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"Afeganistão-Paquistão: a guerra sem tempo"

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  • há 4 minutos
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Durante a noite de domingo, 28 de junho, o Paquistão realizou novas operações aéreas sobre posições, supostamente, terroristas localizadas nas províncias afegãs de Paktia, Paktika e Kunar, seguidas de ações terrestres nas quais morreram pelo menos 29 milicianos, deixando ainda cerca de 200 feridos. Nos relatórios oficiais não são mencionadas baixas civis, embora algumas fontes não confirmadas indiquem que o número de menores mortos nesses últimos ataques chegaria a 115.

 

O ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, declarou que os ataques foram em resposta às múltiplas ações do grupo terrorista Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP). Esse grupo é denominado oficialmente Fitna al-Khwarij (revolução, guerra civil ou golpe de Estado) por Islamabad. Realiza em seu território ações que, uma vez concretizadas, como já vimos em muitíssimas oportunidades, retornam ao território afegão, que utilizam como santuário, onde além disso possuem acampamento, hospitais, centros de treinamento, o que é tolerado pelo governo dos aiatolás, e que, segundo a inteligência paquistanesa, a Direção de Inteligência Inter-Serviços (ISI), recebe amplo financiamento da Índia, assim como os grupos separatistas do Baluchistão.

 

As faíscas entre as duas nações, que tiveram relações cordiais em diferentes momentos de sua longa história em comum, começaram a ocorrer após a entrada vitoriosa do Talibã em Cabul, em agosto de 2021. Desde então têm sido numerosíssimos os atritos fronteiriços; inclusive no ano passado a força aérea paquistanesa chegou a bombardear Cabul e outras cidades distantes da fronteira, em outubro do ano passado.

 

A crise, desde aquele momento, continuou escalando até que, no dia 21 de fevereiro passado, o governo do primeiro-ministro Shehbaz Sharif decide pela Operação Ghazab Lil-Haq (Fúria pela justiça). Esta é a ofensiva militar de grande escala que o Paquistão lança contra o Afeganistão em resposta à crescente onda terrorista transfronteiriça. Após isso, Islamabad anunciou uma “guerra aberta” contra posições do TTP, incluindo alvos das forças armadas do Afeganistão, diante da suspeita de seu envolvimento com os terroristas, do qual até a Índia teria participação. O que Nova Delhi negou em cada oportunidade, obviamente. Ver: Índia, uma longa ponte até Cabul.

 

Aquela “Guerra Aberta” foi literalmente afogada pela que os Estados Unidos e Israel iniciaram contra o Irã uma semana depois.

 

Graças à intervenção do Catar e da Turquia, alcançou-se um cessar-fogo que, com suas nuances, perdurou até a noite de domingo, 28 de junho, quando o Paquistão decidiu rompê-lo, abrindo, conforme se depreende do comunicado da chancelaria afegã, onde se diz que: “No devido tempo haverá represálias”. Por isso, as hostilidades entre Cabul e Islamabad devem ser retomadas mais cedo do que tarde.

 

Embora a manhã de segunda-feira tenha amanhecido calma ao longo dos 2.600 quilômetros da Linha Durand, como é conhecida a fronteira entre as duas nações, as forças de segurança de ambas se encontram em estado de máximo alerta.

 

Tanto o Afeganistão quanto o Paquistão já convocaram seus respectivos diplomatas para iniciar os protestos de praxe; é pouco provável que se alcance um novo “acordo” sem que os afegãos cobrem a cota de sangue correspondente.

 

É certo que, à medida que as águas se acalmaram após o cessar-fogo da “Guerra Aberta”, a violência terrorista proveniente das montanhas de Khyber Pakhtunkhwa voltou a se infiltrar para o interior do país. E prova disso é o ataque de 27 de junho contra o quartel provincial da força paramilitar Sindh Rangers, na cidade de Karachi, a mais populosa do país, capital da província sulista de Sindh, principal porto e que tem a honra de ter sido a primeira capital da nação após a partição da Índia em 1947.

 

Ali, um militante shahid (mártir) lançou o veículo que dirigia, carregado de explosivos, contra o acesso principal do complexo paramilitar, o que se seguiu de intenso tiroteio, depois de aberta uma brecha por onde tentou se infiltrar, rumo ao interior da base, um grupo de homens armados com fuzis automáticos e granadas, desencadeando um intenso confronto que se prolongou por pelo menos uma hora e meia, deixando três Rangers mortos, múltiplos feridos e a morte da maioria dos atacantes, enquanto um dos militantes foi detido com vida, aparentemente de nacionalidade afegã. Uma tática clássica do Tehrik-e Taliban Pakistan, embora se tenha sabido mais tarde que o ataque foi reivindicado pelo grupo Jamaat-ul-Ahrar (A assembleia dos Livres), cujo principal líder foi neutralizado no dia seguinte em uma operação do Exército na província de Khyber Pakhtunkhwa.

 

Esse grupo, dissidente do TTP desde 2014, e que, apesar de ter realizado bay'at (juramento de lealdade) ao Daesh, o grupo fundado por Abu Bakr al-Baghdadi em 2014, nunca teria sido reconhecido como filial, talvez por colidir com a franquia estrela do Estado Islâmico na região, o Daesh-Khorasan, inimigo jurado, ao menos na superfície, dos talibãs e de tudo o que tenha relação com eles, incluindo, obviamente, a al-Qaeda.

Para além de sua efetividade, o ataque tem uma forte carga simbólica, já que Karachi, além de ser a capital financeira do país, é a mais populosa, com mais de 20 milhões de pessoas, e se encontrava fora do principal eixo de violência do país, que se concentrava nas regiões tribais do noroeste.

 

Tensões internas entre os mulás

Após a retirada norte-americana, depois de 20 anos de ocupação que deixaram cerca de um milhão de mortos, todos afegãos, obviamente, o país entrou em um estado de equilíbrio quase desconhecido, além de alguns ataques e atentados do Daesh-Khorasan, e dos protestos de camponeses pela fatwa (decreto) de 2022, com a qual o mulá Haibatullah Akhundzada, o emir do Talibã e a máxima autoridade política e espiritual do país, proibiu o cultivo de papoula, a produção, comercialização e até mesmo o consumo do ópio e seus derivados, sob pena de chicotadas e longas penas de prisão, motivo pelo qual, no ano seguinte, a produção caiu 95%. Apesar de que, por décadas, foi a maior fonte de receita do país e a que financiou, quase com exclusividade, a guerra contra o invasor norte-americano.

 

Essa proibição gerou uma estagnação econômica e o aumento das taxas de pobreza, afetando o atendimento médico, cuja deterioração se acentuou com a interrupção da ajuda internacional, deixando marcas cada vez mais profundas na saúde dos 37 milhões de afegãos. Enquanto isso, os investimentos, particularmente da China, começaram a chegar a conta-gotas.

 

Essa realidade será muito difícil de modificar, já que o Afeganistão ficou marcado como nenhuma outra nação, à exceção do Irã, com o estigma de patrocinador do terrorismo, enquanto os verdadeiros financiadores globais dessas organizações, como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Catar, junto com Israel e os próprios Estados Unidos, se permitem apontar os “culpados” pelo terror.

 

Além das reiteradas acusações contra Cabul de permitir que khatibas da al-Qaeda tenham presença ativa no país. Embora sim, quanto ao Daesh-Khorasan, de que várias centenas de seus combatentes tenham sido transportados da Síria em helicópteros norte-americanos até o norte afegão, há mais de 10 anos, para se tornarem o pesadelo dos talibãs. Desde a vitória dos mulás, atacou em Cabul em diversas oportunidades; chegou até a atentar contra altos dirigentes do governo, bases talibãs, comboios, gerando mais um foco de instabilidade para o país, que não consegue deixar a violência para trás.

 

Assim, Washington como um todo continua desconfiando de que, em cada aldeia do país, em cada bairro das periferias de Cabul, Kandahar ou qualquer outra cidade afegã, entre as ruínas que meio século de guerra contínua deixou, a cada dia continuam nascendo novos mujahideens, para uma guerra que parece marcada pelo destino para que seja sempre o seu tempo.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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