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"Quem chora pelo Congo?"



Com a reação exagerada de quem não sente pena de nada, no Ocidente cidadãos, figuras estelares, figuras proeminentes, referências morais e políticas irrepreensíveis – como Boris Johnson – que nunca teriam sido capazes de apontar a Ucrânia em um mapa-múndi, por há pouco mais de três meses choram, quantas vezes podem, a cada um dos mortos que estão sendo deixados pela contra-ofensiva que a Rússia está desenvolvendo diante da agressão da OTAN em território ucraniano.


Gritos e biscoitos de gengibre que não foram gastos pelos milhares de mortos em Donetsk e Lugansk. Agora é a hora de chorar pelos mortos em Moscou, não importa se são mercenários ou nazistas nativos, encurralados como ratos nos porões da siderúrgica Azovstal em Mariupol, que acabaram exterminados ou enjaulados. Por isso a questão é chorar, chorar o máximo possível, gritar, chutar, se desesperar, na frente de qualquer câmera de televisão, não vai ser algo que Putin não fique sabendo.


Os mortos na República Democrática do Congo (RDC) não sofrem o mesmo destino que em um número infinitamente maior e, se não é culpa deles, são mortos diariamente há décadas nas profundezas de sua selvas tragicamente ricas com enormes reservas minerais, entre outros o vital coltan para celulares e baterias de carros elétricos, sem que ninguém os conte ou se interesse, talvez por serem simplesmente negros, pobres ou como nos ensinou o bom Leopoldo II, rei da Bélgica que explorou vinte (20) milhões desses “negros” para vestir as prostitutas mais conspícuas da Europa do século XIX com peles e ouro, não vale a pena se preocupar com eles.


Na mesma linha de Leopoldo, o Ocidente segue, apesar do fato de o rei gordo estar fritando no inferno por mais de um século, se felizmente esse local divino existisse.


Um novo massacre acaba de ser registrado no sábado, 28 de maio, na província de Kivu, de norte a leste do país, no qual morreram pelo menos 27 pessoas. Essa província tornou-se o epicentro das operações do grupo Forças Democráticas Aliadas (ADF), onde também operam cerca de uma centena de organizações armadas cujas diferenças com as do crime organizado são extremamente sutis.


Fundado em Uganda na década de 90 e formado por muçulmanos com o apoio do Governo do Sudão e dos Emirados Árabes Unidos (EAU), que enviam seu apoio por meio de uma fundação islâmica sediada na África do Sul, além de se financiarem com o tráfico de ouro e madeiras preciosas, as ADF atuaram desde o início indistintamente em ambos os lados da fronteira, embora durante anos os ataques em seu país tenham sido muito mais esporádicos enquanto estão cada vez mais ativos no país, apesar de, como no região e no resto do país, o Islã é uma minoria em comparação com a esmagadora maioria cristã que excede 98%. A ADF na época de sua fundação, na década de 90, parecia adotar características de uma guerrilha política até converter-se em franquia do Daesh, tanto no Congo quanto em Uganda, após a cisão entre o ex-emir Jamil Mukulu, preso na Tanzânia em 2015, e seu atual líder, o ugandês Musa Baluku, que faria o Willat (juramento de lealdade) ao Califado.


Durante o governo de Laurent Kabila, a insurgência foi fortemente reprimida, e particularmente a ADF, que causou mais de duas mil baixas, reduzindo seus homens a cerca de 500 refugiados nas montanhas Rwenzori, na fronteira uganda-congolesa. Após a morte de Kabila em 2001, a insurgência recuperou sua força e desde então o leste da República Democrática do Congo tornou-se gradualmente uma área de alta instabilidade. Em 2002, o então Ministro de Assuntos Internos de Uganda denunciou no Parlamento que a ADF tinha ligações com a Al-Qaeda, que havia ajudado a estabelecer campos de treinamento no leste do país. Mais tarde, eles foram ligados ao grupo somali al-Shabaab, devido à sua proximidade com a al-Qaeda, embora depois de se tornar um tributário do Daesh, a aliança com os somalis, que permaneceram fiéis à al-Qaeda, teve que ser desativada.


As ADF concentraram suas ações na região de Beni no Kivu do Norte, que se estende desde as alturas de Rwenzori até a província de Ituri, na fronteira com Uganda e Sudão do Sul.


Desde 2014, quando vivenciaram sua transição para o fundamentalismo religioso mais extremo, até hoje, foram responsáveis ​​por cerca de 7 mil mortes, entre militares e civis. Muitos deles, depois de presos, são decapitados e seus corpos deixados, ainda mantidos por trás, nas principais estradas e caminhos como um alerta para aqueles que ainda têm dúvidas sobre para que servem esses mujahideens.


Fronteiras como único recurso


A crescente volatilidade no leste forçou o presidente, Félix Tshisekedi, a estabelecer um estado de sítio em Ituri e Kivu do Norte em maio de 2021, onde as autoridades civis foram substituídas pelos militares, que também receberam poderes excepcionais. Um ano após a declaração do estado de sítio, a violência não diminuiu mesmo sob a pressão estabelecida pelas operações conjuntas do exército ugandês e das FARDC (Forças Armadas da República Democrática do Congo).


A RDC conta ainda com a assistência de cerca de 15 mil homens da Missão de Paz da ONU (MONUSCO) destinados principalmente ao combate ao Movimento 23 (M23), outra das grandes organizações terroristas que existem no país, embora a ADF, hoje a mais poderosa organização das 120 que operam na região, aumentaram seu número sequestrando e recrutando crianças, obrigando-as a matar prisioneiros para fortalecê-los. O mesmo vale para mulheres cativas, que são forçadas a se converter ao Islã, aprender árabe, casar com militantes e matar outras mulheres e crianças.


A magnitude do uso do estupro de mulheres como outra arma de guerra, amplamente utilizada no conflito da República Democrática do Congo, levou o ginecologista e pastor pentecostal Denis Mukwege a realizar um estudo aprofundado sobre o tema, pelo qual foi distinguido com o Prêmio Nobel da Paz em 2018.


Uma das principais razões pelas quais as operações militares não estão avançando na região é que as tropas regulares estão menos bem armadas do que os homens da ADF e também, devido aos seus baixos salários, tendem a aceitar subornos de terroristas fornecendo informações essenciais, entregando guarnições e armas e evitando o combate.


O fracasso dos militares na luta contra os terroristas obrigou muitas comunidades da região a se armarem e formar milícias de autodefesa como os Mai-Mai, organizados por ex-soldados, chefes tribais e de aldeias, que foram fundados em misteriosos ritos animistas pelo qual seus homens estão convencidos de que são imunes às balas inimigas. Estes grupos espalharam-se por muitas províncias do país e, na prática, dada a sua autonomia em relação ao governo central, são mais uma força na complexa crise de segurança na República Democrática do Congo.


Como resultado, a guerra no leste do Congo obriga constantemente milhares de cidadãos a abandonar tudo, principalmente suas pequenas fazendas, para fugir para Uganda, onde outras ondas de violência já forçaram quase dois milhões deles a se refugiarem no país vizinho, enquanto nesta nova situação, desde março, cerca de 500 congoleses foram registrados por dia que optam por fugir para Uganda. A maioria deles está concentrada em centros de detenção, na tentativa de esclarecer sua situação e assim impedir a entrada de militantes e dar tempo de esperar que a situação em seu país se normalize e possam retornar sem muita esperança de encontrar a paz definitiva.


Por Guadi Calvo, no Línea Internacional