"Alguma vez todos seremos marroquinos"
- NOVACULTURA.info
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Observar a crise “migratória” que acaba de ocorrer em Ceuta como uma questão pontual é ficar olhando alguns grãos de areia na ponta dos dedos, enquanto ignoramos o deserto que vem avançando sobre nós há décadas. Porque o que aconteceu na semana passada não tem nada de migratório e tem tudo de uma grave crise humanitária.
Será uma questão para Pedro Sánchez e seu gabinete a forma de compreender a mensagem que Mohamed VI lhe enviou, por intermédio daqueles quarenta ou setenta mil jovens que chegaram, menos os cem que se afogaram, arriscando tudo até a praia de Tarajal, com a única intenção de golpear seu governo “socialista” e ver como responder com gentileza ao remetente.
Talvez, neste caso, como muitos acreditam, de forma quase idêntica à crise de 2021, o rei marroquino não tenha feito outra coisa senão retransmitir a mensagem de Donald Trump, por alguma divergência sem grande importância que a Moncloa e a Casa Branca mantêm, agravada pela negativa espanhola de elevar os gastos militares exigidos pelo presidente cor de açafrão a todos os membros da OTAN. Ou pela proibição do uso das bases de Morón e Rota no início da guerra contra o Irã, ou ainda pelas críticas do governo espanhol ao genocídio perpetrado pelos sionistas em Gaza. Além disso, existe uma clara intenção de desestabilizar Sánchez para beneficiar o VOX e o Partido Popular, que sabemos serem aliados nas eleições do próximo ano.
Porque, se a Espanha finalmente viesse a ser expulsa do Espaço Schengen e seus 50 milhões de cidadãos se convertessem, de uma hora para outra, em “espaldas mojadas” (imigrantes ilegais), assim será o destino de Pedrito, playlist incluída.
Mas, até aqui, seguimos olhando a areia grudada nas pontas dos dedos, enquanto milhões se preparam para chegar não apenas a Tarajal, não apenas à Espanha, mas a toda a Europa. E, quando neste caso se fala em milhões, é porque são milhões os que se acumulam desde o Marrocos até a Turquia, sustentados à força dos bilhões de euros que, todos os anos, a União Europeia (UE) deposita nas contas oficiais e seguramente também nas não oficiais de muitos chefes de Estado de toda a margem sul do Mediterrâneo, para que os desamparados vindos de todos os cantos da África e da Ásia não realizem o sonho de comer ao menos uma vez por dia e sejam mantidos, à força desses subornos, amontoados em barracas e acampamentos brutais. Enquanto isso, esses mesmos governos que recebem dinheiro por todos os lados, amparando-se agora na teoria da grande substituição — aquilo que o francês Renaud Camus formulou em 2017 e com que alertou sobre um suposto plano mestre, concebido quase em escala universal, para que, aos poucos ou de forma abrupta, como em Ceuta, estrangeiros se instalem, constituam famílias, multipliquem descendentes e, em um par de gerações, tomem para si o país que tão gentilmente os acolheu.
Os problemas não são nem os Mohamed, nem os Trump, nem os Netanyahu, e muito menos os deslocados, os refugiados ou os migrantes, seja qual for a maneira correta de chamá-los. O problema são aqueles que permitiram que isso chegasse a este ponto e que não pensaram antes nas consequências de não impedir os motores de expulsão, que foram as guerras promovidas na África e na Ásia para impedir o estabelecimento de uma ideologia ou de uma religião diferente da dominante, ou fundamentalmente para saquear, à vontade, seus recursos naturais. Fenômeno que fez com que milhões de camponeses perdessem suas terras e milhões de pastores seus animais, desde o Sudeste Asiático até muito além do Sahel, sem que percebam que a miragem de chegar à Europa acolhedora já não existe.
A Europa burguesa, aterrorizada pelas gigantescas ondas migratórias que começaram a chegar a partir de 2012, das quais quase 60 mil já pagaram tributo no Mediterrâneo, decidiu mudar-se para as décadas de 1930 e 1940 do século passado e voltará a hastear as velhas bandeiras adornadas com belas e refinadas suásticas e fasces, para voltar a enviar aos fornos crematórios qualquer pessoa diferente. Convenhamos: Brecht estava certo, aconteceu de novo.
Os três cavaleiros do apocalipse
Parece que, em Bruxelas, ignoram as guerras, a miséria e as mudanças climáticas, porque ninguém procura outra solução além de se fechar em si mesmo, sabendo que suas defesas não são invulneráveis. A pergunta é se, em algum gabinete da OTAN ou da União Europeia, calculam quantas ondas migratórias poderão resistir as cercas eletrificadas de arame farpado e milhões de euros quando, finalmente, aquele deserto que avança à velocidade do vento terminar de cobri-las e atravessá-las, impulsionado pelas guerras, pela miséria e pelas mudanças climáticas que ninguém parece registrar, embora estejam acontecendo neste exato momento.
Tomemos apenas alguns, muito poucos exemplos que, embora poucos, representam centenas de milhões de almas. O que acreditará Bruxelas que farão os 14 milhões de deslocados internos e os três milhões que já estavam fora do país, gerados pelos três anos de guerra civil no Sudão, cuja população é quase a mesma da Espanha? Se essa guerra algum dia terminar, para onde voltarão? Porque o país está literalmente devastado, e colocá-lo novamente em funcionamento pode exigir muitas décadas e uma quantidade incalculável de recursos, dos quais, obviamente, ninguém dispõe.
Para onde irão os milhões de habitantes do Sahel se a guerra impulsionada por Washington, Paris e Kiev terminar com a vitória dos terroristas, que terão o prazer de fundar um Afeganistão no coração da África? Ou os 20 milhões de somalis que esses três cavaleiros do apocalipse obrigarem a fugir de seu país, que, por outro lado, sabemos que há décadas deixou de existir?
E nem sequer falemos da Ásia, onde já se cogita uma nova guerra contra o governo dos talibãs: outros 37 milhões de almas novamente em conflito, pelos mesmos que assolam a África.
O que faremos com os quase 180 milhões de bengaleses quando, entre as monções, as mudanças climáticas e a corrupção, seu país terminar de se desintegrar sobre o Golfo de Bengala? E nem falar de Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia; se pudesse realizar o mais íntimo de seus sonhos, esvaziaria seu país de muçulmanos — algo em torno de 220 milhões de pessoas.
Serão suficientes as cercas e os subornos, ou será colocada em prática uma solução final que resolva, de uma vez por todas, de forma prática e contundente, o problema dos pobres?
Gaza, sem dúvida, foi um campo de testes para que coisas semelhantes possam ocorrer em diferentes lugares onde o número de desamparados ultrapasse os níveis tolerados pelo Ocidente, que já não tolera ninguém. Enquanto isso, também na América Latina, os Milei, os Fujimori, os de la Espriella, os Noboa e os Kast preparam milhões dos seus para que, finalmente, algum dia, todos sejamos marroquinos.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional
















































