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"A Questão do Fascismo nos países coloniais e dependentes"



Publicamos agora, em quatro partes, a tradução do importante documento "The Revolutionary Movement in the Colonial Countries" de Wang Ming. Na sua introdução, o autor apresenta o trabalho como as seguintes palavras: "O relatório sobre a ofensiva fascista e as tarefas da Internacional Comunista na luta pela unidade da classe trabalhadora contra o fascismo foi feito em nosso histórico Sétimo Congresso por um companheiro cuja voz capta a atenção de milhões de trabalhadores, comunistas, bem como socialistas e desorganizados, e pelos melhores e mais importantes intelectuais de todo o mundo. Este relatório foi feito por alguém cuja histórica vitória no julgamento de Leipzig é uma personificação viva do poder de luta da frente unida da classe trabalhadora na luta contra o fascismo, e ao mesmo tempo é uma prova indiscutível da fraqueza e instabilidade do regime de Hitler – pelo nosso amado camarada Dimitrov. Neste panfleto, irei me aprofundar nas questões do movimento revolucionário nos países coloniais e semicoloniais – particularmente na China e na Índia – bem como nas táticas dos nossos Partidos Comunistas, e tentarei lidar explicitamente com essa parte do relatório do camarada Dimitrov, que trata esses assuntos".


O Movimento Revolucionário nos Países Coloniais


III. A QUESTÃO DO FASCISMO NOS PAÍSES COLONIAIS E DEPENDENTES


Considerando que o fascismo é a aberta e terrorista ditadura dos elementos mais reacionários, chauvinistas e imperialistas do capital financeiro, considerando que o fascismo cresceu no solo da falida democracia burguesa, que a social-democracia abriu caminho para o poder fascista (como vimos, por exemplo, na Alemanha e Itália), não é possível, claro, existir tal tipo de fascismo em nações coloniais e dependentes.


Ainda assim, não há como negar que em alguns países coloniais e dependentes, em anos recentes, especificamente depois que o fascismo subiu ao poder na Alemanha, um pretenso movimento fascista está crescendo.


Na China, por exemplo, durante os últimos anos, Chiang Kai-shek fez grandes esforços para organizar as Ligas Camisa Azul, que não-oficialmente e às vezes até oficialmente, na imprensa, chamaram-se nacional-socialistas. Cumprindo o papel de executores no que concerne ao povo, ao Partido Comunista e a todos os grupos antifascistas, cumprindo o papel de bárbaros medievais (queimando livros, enterrando escritores revolucionários vivos, etc.) e de gendarmes sanguinários nas tropas do Kuomintang, estes bandos terroristas estão, ao mesmo tempo, tentando espalhar sua influência sobre as massas. Daí a campanha pela “nova vida”, a campanha pela ressurreição dos antigos códigos chineses da moral e do confucionismo, os apelos demagógicos pela emancipação nacional da China etc.


No Brasil, há uma organização fascista (os assim chamados Integralistas) que tem braços nas províncias, nos distritos, nas escolas, nas fábricas, nas usinas e nos distritos agrários. Eles têm departamentos de propaganda e de cultura, um departamento militar, um departamento socioeconômico e outros. A mais estrita disciplina militar prevalece na organização. Os líderes desta organização são intelectuais em sua grande maioria – médicos, advogados etc. –, mas entre esses líderes também existem alguns tantos latifundiários, industriais e banqueiros. Na Argentina, existe uma organização semelhante – a “Legião Civil”. No México, existem os “Camisas Douradas” (Camisas Doradas). No Chile, existem organização nacional-socialistas, etc. etc.


De fato, todas estas supostas organizações fascistas, com a exceção dos integralistas brasileiros, não são ainda organizações de massa. Todas elas, estabelecendo conexões com um ou outro poder imperialista (em primeiro lugar, com a Alemanha fascista), são nacionalmente corruptas e uma arma para a escravidão imperialista de seu próprio povo. Todas elas representam as mais reacionárias, mais contrarrevolucionárias e mais obscuras forças em seus países. As condições econômicas, políticas e históricas dos países coloniais e dependentes diferem das condições da Alemanha, Itália, Áustria etc. Considerando todas estas circunstâncias, o movimento fascista em países coloniais e dependentes não pode, claro, crescer da mesma forma e com a mesma força que na Alemanha, Itália etc.


Ainda assim, nós não deveríamos, de forma alguma, subestimar o papel e a significância do movimento fascista e da organização fascista na medida em que este signo “moderno” da reação é utilizado pelos elementos mais contrarrevolucionários entre os latifundiários e burgueses dos países coloniais e dependentes para a organização das forças contrarrevolucionárias, para a luta contra a revolução popular e para a extenuação da escravidão do povo de seus próprios países pelo imperialismo. O movimento fascista e as organizações fascistas representam um perigo particular para os movimentos de libertação nacional nos países coloniais e semicoloniais porque os fascistas em toda parte nestes países, antes de tudo, apressam-se a usar palavras de demagogia nacionalista, que de forma recorrente encontram ressonância nas massas. Os fascistas também disseminam amplamente a demagogia social. Por meio desta demagogia, eles algumas vezes conseguem aproximar as massas da pequena burguesia esmorecida, que são chamadas a representarem papel de importância considerável na luta anti-imperialista em países coloniais e dependentes. Os fascistas são particularmente perigosos para nós porque muitos partidos comunistas de países coloniais e semicoloniais ainda agora são incapazes de dirigir os sentimentos anti-imperialistas e antirreacionários das massas ao canal da luta revolucionária, são incapazes de ganhar influência sobre as massas. Disto, fica claro que a luta contra os movimentos fascistas e organizações fascistas nos países coloniais e semicoloniais é uma das mais urgentes e importantes tarefas de nossos partidos.


Como mostra a experiência, a luta contra o fascismo nos países coloniais e semicoloniais devem ser agora conduzidas em duas frentes: por um lado contra a atitude negligente e subestimação do perigo e nocividade do movimento fascista em cada país (erro cometido por muitos comunistas na China), e, por outro, contra a tendência a exagerar a importância do movimento fascista no país. Por exemplo, muitos de nossos camaradas na América Latina caracterizam quase todos os partidos burgueses e pequeno-burgueses como fascistas ou próximos de se tornarem fascistas, assim dificultando o estabelecimento de uma frente popular anti-imperialista e antifascista.


Como, então, deveria a luta contra o movimento fascista e contra as organizações fascistas nos países coloniais e semicoloniais ser levada a cabo?


Eu creio que de todos os numerosos e vários meios táticos, os seguintes são os mais importantes e fundamentais:


A organização de uma verdadeiramente revolucionária luta de massas anti-imperialista e o estabelecimento de uma frente popular anti-imperialista e antifascista com o propósito de esmagar a demagogia fundamental dos fascistas, para demonstrar às massas o verdadeiro caminho para a superação de sua condição colonial ou dependente. Estes meios produzem bons resultados. Por exemplo, no Brasil, recentemente a explosão da Aliança Nacional Libertadora não apenas enfraqueceu a influência dos integralistas entre as massas, não apenas evocou uma divisão entre uma porção dos soldados rasos e os líderes dos integralistas na questão da atitude sobre o movimento nacional e a Aliança Nacional Libertadora, mas também causou uma divisão entre os líderes dos integralistas e, ainda, resultou na passagem de um número de líderes proeminentes (entre eles os candidatos para o parlamento em São Paulo) para o lado da Aliança Nacional Libertadora.


Métodos hábeis de expor a demagogia dos fascistas pelos comunistas para o propósito de convencer as massas, na base da experiência delas, da falsidade das promessas fascistas. Irei citar muitos exemplos da experiência individual de organizações partidárias nos distritos do Kuomintang na China. Por exemplo, quando os Camisas Azuis de Chiang Kai-shek estavam levando a cabo uma campanha pela “nova vida”, pela “observância das cerimônias”, pelo “respeito aos pais” etc., nossas organizações aldeãs de partido nas províncias de Kiangsu e Chekiang, utilizando o feriado de Ano Novo, organizaram a apresentação de uma petição, assinada por milhares de famílias camponesas, para o comitê da cidade do Kuomintang e para as autoridades da aldeia e condado, demandando a distribuição de arroz, grãos e roupa para que as famílias camponesas pudessem de fato celebrar o Ano Novo de acordo com a “nova vida”, em espírito de “observância das cerimônias” e “respeito aos pais”. Quando os oficiais locais do Kuomintang se recusaram a satisfazer tais demandas, quando a polícia atirou contra a multidão reunida, as massas camponesas lideradas pelos comunistas passaram das petições para a militância e impuseram demonstrações contra o Kuomintang, enganadores fascistas. Outro exemplo. Quando os Camisas Azuis proclamaram o slogan de “nova vida” (higiene e limpeza na vida cotidiana etc.), os comunistas organizaram os “Comitês de Luta por Uma Nova Vida” em diversas empresas em Shangai e demandaram a melhoria das condições de trabalho dos empregadores, em conformidade com as regras da “nova vida”. Após este acontecimento, os Camisas Azuis cessaram temporariamente a propaganda pela “nova vida” em um número de empresas em Shangai.


Em seu informe, o camarada Dimitrov muito corretamente chamou atenção para a necessidade de intensificar a luta ideológica contra os fascistas. Na China, por exemplo, Chiang Kai-shek e sua Liga Camisa Azul fazem uso das doutrinas mais atrasadas e medievais (confucionismo, budismo etc.) para enganar as massas. Eles distorceram os ensinamentos de Sun Yat-sen para justificar sua capitulação ao imperialismo. Muitos comunistas subestimam a importância da luta ideológica contra o Kuomintang e a Liga Camisa Azul. Pensam que isto é uma ninharia, que os problemas são sobrevivências do atraso e do medievalismo e que é, assim, impossível ganhar as massas lutando contra estas sobrevivências. Isto está errado. É verdade que o confucionismo, budismo etc. são sobrevivências do atraso e medievalismo, mas, além do atraso, do medieval, do bárbaro e agressivo, que mais podemos achar na ideologia destes representantes das classes decadentes e moribundas? Este não é o ponto principal. O ponto é que toda esta velha ideologia tem raízes profundas nas tradições das massas e exerce grande influência sobre as massas populares. É, assim, necessário tomar estes pontos de vista em consideração. É necessário explicar pacientemente para as amplas massas popular a raiz e real significado destes pontos de vista, bem como a atitude e o ponto de vista dos comunistas sobre a moralidade, a ética etc., para que as massas possam entender que os comunistas são os verdadeiros herdeiros de tudo que é melhor e mais valoroso em nossas velhas tradições e cultura e, ao mesmo tempo, os criadores de uma nova, mais elevada e melhorada cultura e moralidade. Em relação ao Sun Yat-senismo, enquanto apontarmos sua inconsistência e inadequação, bem como alguns dos erros desta escola de pensamento, devemos apontar para as massas que Sun Yat-sen foi um revolucionário nacionalista e que em sua ideologia e especialmente em sua atividade há muito que é valoroso e muito que é bom, tendo em conta que o mais importante para ele, como ele mesmo disse em seu legado, é “a luta pela independência e igualdade da China”. Ao mesmo tempo, as massas devem ver que nós, os comunistas, somos os herdeiros das melhores tradições revolucionárias e ideias de Sun Yat-sen, uma vez que apenas nós, os comunistas, trabalhamos sem cansar e lutamos pela emancipação nacional e pelo bem-estar do nosso povo. Do outro lado, discípulos de Sun Yat-sen como Chiang Kai-shek, Wang Ching-wei, Taig Ti-tao e outros não apenas são os mais desprezíveis criminosos contra seu povo e país, mas são os mais repugnantes traidores dos ensinamentos e do legado de Sun Yat-sen. Sem uma luta sistemática, habilidosa e inteligente contra o Kuomintang, a Liga Camisa Azul etc., o Partido Comunista não será capaz de conquistar para a bandeira da revolução essas massas que, por seu atraso, ingenuidade, analfabetismo e condições e tradições históricas, estão ainda sob a influência do Kuomintang e de outros partidos e grupos que são hostis ao povo.