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"A intensificada Ofensiva do Imperialismo e o crescimento das Forças das Revoluções Coloniais"



Publicamos agora, em quatro partes, a tradução do importante documento "The Revolutionary Movement in the Colonial Countries" de Wang Ming. Na sua introdução, o autor apresenta o trabalho como as seguintes palavras: "O relatório sobre a ofensiva fascista e as tarefas da Internacional Comunista na luta pela unidade da classe trabalhadora contra o fascismo foi feito em nosso histórico Sétimo Congresso por um companheiro cuja voz capta a atenção de milhões de trabalhadores, comunistas, bem como socialistas e desorganizados, e pelos melhores e mais importantes intelectuais de todo o mundo. Este relatório foi feito por alguém cuja histórica vitória no julgamento de Leipzig é uma personificação viva do poder de luta da frente unida da classe trabalhadora na luta contra o fascismo, e ao mesmo tempo é uma prova indiscutível da fraqueza e instabilidade do regime de Hitler – pelo nosso amado camarada Dimitrov. Neste panfleto, irei me aprofundar nas questões do movimento revolucionário nos países coloniais e semicoloniais – particularmente na China e na Índia – bem como nas táticas dos nossos Partidos Comunistas, e tentarei lidar explicitamente com essa parte do relatório do camarada Dimitrov, que trata esses assuntos".


O Movimento Revolucionário nos Países Coloniais


I. A INTENSIFICADA OFENSIVA DO IMPERIALISMO E O CRESCIMENTO DAS FORÇAS DAS REVOLUÇÕES COLONIAIS

Antes de tudo, o que há de novo nas condições econômicas e políticas dos países coloniais e semicoloniais, ou, para ser mais preciso, quais são as características básicas mais distintas que caracterizam a situação econômica e política no mundo colonial durante o período que se passou entre os Sexto e Sétimo Congressos da Internacional Comunista?


A primeira característica é a intensificada ofensiva ao longo de toda a frente do imperialismo contra os povos coloniais e semicoloniais. É de comum conhecimento que o capitalismo conseguiu aliviar um pouco a posição de sua indústria não apenas por meio de uma exploração intensificada dos trabalhadores e agricultores em seus países de origem e pela guerra e booms de inflação, mas também às custas dos camponeses nas colônias e dos países fracos economicamente.


Como a crescente ofensiva do imperialismo contra as colônias e semicolônias, por todas as frentes, durante esse período, se manifesta? Manifesta-se principalmente nos seguintes pontos:


Em primeiro lugar, o imperialismo está abertamente realizando uma ampla expansão militar com o objetivo de tomada total do território e de destruição da existência nacional dos povos semicoloniais. A agressão descarada e o roubo por parte dos militares japoneses na China e a guerra dos fascistas italianos contra a Etiópia são dois exemplos gritantes disso. Deve-se notar, nesse sentido, que as guerras entre os países da América Latina, entre a Bolívia e o Paraguai, por exemplo, que vêm acontecendo com certos intervalos há alguns anos, são, na sua essência, guerras – mascaradas – entre o imperialismo inglês e americano para a repartição deste continente.


Em segundo lugar, a expansão econômica do imperialismo nos países coloniais e semicoloniais está aumentando por meio de uma redução ainda maior dos preços dos produtos da mão-de-obra nesses países, principalmente de matérias-primas e alimentos, por meio do despejo e da redução forçada de taxas alfandegárias nos países semicoloniais. As potências imperialistas que exportam para os países coloniais e semicoloniais colhem os benefícios disso e a chamada indústria nacional, que, de qualquer modo, está tendo uma existência miserável, sai perdendo. Os seguintes fatos podem ser citados como exemplos: a partir do verão de 1933, sob a demanda direta dos imperialistas japoneses, os direitos alfandegários na China sobre têxteis japoneses e outros bens foram reduzidos; a pedido dos imperialistas americanos, os direitos alfandegários sobre os produtos manufaturados americanos foram reduzidos em 35% no Brasil e em 30-60% em Cuba, etc.


Em terceiro lugar, o imperialismo está intensificando sua luta contra a luta dos povos coloniais e semicoloniais pela emancipação nacional, e apoia os grupos mais reacionários e corruptos com o objetivo de tornar mais fácil e completa a sua expansão econômica, política e militar. O imperialismo não se limita a travar uma luta implacável contra o movimento de libertação nacional – que é verdadeiramente representativo do povo –, ele intervém de forma direta e indireta contra o Exército Vermelho Chinês, suprime de forma sangrenta as revoltas populares na Indochina através do imperialismo francês etc. Segue também a política de derrubar governos nacional-reformistas (por exemplo, o governo de Grove, no Chile, e o governo de Grau San Martin, em Cuba) e de criar ditaduras reacionárias, que são hostis ao povo, como, por exemplo, a ditadura de Uriburu na Argentina que, depois, deu lugar à ditadura de Justo; a ditadura de Benavidez no Peru; a ditadura de Mendieta-Batista em Cuba etc.


Todos esses fatos, que atestam a crescente expansão militar, econômica e política dos imperialistas no Leste colonial, na América Latina e na África, geraram uma situação em que:


1. A existência nacional de inúmeros povos semicoloniais está diretamente ameaçada.


2. As economias dos países coloniais e semicoloniais agrários estão abaladas até as suas bases, milhões e dezenas de milhões de camponeses morreram e estão morrendo de fome e tudo isso por causa dos chamados “atos de Deus” (enchentes, seca etc.), que, na realidade, são consequências do regime dos imperialistas e de seus agentes nativos (isso é especialmente evidente nos últimos anos na China e em outros países coloniais).


3. A indústria nacional dos países coloniais e dependentes, que foi criada antes e durante a última crise econômica mundial do capitalismo, vive uma profunda crise (durante a crise econômica mundial houve um crescimento temporário e parcial da indústria leve, principalmente da indústria têxtil, em vários desses países), e os sistemas financeiro e monetário em vários países semicoloniais estão completamente falidos.


4. Os trabalhadores empregados levam uma existência miserável; milhares e dezenas de milhares de desempregados – tanto trabalhadores quanto intelectuais – estão morrendo de fome; artesãos e outras camadas da pequena burguesia urbana estão sendo completamente arruinados e pauperizados. Os suicídios assumiram proporções de massa (por exemplo, de acordo com dados estatísticos publicados na imprensa burguesa estrangeira e chinesa, seis milhões de pessoas cometeram suicídio na China do Kuomintang durante o ano passado).


Todos esses fatos – que são consequências diretas da crescente expansão imperialista – têm objetivamente levado os países coloniais e semicoloniais:


1. Ao aumento do descontentamento nacional e da indignação contra o imperialismo e seus agentes nativos, dando origem às condições mais favoráveis para a criação de uma frente única anti-imperialista das mais amplas massas da população;


2. A certa acentuação dos antagonismos entre a burguesia colonial e imperialista, entre as potências imperialistas concorrentes e, finalmente, entre os diversos grupos e camadas da burguesia colonial e os proprietários de terra, criando a possibilidade de utilizar essas contradições para o desenvolvimento de um movimento revolucionário de massas;


3. Para um enfraquecimento da influência do nacional-reformismo entre as massas; para as divisões entre uma série de partidos e agrupamentos nacional-reformistas burgueses e pequeno-burgueses; para a formação, nestes partidos, de alas nacional-revolucionárias de esquerda e, o que é particularmente importante, para o crescimento do papel e da influência do proletariado e de seu Partido.


Como exemplos desse crescimento, podemos citar os seguintes fatos: durante o período em análise, o jovem Partido Comunista da Indochina já participou dos levantes armados da população como uma força política independente; Partidos Comunistas foram formados em vários países do Oriente, nas Filipinas, no Sião e em vários países da América Latina – Peru, Paraguai, Venezuela, Costa Rica, Panamá, Porto Rico, Haiti etc.

Tudo o que dissemos nos leva ao segundo traço básico mais característico que distingue a situação nos países coloniais e semicoloniais durante o período que decorreu entre o Sexto e o Sétimo Congressos da Internacional Comunista: o crescimento das forças das revoluções coloniais.


O vitorioso desenvolvimento da revolução soviete na China, as revoltas armadas das massas contra o imperialismo na Indochina, a tremenda extensão do movimento de libertação nos países da América Latina – principalmente a luta revolucionária em Cuba –, o motim na marinha chilena e o crescente movimento nacional-revolucionário no Brasil, o motim das frotas holandesas na Indonésia (De Zeven Provinzien), o aumento do movimento operário e camponês na Índia, a luta armada dos camponeses nas Filipinas, o crescimento do movimento de greve na Coreia (a greve de Genzan em particular), a greve das massas de trabalhadores de petróleo na Pérsia, a onda de revoltas armadas no Oriente Árabe, o desenvolvimento da luta revolucionária entre os cem milhões de negros, a resistência armada às forças italianas na Etiópia, que está encontrando uma ampla e simpática resposta dos povos dos países coloniais da África e do Oriente Próximo, etc. –, uma mera enumeração desses eventos revolucionários que ocorreram nos últimos anos é suficiente para claramente mostrar o despertar das massas de trabalhadores nos países coloniais e semicoloniais em escalas sem precedentes, e para mostrar o crescimento do poder de luta das revoluções coloniais.


É preciso enfatizar com toda a seriedade que o crescimento das forças revolucionárias nos países coloniais e semicoloniais é o resultado não apenas da crescente ofensiva geral do imperialismo e do acirramento da luta de classes nesses países, mas também da enorme influência direta da grande Revolução de Outubro num geral e de suas novas vitórias históricas durante os períodos do Primeiro e Segundo Plano Quinquenal, em particular.


A final e irrevogável vitória do socialismo na URSS, a industrialização do país, a coletivização da agricultura, a elevação dos padrões de vida material e cultural das massas populares, o desenvolvimento das culturas nacionais de todos os povos da URSS, incluindo os primeiros povos coloniais da Rússia czarista, o fortalecimento dos poderes defensivos da URSS, o aumento considerável da importância da URSS na política mundial, a transformação de todos os seus trabalhadores em membros da sociedade socialista com direitos iguais, e a ampliação da democracia soviética, tudo isso serve aos povos dos países coloniais e economicamente fracos como exemplos históricos concretos de como transformar seus países de países economicamente atrasados e agrários em grandes países industriais; como transformar seus países – objetos de constantes ataques de abutres imperialistas – em países que podem se defender, que podem repelir qualquer ataque de inimigos externos; como passar de povos oprimidos e incultos para se tornarem livres e cultos.


Segue-se a partir de tudo isso que:


1. A avaliação das situações econômica e política nos países coloniais e semicoloniais e das perspectivas de seu posterior desenvolvimento, dada pelo Sexto Congresso da Internacional Comunista, tem sido corroborada total e completamente. Por outro lado, a teoria dos social-democratas e dos renegados (Roy e outros) sobre a “descolonização” tem sido tão completamente destruída quanto sua teoria do “capitalismo organizado”.


2. A avaliação da situação mundial feita pelo camarada Stalin no Décimo Sétimo Congresso do PCUS e pelo Sétimo Congresso da Internacional Comunista – “a crise revolucionária está amadurecendo e continuará a amadurecer”, “o mundo capitalista está entrando em um período de intensos confrontos como resultado da acentuação de contradições internas e externas do capitalismo” –, corresponde plena e completamente à situação internacional contemporânea e, em particular, para a situação dos países coloniais. É evidente a partir disso que a posição da social-democracia e dos renegados que avaliam a situação atual como o “início de uma nova era do fascismo” e veem para o futuro apenas a “perspectiva de reação negra” é totalmente sem fundamento. “[...] O enorme mundo de colônias e semicolônias tem se transformado em uma chama insaciável do movimento de massa revolucionário”, “para o imperialismo mundial os países coloniais são, na atualidade, o setor mais perigoso de sua frente de batalha” – essa caracterização dada pelo Sexto Congresso da Internacional Comunista soa, sem dúvida, ainda mais convincente e bem fundamentada nos dias de hoje.