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Dimitrov: "Que Via Escolher?"


Houve uma altura em que, a maioria dos que trabalham no domínio da arte (pintores, comediógrafos, músicos, etc.), podiam considerar-se, em nome do carácter particular do seu trabalho e das perspectivas de uma brilhante carreira pessoal, como uma espécie de aristocracia do trabalho intelectual, separada do proletariado, da sua luta pela existência e do seu movimento de libertação.

Eles estavam então inclinados a considerar-se como fazendo parte da classe no poder, como seus filhos preferidos, felizes eleitos escolhidos pelo destino e não tendo nada em comum com os explorados e oprimidos da sociedade atual, não sentindo a necessidade de se organizar e de lutar para defender os seus interesses e direitos, porque tinham o direito de contar com o seu talento e com a proteção dos poderosos e dos diversos mecenas.

Imbuídos até à medula do individualismo burguês e da psicologia dos super-homens, exagerando a importância da sua superioridade intelectual, sentindo-se solidamente instalados no seu Parnaso, manifestavam muitas vezes uma atitude desdenhosa para com aqueles que vivem do trabalho físico e intelectual ordinário e agradeciam a Deus (como os antigos doutores da Lei e os faraós) por não os ter criado à imagem dos «pobres de espírito», escravos do capital.

Assim era antigamente.

Contudo, quem não vê e não sente hoje que essa época acabou irremediavelmente, destruída tanto nos outros países como no nosso?

Depois de se ter apoderado de toda a produção material, o capitalismo posou também a sua pesada mão sobre o teatro, a música, a criação artística, toda a arte. O princípio capitalista — assegurar tanto quanto possível mais lucros — exerce-se também no campo dos valores morais e espirituais.

Os trabalhadores do domínio da arte foram proletarizados, sujeitos à exploração capitalista, criando lucros. Rapidamente caíram das alturas “acolchoadas de seda” do Parnaso, para se encontrarem na miséria e na lama da dura realidade contemporânea.

A sorte dos que aparecem sobre os palcos está ligada, não apenas ao ponto, ao público, mas também à sorte das coristas e dos músicos de orquestra, do pessoal técnico e de todos os outros operários da empresa teatral capitalista. A sorte dos membros da orquestra está ligada à dos empregados que nos restaurantes servem o público. A sorte dos pintores, nos seus atelieres, ou dos de litografia e de zincogravura, numa ou noutra empresa, está ligada à do pessoal auxiliar e à dos outros operários, etc.

A sorte da “aristocracia do trabalho” de outrora e no domínio das artes, está ligada, cada vez mais e mais estreitamente, à sorte de todo o proletariado do país.

E é necessário verificar que as destruições que a grande guerra ocasionou, assim como as desastrosas consequências da crise económica profunda que esta guerra provocou, não apagam apenas, numa larga medida, a diferença que outrora existia entre a situação material e social dos pioneiros das artes e dos outros representantes do trabalho intelectual, mas vão mesmo até precipitá-los numa miséria material e social mais grave e numa instabilidade do dia de amanhã ainda maior, em relação a toda uma série de categorias de operários qualificados.

Se se tomar em consideração o facto de que aqueles que trabalham no domínio da arte, pela própria natureza do seu esforço, efetuam não só um trabalho mecânico, mas são obrigados a transmitir-lhe sentimento, coração e alma, a sublimarem-se, compreender-se-á facilmente que eles sofrem, a par das privações materiais, sofrimentos morais como o operário e o intelectual comum não conhecem.

Uma mudança profunda intervém, contudo, na situação da chamada aristocracia que trabalha no domínio das artes. Naturalmente, esta mudança exige uma subordinação do seu individualismo à necessidade vital da ação coletiva para a autodefesa geral.

A nova situação e os tempos novos exigem também novos processos, caminhos novos que mostrem imperativamente aos “eleitos pelo destino”, que anteriormente julgavam não haver nenhuma necessidade de organização e de luta, a via da organização e da luta.