a introspecção que deverá fazer a sociedade mexicana, que sendo extraordinariamente rica em história e cujas expressões culturais alcançam o sublime, dando intelectuais de primeiríssima linha em nível mundial, uma quadrilha de capangas, que mal sabem se expressar por sinais, pagos pelos grandes holdings jornalísticos, tenham convencido milhões de que ou se triunfa no futebol ou não se é absolutamente nada. Por isso, após a eliminação de sua seleção, milhares deles saíram para destruir o que era próprio, para amaldiçoar sua desgraçada vida, para se agredirem entre si, chegando a deixar meia dúzia de mortos nas ruas e milhares de feridos.

 

Mais uma amostra daquilo a que nos aproximamos à velocidade da luz foi o que aconteceu com o resultado da partida entre França e Marrocos, o que na verdade mascara algo muito mais profundo e tragicamente irresolúvel, pelo qual não importava quem vencesse, tudo terminaria exatamente igual, porque o desastre está latente e continuará latente ali por décadas, seja pelo roubo de uma carteira no metrô ou pela partida de futebol mais importante da história.

 

Porque no momento em que tudo terminou no Gillette Stadium, na cidade de Boston, os 8 mil destacados em Paris para conter as massas foram literalmente varridos e Paris deixou de ser uma festa. Ali chegaram com mais pontualidade do que as monções chegam a cada ano à Índia e a Bangladesh. A tempestade replicou as grandes crises do início do século, quando as periferias de Paris convergiram para seu centro, deixando centenas de veículos em chamas, lojas saqueadas, mortos, feridos e detidos em uma cifra nunca confessada, e a segurança de uma das capitais mais vigiadas do mundo pendendo por um fio.

 

Mais uma vez os grandes bulevares parisienses se tingiram de fogo e multidões dispostas a tudo, muito além de um simples 2 a 0, porque isso não se trata de futebol, isso se trata do pior dos males que a humanidade criou: o “colonialismo”, que não cessa, como aquele raio de Miguel Hernández, e a perseguição, o desprezo por milhões de africanos, muçulmanos, orientais ou sul-americanos, continuam padecendo, não importa em que cidade da Europa vivam. Ontem foram apenas Paris, Londres e Haia, mas sem dúvida serão mais lugares e mais graves os distúrbios. Por qualquer razão ou nenhuma, nunca ficou claro qual foi o fato pontual pelo qual sucedeu o que sucedeu em Belfast, embora as razões as conheçamos de sobra.

 

Ninguém foi ali por vontade própria; ali chegaram porque o colonialismo destroçou suas nações, suas culturas e saqueia seus recursos. A única coisa que lhes restou foi escapar para frente, afundar-se no Mediterrâneo e, uma vez chegados a qualquer lugar, perdurar como for possível no submundo das periferias, trabalhando no que for, inclusive como traficantes, garçons de café, peões de obra ou roubando placas de bronze; tanto faz, porque o trabalho honesto não os torna honestos diante de uma sociedade que decidiu estigmatizá-lo.

 

O uroboro, o símbolo da serpente que morde a própria cauda, que o império egípcio simbolizou como o ciclo eterno das coisas que voltam a começar, e o racismo e o colonialismo estão imersos nesse ciclo que, como as primaveras ou as monções, mais uma vez retorna para nos levar até além do inferno.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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