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"Sobre a 'A Filosofia da Vida' de Oswald Spengler"


No desenvolvimento das técnicas contemporâneas são refletidas as mais profundas contradições de classe da época do imperialismo e da revolução proletária. A história mundial tem conhecido muitos exemplos de retrocesso, de declínio dos velhos e gastos sistemas econômicos e culturas. Tem conhecido também muitos exemplos de nascentes e prósperos novos sistemas econômicos e novas relações de produção. Mas não conheceu exemplos tão notáveis de declínio do velho e ascensão do novo como estamos testemunhando hoje.

Eletrificação em justaposição com o “plano picareta e pá.” Magnitogorsk e Kuznetsk em justaposição com alto-fornos fechados e se fechando na indústria capitalista. A grandiosa ascensão das forças produtivas na União Soviética e o eterno aprofundamento da crise nos países capitalistas. De fato, a boa e velha história nunca teceu um pano de contrastes tão coloridos.

O desenvolvimento das técnicas contemporâneas é um aparato de medição sensível indicando a pressão da Revolução na caldeira a vapor da luta de classes. Muitos confundem o aparato de medição com a caldeira a vapor, como os tolos que confundem o barômetro com a tempestade.

As técnicas hoje em dia se tornaram um dos mais importantes índices da Revolução. Todo fenômeno novo da decadência técnica nos países capitalistas e toda nova perfeição técnica na União Soviética são vitórias significantes para a Revolução Proletária. Por esta razão nós prosseguimos com a mais severa atenção à cruzada anti-técnica que está se espalhando em todos os países capitalistas junto com o desenvolvimento da crise econômica mundial.

A expressão mais significante contra o progresso técnico é o livro de Oswald Spengler, O Homem e a Técnica. Spengler não é o único que se opõe à máquina. Uma galáxia inteira de escritores e cientistas burgueses ultimamente têm emergido articulando a consciência antitécnica das massas pequeno burguesas e da nobreza capitalista, ideólogos de “combate-à-máquina.” Nos Estados Unidos, Stuart Chase aproveita a popularidade de Spengler, apesar do tratamento deste tão complexo tema para as mentes burguesas e seus ideólogos é reconhecidamente trabalhado com uma habilidade bem maior por Spengler. Spengler é um “filósofo.” Ele sintetiza fatos – à seu proprio modo é claro. Seu livro traz o subtítulo, Uma Contribuição para a Filosofia da Vida. Por efeito, não é nada além da filosofia da morte do capitalismo – o que faz o livro de Spengler ser extremamente valioso. É um daqueles documentos preciosos da era a qual dizem que se não existisse teria de ser inventada.

A filosofia de Spengler não é complicada. No capítulo, Herbívoros e Aves de Rapina, Spengler expõe sua Weltanschauung [1] a seguir: “O homem é uma fera de rapina. Pensadores perspicazes, como Montaigne e Nietzche, sempre souberam disso. ... Esperteza no sentido humano, esperteza perspicaz, pertence apenas às feras de rapina. Os herbívoros são por comparação estúpidos.”

Nos dias de Wilhelm II, Tenente Prussiano e “Almirante do Atlântico”, as classes dominantes da Alemanha eram alimentadas por esta “sabedoria” Nietzschiana. O imperialismo alemão pré-guerra, com a sombra de Sedan, com um grande programa naval e os exercícios militares prussianos, com uma indústria crescente de metalurgia, carvão, química e eletrotécnica, foi verdadeiramente longe de ser anêmica. A teoria do “Super Homem”, a teoria do homem como uma fera de rapina correndo atrás da canhoneira “Pantera” ou atrás das forças expedicionárias para a China, estava aumentando a fama do império do Kaiser. Mas louvar a teoria do super homem hoje, a teoria do direito do forte de roubar, quando a burguesia alemã está estirada de baixo da mesa da sala de conferência da Liga das Nações, é, para dizer o mínimo, um absurdo do ponto de vista das suas próprias classes dominantes.

Como, então, pode se explicar o Nietzcheanismo de Spengler? Primeiro, pela constante agudização da luta de classes na Alemanha e a procura da burguesia por “mãos fortes” dos fascistas para suprimir o crescente movimento revolucionário do proletariado. Segundo, Spengler precisa do “Super Homem” para racionalizar sobre a destruição de sua classe. Aparentemente a atmosfera do trabalho coletivo e da tecnologia é sufocante para a alma aristocrática da fera de rapina. O “Super Homem” já não aguenta mais o cheiro de óleo hidráulico. Stuart Chase reclama amargamente que a máquina, que o homem concebeu e cuidou com tanto carinho, se espalhou e multiplicou de acordo com suas próprias leis, e que a criatura humana de repente despertou para se encontrar “cercado e dominado por uma nova raça de feras selvagens e perigosas.” Chase coloca isso sem rodeios. Com Spengler a mesma ideia é envolvida com um bordado filosófico sobre o “Super Homem” e analogias históricas duvidosas a respeito da destruição de Roma e antigas culturas.

“O objetivo da humanidade”, escreve Spengler, “é libertar todo o indivíduo de uma grande parte do trabalho que pode ser feito pela máquina. Mas a liberdade dos ‘escravos assalariados’ da ‘pobreza’, igualdade em conforto e luxo, igualdade no ‘gozo da arte’, é um grito por ‘Pão e Circo.’”

Da pele do super homem sai o típico capitalista furioso. Os ideólogos da classe do ócio, dos rentistas hedonistas, e da nobreza capitalista, não podem nem ao menos permitir a ideia de que os “escravos assalariados” devem usar máquinas para fazer seu trabalho, para que eles vivam confortavelmente e aproveitem os refinamentos da arte. Isso tem muito gosto de Revolução e ditadura do proletariado. Por isso Spengler proclama o declínio do ocidente, o declínio da civilização. Se Roma pereceu junto com seus escravos, a Europa, também, perecerá com suas técnicas e “escravos assalariados.” Somente as classes dominantes, aparentemente, tem direito à vida e ao gozo da arte. Sem elas a vida e a civilização devem perecer.

As classes dominantes têm muito ciúme da sua vida e cultura. Elas imitam as tribos anciãs cujo o costume era de enterrar o chefe com seu cavalo e esposa.

“O último instrumento, o violino de Stradivarius, perecerá no fim das contas. Todo o mundo encantado de nossas sonatas, trios, sinfonias, arias será esquecido.”

Há não muito tempo, durante uma sessão plenária da Comissão Executiva da Juventude Comunista em Kharkov, quando a questão das exigências culturais maiores dos trabalhadores foi trazida à discussão, os líderes trovejaram suas demandas da plataforma: “Música de Chopin no clube dos trabalhadores!” “Os trabalhadores jovens e velhos hoje em dia estão interessados na música de Liszt, Beethoven e Chopin.”

Hoje, quando os Spenglers estão prontos para enterrar a cultura humana, o mestre de nosso grandioso país, o antigo “escravo assalariado” que já está fazendo a máquina trabalhar para si e que o próprio só trabalha 7 horas por dia, aprecia a música de Chopin, Liszt e Beethoven.

A Nona Sinfonia finalmente encontrou uma audiência merecedora. Seu timbre completo, no entanto, será ouvido somente quando todos os exploradores forem varridos da face da terra. O violino de Stradivarius não perecerá.

“Na realidade, no entanto, está fora do poder, quer das cabeças, quer das mãos, alterar de alguma forma o destino da máquina-técnica, pois isso se desenvolveu a partir de necessidades espirituais internas e agora está correspondentemente amadurecendo para seu cumprimento e fim. Hoje nós estamos no ápice, no ponto quando o quinto ato está começando. As últimas decisões estão acontecendo, a tragédia está se fechando.”

Ainda assim houve um tempo, no início do capitalismo, quando a burguesia pensava que iria sentar-se na espinha da história para sempre. Então a burguesia estava a frente da revolução industrial e usava técnicas para fortalecer sua dominação de classe. Mais que isso, rotulava todos os oponentes do uso capitalista das máquinas como inimigos do progresso técnico e social.

Spengler, o ingrato descendente, lamenta as conquistas de seus ancestrais. “O senhor do mundo está se tornando escravo da máquina. ... O vencedor, caído, é arrastado para a morte pelo time. ... O pensamento Faustiano começa a ficar enjoado das máquinas.”

De acordo com Spengler, o espírito Faustiano representa uma época inteira em que na sua opinião é o hoje no seu declínio. Mas o que Spengler apresenta é uma bagunça de fatos históricos desordenados que começa com “A dinâmica Galiléia, a dogmática Católica e Protestante, as grandes dinastias do Barroco, o destino de Lear, a Madonna-ideal” e termina com “a última linhagem de Fausto II.”

No fim de Fausto II, Goethe levanta as extremidades da cortina da história para revelar o sonho do capitalismo em botão. O Fausto de Goethe finalmente se encontra em um empreendimento técnico gigantesco, na construção de uma represa. Antes de sua morte, já cego, Fausto comunica à Mefistófeles com a emoção de exultação em sua voz.

“Como eu regojizo, ao ouvir o tinir das pás!

É a multidão, por mim em serviço labutando

Até que a terra seja reconciliada com o trabalho

Até as orgulhosas ondas se acalmarem

E o mar cingido com uma zona rápida.”

Fausto regojizou ao ouvir o tinir das pás (não haviam escavadoras na época de Goethe!), enquanto o odor de óleo hidráulico leva Spengler à loucura, e ele profetiza que as técnicas vão perecer com a alma Faustiana.

Confrontado com o perigo de uma revolução iminente na Europa ocidental, Spengler profetiza o fim das técnicas das máquinas. Ele identifica o fim de sua classe com o fim da cultura humana. Os confrades de sua classe, os Ramsins, estavam destruindo máquinas no país da ditadura do proletariado. A burguesia não quer deixar legado algum para o proletariado. Empurrada do palco da história, quer levá-lo com “sua” propriedade. O capitalismo sempre foi ganancioso. O espírito de Shylock o seguiu até sua tumba. No Estado proletário os Ramsins se tornaram destruidores de máquinas e sabotadores. Quando a revolução está zarpando os Spanglers pregam o declínio das técnicas e criam uma atitude hostil para com o progresso técnico. Derrotismo na arte e na ciência da engenharia, o Spanglerismo e o movimento antimáquina são todas variantes da reação capitalista e intolerância de classe.

A curva histórica do capitalismo completou seu ciclo – dos líderes da revolução industrial, a represa Faustiana, decaindo até Spengler e Ramsin. Nesse ponto uma nova linha a corta, a linha da revolução proletária. Essa linha se move numa direção oposta. Quando Fausto estava construindo sua represa os primeiros proletários estavam quebrando e destruindo as máquinas dos mestres capitalistas. O começo da revolução industrial foi acompanhada por um movimento militante de destruidores de máquinas, os Ludistas. O começo da reconstrução socialista na União Soviética foi acompanhada por uma onda de sabotagens pelos engenheiros burgueses. Enquanto Goethe estava escrevendo a segunda parte de Fausto, Byron escreveu sua “Canção para os Ludistas.”

Enquanto a Liberdade repousa sobre o mar

Compraram sua liberdade, e barata, com sangue,

Então nós, meninos, nós

Morreremos lutando, ou vivemos livres.

E abaixo com todos os reis menos o Rei Ludd!

Quando a teia que tecemos estiver completa,

E o transporte trocado pela espada,

Nós arremessaremos a mortalha

Sobre o déspota aos nossos pés

E tingí-lo-emos profundamente nos coágulos que ele derramou.

Embora negro como seu coração sua matiz,

Desde que suas veias estão corrompidas pela lama,

Ainda assim este é o orvalho

Que a árvore renovará

Da Liberdade, plantada por Ludd!

Os operários Ludistas ainda não podiam distinguir entre o uso capitalista das máquinas e o socialista, nem vagamente entender as leis gerais do desenvolvimento histórico. A classe operária logo aprendeu a origem de classe das técnicas e o uso de classe das máquinas. O movimento revolucionário do proletariado direcionou seus ataques contra o uso capitalista das máquinas e não contra as próprias máquinas.

Quando a Revolução Proletária foi realizada e os operários se tornaram os mestres da máquina, o sonho dos Luditas, (“quando a teia que tecemos estiver completa”) foi realizado, sob uma nova base social. Os descendentes dos Luditas nos dias de hoje são os udarniks[2] da construção socialista. O balancete da história revela o curso do desenvolvimento de duas classes: dos Luditas aos brigadistas de choque; de Fausto e os líderes da revolução industrial até Spengler e Ramsin, os sabotadores.

O livrinho de Spengler revela a extensão que a desintegração do capitalismo atingiu a consciência dos seus ideólogos.

“A mecanização do mundo entrou numa fase de perigoso excesso de tensão... A máquina está começando a contradizer até mesmo a prática econômica de várias maneiras (até que enfim! G. V.) A máquina, por sua multiplicação e seu refinamento, está por fim derrotando seu próprio propósito. Em grandes cidades o automóvel por seus próprios números já destruiu seu próprio valor, e se anda mais rápido a pé. Na Argentina, Java, e seja qual for o lugar o simples arado a cavalo dos pequenos cultivadores se mostra economicamente superior aos grandes implementos motorizados, e está deixando o último para trás... os fortes e criativos talentos estão se voltando contra os problemas práticos e as ciências em favor da especulação pura... A tensão entre o trabalho de liderança e o trabalho de execução chegou ao nível de catástrofe... Começa o motim das Mãos contra seu destino, contra tudo e contra todos. A organização do trabalho, como existiu por milhares de anos, baseada na ideia do ‘fazer coletivo’ e a consequente divisão do trabalho entre líderes e liderados, cabeças e mãos, está sendo desintegrada de baixo para cima.... Ao fechar do último século, a cega vontade-de-poder começou a cometer seus erros decisivos. Ao invés de manter estritamente para si o conhecimento técnico que constituía sua maior posse, as pessoas ‘brancas’ complacentemente ofereceram-no para todo o mundo, em todo Hochschule[3], verbalmente e no papel.... E então, no lugar de exportar exclusivamente produtos finalizados, eles começaram uma exportação de segredos, processos, métodos, engenheiros e organizadores.”

Um notável talentoso conjuro de loucura! O penúltimo retrato da morte foi de fato escrito com uma excelente destreza.

A revolução quebra a espinha do capitalismo com todas as suas superestruturas. Não somente as técnicas capitalistas, mas também a organização do trabalho capitalista entrou num beco sem saída. O capitalismo transformou o operário e o intelectual técnico numa mera junta da máquina e a própria máquina num apêndice do livro de cheques. Mas quando