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O ocaso do "Fora Bolsonaro"



Esporadicamente nos últimos meses, as ruas de diversas cidades do Brasil, principalmente nas capitais, têm sido palco de atos contra o governo do genocida Bolsonaro. Entretanto, devemos nos perguntar: Quais os reais objetivos dessas manifestações? Elas de fato visam derrubar o governo em questão? Na prática, essas mobilizações têm servido a luta real dos trabalhadores contra a dominação, a exploração e a miséria perpetuada contra nosso povo?


Com o aprofundamento do caráter semicolonial do Brasil, ou seja, do processo de destruição, espoliação e dominação do país levado a cabo pelo imperialismo, pelas classes dominantes locais e agravado pela pandemia, a condição de vida do nosso povo trabalhador se deteriora drasticamente. A insatisfação das classes exploradas cresce, mas esse sentimento de revolta é cortado na raiz pelas direções de Partidos e Movimentos do chamado campo democrático-popular.


O que vemos no Brasil é um filme exaustivamente repetido desde o Golpe de Estado de 2016: essas agremiações manobrando para que a luta não seja radicalizada, limitada por pautas abstratas, que não vão além da preparação de terreno para as próximas eleições. Por outro lado, os instrumentos de luta dos trabalhadores, experimentados historicamente, como por exemplo a greve geral, com todo potencial de elevar a consciência proletária das massas populares, permanecem apenas em um horizonte distante. No lugar destes, as direções oportunistas, miram seus esforços na manutenção de seus interesses através das negociatas nas entranhas do Velho Estado, buscando a todo custo diluir a consciência combativa dos trabalhadores na direção dos seus anseios eleitoreiros.


O avanço das reformas antipovo que agudizam a miséria, a deterioração das condições de trabalho e os ataques aos direitos básicos de nosso povo; o avanço do latifúndio e da violência no campo; o aprofundamento da dominação imperialista e da rapinagem sobre nossas riquezas; todas estas questões que deveriam ser prioridade e estar na ordem do dia de todas as mobilizações em defesa dos trabalhadores, são propositalmente negligenciadas pelas direções oportunistas, pois estas não têm, nem nunca tiveram a menor intenção, ou condição, de dirigir as massas trabalhadores numa luta real pela superação do estado de coisas atual.


Para além do conteúdo abstrato, com pautas difusas, devemos destacar a forma como tem se dado as passeatas “mensais”. Diversos grupos divididos em seus respectivos blocos, mobilizando suas bases em grande maioria formadas por militantes oriundos da pequena burguesia intelectual, caminhando “separados” e fazendo cada qual seu próprio palanque de autopropaganda para conquistar votos ou enganar e anestesiar as massas. No horizonte destes enganadores não há nada mais importante do que as próximas eleições e, ao final de cada passeata, a mídia do dito campo progressista se preocupa mais em ressaltar a quantidade de pessoas nas ruas do que enfatizar quaisquer questões políticas concretas.


Outra limitação da atuação da esquerda liberal é a própria estratégia dessa “derrota" de Bolsonaro pela via institucional: ou Bolsonaro seria derrotado por um “impeachment”, antes da eleição – vale lembrar que o processo contra Dilma Rousseff durou 273 dias e que estamos a menos de 300 dias do próximo pleito –, ou seria “derrotado” nas eleições. Dentro desse cenário, essa esquerda trabalha dentro da sua limitação política e ideológica: quanto ao pedido de impeachment, como Bolsonaro tem acordo com o Presidente da Câmara (Arthur Lira), competente para abertura do processo de impedimento, esses movimentos e partidos tentam fazer “pressão” (leia-se “manifestações volumosas e periódicas”) para aprovação. Essa "pressão” também tem natureza eleitoral, pois visa, eventualmente, intimidar os integrantes do Legislativo com eventual rejeição em pleitos futuros; dado que o Centrão apoia quem paga mais – como mercenários que são os seus integrantes – e que já foi comprado por Bolsonaro em outros momentos (ex., entrega de Ministérios, “Tratoraço” etc.); a outra opção seria oferecer uma proposta ainda maior que o atual governo. Mas, para isso, o Partido dos Trabalhadores (e os demais coligados) teria que se aproximar de partidos como o PP, DEM, PSD, MDB, abandonar qualquer intenção de vingança e ser um pouco menos “vermelho” – em outubro/2021, Haddad disse que o PT não é um partido de esquerda. Visando, ainda, garantir que não é uma “ameaça" à ordem, que não é “extremista”, que pode governar um “país polarizado”, Lula fez uma série de viagens pela Europa e apertou a mão de autoridades de países imperialistas (Macron), como um verdadeiro representante burguês.


Ao mesmo tempo que as organizações da chamada Esquerda jogam todas as suas forças nas “celebrações” antibolsonaro, lutas mais sérias e concretas vêm ocorrendo por todo o país, sem a devida atenção dos ansiosos por 2022. Seja a resistência dos camponeses de Rondônia, seja a greve dos servidores públicos paulistanos contra mais uma reforma da previdência na maior cidade do país, passando pela mobilização dos povos indígenas contra a guerra aberta do Estado Brasileiro que visa destruir seus direitos ancestrais e diversas outras lutas em andamento, o povo brasileiro se ergue para resistir contra a ofensiva da burguesia, do latifúndio e do imperialismo e para conquistar melhores condições de vida, mesmo sem ter o apoio ativo das forças de esquerda, que em alguns casos simplesmente ignoram a existência dessas lutas populares, em outros fazem, no máximo, alguns acenos de boca e promessas de que tudo vai melhorar no ano que vem se Lula ganhar as eleições.


Mesmo que tais lutas acabem com derrotas provisórias (o acampamento da LCP pode ser despejado, o Sampaprev foi aprovado, a PL 490 avança no Congresso, etc.), o saldo das mobilizações sempre é positivo, pois coloca a luta das massas em movimento e traz aprendizados políticos importantes, sobre os limites da luta institucional e os interesses por detrás dos partidos de esquerda da ordem. Estas agremiações oportunistas, por preferirem desviar o caminho da luta de resistência e do processo de elevação da consciência das massas trabalhadoras para uma mera promessa eleitoral, para tangenciar e não discutir os verdadeiros inimigos e as causas da crise, mas sim vender o nome mágico de quem pode administrá-la, pouco a pouco conquistarão apenas o descrédito.


A postura de indiferença dos partidos da esquerda institucional frente às lutas concretas de nosso povo não surpreende, já que o oportunismo demonstra historicamente, por um lado, sua predisposição de compromisso com as classes dominantes, sua “confiança” na democracia e na justiça burguesa e, por outro, seu total descrédito e desconfiança nas massas. Não à toa, que em nossa atual conjuntura, esses demagogos tentem a todo custo desmobilizar as lutas reais, apresentando o caminho da “retomada” da democracia, do cretinismo eleitoreiro como o único possível e que eles, os “representantes legais” do povo, seriam os únicos capazes de interceder e melhorar a vida dos trabalhadores. Podemos ilustrar esse ideário com uma frase dita recentemente pelo ex-presidente Lula, a principal aposta dos oportunistas e revisionistas para a farsa de 2022, dizendo que “o faminto não faz a revolução, o faminto está fragilizado. Nós é que temos de estender a mão para eles”.


Que mão é essa que os partidos da ordem estendem aos trabalhadores? Sabemos bem que por meio do estado reacionário, da democracia burguesa, a única mão que se estende para o povo trabalhador é a mão que saqueia e reprime e, enquanto não chega a próxima eleição, os oportunistas dão as mãos para as mais diversas agremiações reacionárias e golpistas, cruzando os braços frente ao massacre e a miséria do povo brasileiro. Lembremos que tentaram defender uma tal frente ampla (com a garantia de que Lula estivesse à frente), sem princípios, sem modos, mas que precisava ser feita para salvar a democracia brasileira – essa abstração que nunca existiu de fato para a maior parte do nosso povo.


Ao invés de denunciar o caráter de classe do Estado burguês-latifundiário brasileiro, tais forças de esquerda sempre se apressam a colocarem-se em defesa da moribunda democracia burguesa a cada bobagem dita por Bolsonaro. São os primeiros a defender instituições como a Justiça – a mesma que diariamente condena aos montes a juventude pobre e preta e garante a impunidade dos poderosos –, o Congresso Nacional e a atuação parlamentar, mesmo que já se tenha demonstrado a compra de votos generalizada e a atuação contra os direitos do povo. Em suma, fazem o trabalho a que se dispõem, que não vai além de garantir sua própria sobrevivência institucional, esperando por uma chance de defender à sua maneira os interesses das classes exploradoras.


Como podemos ver no último período, os grandes arautos do “Fora Bolsonaro” não exatamente querem mesmo a sua queda e o combate as causas concretas da crise do país. A tentativa de mobilização buscou não canalizar a revolta da população contra o governo e a crise no avanço da consciência sobre os problemas estruturais maiores que condenam o nosso país a essa situação. No saldo final, mas uma vez usa-se a legítima insatisfação popular para atender interesses partidários. No máximo, as manifestações conseguiram demonstrar um desejo de que Bolsonaro seja derrotado nas urnas em 2022, com toda a validade do nosso processo eleitoral, do modo mais limpo e "democrático" possível. Afinal, o importante é ter na gerencia de turno do país alguém mais "democrático", com pessoal mais “qualificado”, mais “técnico”, para seguir com a agenda antipovo de forma mais civilizada em uma grande “frente ampla”.