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História das Três Internacionais

"Afeganistão entre o Islã e o Pentágono"

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  • há 11 minutos
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Mal se conhecia a entrada vitoriosa do talibã em Cabul, em 15 de agosto de 2021, após a guerra contra os Estados Unidos, ao lado de uma gigantesca coalizão que invadiu seu país em dezembro de 2001, Ahmed Massoud, operador político muito próximo às forças de ocupação, anunciou que estava preparado para resistir ao futuro governo dos mulás, após sua aliança com o ex-vice-presidente e chefe da Direção Nacional de Segurança (DNS), Amrullah Saleh, o que muitos interpretaram como uma cabeça de praia que Washington preparava para o momento de seu possível retorno.

 

Massoud, com a criação da Frente de Resistência Nacional (FRN), à qual em 2022 se somou à Frente de Liberdade do Afeganistão (FLA), refugiou-se nas alturas do Panjshir, a pouco mais de cem quilômetros ao norte de Cabul, levando consigo armamento pertencente ao derrotado exército regular afegão, junto a ex-membros das Forças Especiais Afegãs, na expectativa de contar com a colaboração dos Estados Unidos e do Paquistão para iniciar sua ofensiva — o que, cinco anos depois, chega a conta-gotas, motivo pelo qual sua atividade tem sido praticamente nula. Isso porque ao Pentágono só interessa manter aquela cabeça de praia, enquanto se mantinha a esperança de que as diferenças cada vez mais notórias no interior do governo do Emirado Islâmico do Afeganistão se transformassem em uma cisma. Os embates, que por ora são apenas teóricos, ocorrem entre Cabul e Kandahar. Cabul é onde reside o poder político e se administra o Estado. Kandahar, por sua vez, é uma cidade santa do talibã. Ali reside o líder supremo da nação, o mulá Haibatullah Akhundzada, e é a sede do poder religioso.

 

Embora hoje o epicentro da crise de governabilidade do Afeganistão se jogue muito mais longe do eixo Cabul-Kandahar e até mesmo do Panjshir, na remota província de Badakhshan, extraordinariamente rica em minerais como ouro e lápis-lazúli, entre outros. Que, além de compartilhar fronteira com o Tajiquistão, também compartilha a mesma cultura e a mesma etnia, o que, nessa região do mundo, como já vimos tantas vezes, não é um detalhe qualquer.

 

Aproveitando que se encontra a cerca de 700 quilômetros a nordeste da capital, e a aspereza de sua geografia, os rebeldes têm obrigado as forças centrais a uma intensa atividade militar na província, que provocou o fechamento de rotas, o deslocamento de tropas e combates que já deixaram várias dezenas de mortos, além do surgimento de uma força de cerca de três mil homens, que se enfileiraram atrás de Juma Khan Fateh, um ex-comandante talibã de origem tajique, que, após se envolver na exploração ilegal de ouro, se recusou a se submeter às rígidas ordenanças do núcleo governamental Cabul-Kandahar.

 

Depois que, durante anos, a exploração dessas jazidas esteve nas mãos de cartéis locais e senhores da guerra, que se beneficiaram do desgoverno norte-americano, com a chegada dos talibãs tenta-se centralizar o controle dessa produção, que pode ser essencial para sair da profunda crise econômica em que estão envolvidos. Algo muito semelhante ao que ocorreu após a proibição do cultivo de papoula e da produção de ópio, que por décadas foi a principal fonte de receita do país.

 

Embora agora algumas versões apontem que se reativou a possibilidade de o grupo de Ahmed Massoud começar a ganhar maior fôlego, já que o herdeiro de Ahmad Shah Massoud — o mais notório dos colaboracionistas pró-ocidentais na guerra antissoviética afegã (1979-1992), que se acredita ter sido sacrificado pela CIA em seu próprio covil, em Khwaja Bahauddin, na província de Takhar, por um comando da al-Qaeda, enquanto travava uma guerra pelo controle do país, em previsão do que viria apenas dois dias depois: os ataques às Torres de New York.

 

Segundo novos dados, parece que a capacidade da Frente de Resistência Nacional (FRN) poderia estar “enormemente reforçada” com o apoio de Washington e Islamabad. Isso se deve ao fato de que ambos continuam interessados nos recursos minerais e até petrolíferos que se acredita o país possuir, assim como em sua localização geográfica estratégica. Enquanto Washington teme que o Afeganistão possa “cair” sob o controle da China, os paquistaneses eliminariam dois problemas referentes à sua própria segurança: acabar com a sociedade dos mulás e com a milícia insurgente Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP). Segundo se acredita, esta utiliza o Afeganistão como quartel-general, com o consentimento dos próprios mulás, para atacar alvos paquistaneses. Outro tanto estaria fazendo o Exército de Libertação do Baluchistão, junto a outras organizações irmãs que buscam se independizar de Islamabad. Razão pela qual, desde o final de fevereiro, Islamabad está tecnicamente em guerra contra o talibã, ainda que se mantenha em um sustentado cessar-fogo. Além disso, com a queda do emirado, seria interrompida a assistência da Índia às organizações insurgentes que operam contra seu arqui-inimigo paquistanês.

 

Novos ânimos para uma ideia velha

 

Além de Cabul também ter de enfrentar as ações do minguante Wilāyat Daesh-Khorasan — outro dos dispositivos armados pela CIA quando, já a quase quinze anos da invasão, começava a vislumbrar-se a impossibilidade de derrotar os talibãs —, a CIA criou, com remanescentes de mercenários retirados da Síria, uma vertente ainda mais ultra, para dividir a unidade monolítica dos mujahideens do mulá Omar, que a essa altura já estava morto havia um ano, sem que ninguém, fora da Rahbari Shura (Conselho de Liderança), o soubesse.

 

Agora, diferentes fontes norte-americanas começam a fazer menções ao potencial bélico e político da Frente de Resistência Nacional (FRN), que, finalmente, depois de cinco anos de silêncio, teria adquirido capacidade para lançar uma contra-insurgência eficaz anti-talibã. Segundo essas mesmas fontes, Ahmed Massoud, “diferentemente de seu pai, conseguiu se apresentar como uma figura unificadora para os afegãos que se opõem ao governo dos mulás, tanto dentro quanto fora do país”.

 

Essas mesmas publicações catapultaram o jovem Massoud como o líder de fato da resistência, sem mais méritos que a bênção do Departamento de Estado, que considera que, com o enfraquecimento da unidade do Emirado, somado à situação econômica e à difícil construção de alianças com outras nações, o governo de Haibatullah Akhundzada desliza rumo a um fim cada vez mais próximo.

 

Fim que, antes de se concretizar, teria de submeter o país a uma nova guerra civil que, por mais curta que possa ser, sem dúvida seria de altíssima intensidade, porque desta vez sim os talibãs estariam se afastando para sempre da concretização de um emirado — razão pela qual estão em guerra desde sua fundação em 1994.

 

Alguns analistas considerarão que o relaxamento de suas posições mais vanguardistas, uma vez consolidada a vitória e passados cinco anos de tê-la conseguido, se deve a fatores como a divisão tribal e ideológica, que marca o afastamento da Rede Haqqani — um dos aliados mais poderosos que o talibã teve durante toda a invasão norte-americana —, a guerra latente com o Paquistão e a pressão internacional sobre o tratamento dado às mulheres.

 

Esse enquadramento é possivelmente o que o Pentágono está utilizando para ativar agora, sim, de maneira definitiva, a Frente de Resistência Nacional, enquanto Donald Trump, em setembro do ano passado, havia anunciado sua vontade de retomar a base aérea de Bagram, a maior das que os Estados Unidos tiveram durante sua invasão. Agora, com muito mais razão após sua vergonhosa derrota diante do Irã, algo que os talibãs não poderiam consentir sem fazer explodir em mil fragmentos suas bases mais conservadoras.

 

Por isso, para muitos, não está longe o momento em que o apoio paquistanês e dos estadunidenses comece a fluir em profusão, como tantas vezes desde 1979, agora em direção à Frente de Resistência Nacional. Colocando mais uma vez o povo afegão diante do dilema de escolher entre o islã ou o Pentágono.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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