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"Corumbiara: quebrar o silêncio, vinte anos depois"


Quando a corda arrebentou, o governador fez o que faria qualquer figura pública que se preze: mandou o vice ao local dos fatos e continuou em seu gabinete. Havia doze mortes confirmadas e um sem-número de informações desencontradas, mas Valdir Raupp considerou fora de cogitação deslocar-se até o Cone Sul de Rondônia, talvez por imaginar que a visita causaria danos a sua imagem. Coube a Aparício de Carvalho, psiquiatra no papel de vice, lidar com a imprensa, os políticos, os representantes de movimentos sociais e uma população em estado de choque. O episódio era o pior da história de Rondônia. Elevada de território a estado no começo da década de 1980, aquela unidade da federação estava acostumada a conflitos agrários, mas não na proporção daquele episódio, que ficaria conhecido como “massacre de Corumbiara”. O caso era inédito também para o Brasil pós-ditadura. Na metade de julho de 1995, famílias sem-terra entraram na fazenda Santa Elina, uma entre muitas terras de alta fertilidade dadas pela União a empresários de todo tipo durante o regime autoritário. Hélio Pereira de Morais, pecuarista de São Paulo, comprara a propriedade pouco antes de Ovídio Miranda de Brito, o rei do gado. Depois de muitas tensões e pressões, a PM realizou, entre a madrugada e a manhã de 9 de agosto, a operação de reintegração de posse. Ocorreu, primeiro, um conflito e, em seguida, uma chacina, com a morte de nove posseiros, dois policiais e um rapaz não identificado. Grupos dos ocupantes manteriam durante as décadas seguintes a visão de que muito mais pessoas perderam a vida no local, informação que nunca pôde ser nem desmentida, nem confirmada. Sem ter visitado a Santa Elina, Raupp lançou mão de uma das respostas-padrão mais comuns da futura Escola Geraldo Alckmin de Justificativas: presumiu a inocência dos policiais e disse que entre os sem-terra havia “atiradores de elite”. Era a mesma tese defendida no relatório que recebera no mesmo dia 10 de agosto, elaborado pelo Comando Geral da Polícia Militar: duas páginas, com 70% do espaço ocupado pela descrição de tudo o que teria sido apreendido em poder dos posseiros – armas, foices, machadinhos e pás. No único parágrafo em que descreve os fatos, o texto diz que os agentes públicos foram vítimas de emboscada, numa operação que durou aproximadamente duas horas e meia. No mesmo dia, no outro extremo do estado, Luiz Inácio Lula da Silva, mais tarde presidente, visitava o acampamento na fazenda em companhia do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, mais tarde deputado federal. Durante entrevista em Vilhena, cobrou a presença de Raupp, de quem seu partido era aliado. “O que o PT quer fazer nesse instante, antes de reavaliar a participação no governo, é exigir que o governo possa apurar toda a verdade sobre a chacina acontecida aqui em Rondônia.” Mas Raupp já havia riscado Corumbiara de