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"Sobre o trabalho de massas"



O presente documento traduzido pelo NOVACULTURA.info, “Sobre o trabalho de massas”, foi escrito pelo Partido Comunista das Filipinas (PCF) no ano de 1995, como parte do amplo movimento político que ficou conhecido como Segundo Movimento de Retificação. Como sabem os leitores de nossa página, o PCF é uma das importantes organizações do movimento comunista internacional, um partido maoísta que encabeça uma guerra popular prolongada contra o Estado reacionário filipino desde 1969. Em meados dos anos 1980, a despeito do avanço da luta revolucionária nas Filipinas, o Partido caiu em uma série de erros oportunistas de esquerda e de direita. Havia inúmeras noções e posições políticas equivocadas, como o gorbachevismo, trotskismo, parlamentarismo, “teoria do capitalismo dependente”, “insurreicionismo urbano”, que impediram que o avanço da luta prosseguisse, e mergulharam o movimento revolucionário em uma profunda crise, que somente seria resolvida após anos da condução do Segundo Movimento de Retificação. Para aqueles interessados, as Edições Nova Cultura chegaram a editar livros específicos sobre este período do movimento revolucionário filipino.


O documento se divide da seguinte forma:


A) Linha e orientação do trabalho de massas;

B) Propaganda e trabalho educativo;

C) Organizando as massas;

D) Mobilizando as massas;

E) Consolidação e expansão.


Desde há alguns anos, particularmente desde 2018, desenvolve-se entre os círculos socialistas brasileiros um intenso debate a respeito do problema de se “retomar o trabalho de base”, de ir às massas, etc. Pensamos que nossa iniciativa de traduzir e publicar o presente documento possa ajuda neste debate que persiste até os tempos atuais.



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Prefácio

Em nosso trabalho de massas, mobilizamos, politizamos e organizamos as massas de operários, camponeses, semiproletários e setores particulares da pequena burguesia para a revolução popular democrático-nacional. Também nos atemos a grupos sociais distintos, como mulheres, jovens, pescadores e minorias nacionais que formam os povos indígenas e nacionalidades minoritárias.


O trabalho de massas é muito importante para a direção vitoriosa do Partido sobre a revolução. A base da força revolucionária do Partido e do movimento revolucionário é construída por meio de tal trabalho. O trabalho essencial é conduzido por meio de três tarefas principais: formação do Partido, condução da luta armada e formação da frente única nacional. A liderança efetiva de um partido proletário pode ser medida por meio da eficácia de seu trabalho de massas.

Nosso presente estudo sobre o trabalho de massas é produto do desenvolvimento da prática revolucionária ao longo dos anos. Neste estudo, estão incorporados a sistematização do Comitê Central, no documento “Nossas tarefas urgentes”, e a sistematização do X Plenário do Comitê Central do Partido.


Este capítulo é dividido em cinco partes:


A) Linha e orientação do trabalho de massas

B) Propaganda e trabalho educativo

C) Organizando as massas

D) Mobilizando das massas

E) Consolidação e expansão


A) Linha e orientação do trabalho de massas


1. Quais são os principais objetivos do trabalho de massas?


Nosso trabalho de massas possui três objetivos principais. O primeiro é formar, consolidar e ampliar a unidade revolucionária e a força do povo por meio do estabelecimento dos órgãos do poder político democrático de acordo com a linha de classista da frente única nas áreas rurais, comitês populares nas cidades, e organizações de massas e movimentos de massas no campo e nas cidades.


O segunda é estabelecer e consolidar as bases mais amplas e profundas entre as massas para a guerra popular prolongada. A guerra popular não pode avançar firmemente sem o forte apoio das amplas massas populares.


O terceiro é estabelecer a base mais ampla e profunda para a construção do Partido entre as camadas populares.


A implementação do trabalho de massas pelo Partido está de acordo com o cumprimento de sua tarefa central de tomar o poder político. No curso desse trabalho, são construídas as bases mais amplas da frente única, do exército popular e da luta armada, e da formação do Partido entre as massas.


2. O que é a linha de massas?


A linha de massas é o princípio marxista-Leninista básico que orienta o trabalho de massas e outras tarefas do Partido no decorrer da revolução. Está baseada e se conforma em sua integralidade de acordo com a visão de mundo materialista histórica sobre a sociedade e a revolução.


O ensinamento fundamental da linha de massas é termos total confiança e crédito nas massas. Enfatiza que a revolução deve depender das massas populares e da mobilização da maioria. Ela se opõe à dependência sobre um punhado de líderes, gênios, heróis ou salvadores. Defende a visão de que as massas, e apenas as massas fazem a história.


Em todos os momentos e lugares, o Partido deve garantir que todos os camaradas em qualquer posição de responsabilidade estejam firmemente ligados às massas. Cada camarada deve ser ensinado a amar o povo e a ouvir a voz das massas; unir-se a elas onde quer que estejam, misturar-se com elas, em vez de pairar sobre elas; a despertá-las, ou mais, elevar sua consciência política a partir de seu nível; a ajudá-las a se organizar; e ajudá-las a iniciar todas as lutas importantes que podem ser levadas a cabo em um determinado momento e lugar.

O comandismo e o reboquismo seguem sentidos contrários às aspirações das massas. Certamente nos afastaremos das massas se as forçarmos a fazer coisas que vão contra sua vontade, ou se não quisermos avançar sempre que elas exijam que o façamos. Esses erros trazem certos erros e danos.


O comandismo não é uma questão de um estilo de simplesmente dar ordens às massas. Mesmo se falarmos de forma educada, tornamo-nos comandistas sempre que ultrapassamos o nível de consciência política das massas e vamos contra sua vontade; isso apenas mostra a mal da impetuosidade. Os comandistas não se dão ao trabalho de ensinar e incentivar as massas. Ao invés disso, estabelecem tarefas que excedem a capacidade e preparação das massas alternando meios diretivos e coercitivos para levar a cabo o trabalho.


O reboquismo também está errado em qualquer tipo de trabalho, pois caminha a reboque do nível de consciência política das massas e vai contra a necessidade de fornecer direção às massas; isso apenas mostra o mal do imobilismo. Ocorre frequentemente de as massas nos superarem e estarem ansiosas para a ação, mas os reboquistas não conseguem liderar nestas situações. Como resultado da falta de análise, eles definem políticas e tarefas que estão aquém da capacidade e preparo das massas, bem como daquilo que as condições exigem. Eles são incapazes de liderar porque muitas vezes duvidam e hesitam. Eles expressam apenas as opiniões de certos elementos atrasados das massas, e confundem tais opiniões com as opiniões das massas.


Para evitar o comandismo e o reboquismo, os camaradas devem se misturar às massas e investigar. Na prática da linha de massas, a linha política correta é a chave, pois expressa as aspirações e interesses objetivos das massas.


Na prática da linha de massas nas condições concretas da sociedade filipina, a firme adesão à linha geral da revolução democrático-popular é fundamental. É necessário politizar, organizar e mobilizar as amplas massas populares para fazer avançar o movimento revolucionário antifascista, antifeudal e anti-imperialista. É preciso fazê-los compreender a linha do Partido e colocar em prática, em suas ações, as políticas e lutas que o Partido inicia de acordo com esta linha. A linha política é o padrão básico que decide se erramos ou não em nosso trabalho.

Ambas as linhas oportunistas de “esquerda” e direita desejam subjetivamente a vitória rápida e decisiva da revolução para além do nível real de força das forças revolucionárias. A correlação de forças é erroneamente considerada, excedendo a análise das condições reais, do preparo das massas e do movimento revolucionário.


A linha oportunista de “esquerda”, ao lançar greves populares de confronto (welgang bayan), com as ações putchistas partisan de colocar fogo em transportes públicos, bombardeio de edifícios de capitalistas estrangeiros e governamentais para incitar a insurreição urbana, coloca o movimento revolucionário de massas na cidade em um estado de isolamento político, senão em uma posição passiva. O movimento de massas urbano perde seu caráter legal e defensivo e se separa das massas espontâneas. O engano do excesso de expectativas é rapidamente sucedido pela frustração e desânimo.


A linha oportunista de direita de levar a cabo insurreições camponesas fora de hora para se pular diretamente para uma insurreição urbana foi precipitada como putchismo e reformismo no movimento camponês. O movimento camponês foi mergulhado em uma forma de luta principalmente legal e aberta. A luta armada foi depreciada para uma posição secundária e apenas de apoio ao movimento de massas principalmente legal. As vitórias de duas décadas de luta agrária perderão o sentido e os latifundiários serão exaltados.


Como resultado do oportunismo de “esquerda” e direita, graves desorientação e recuos se desenvolveram na condução de nosso trabalho de massas no campo e nas cidades. Muitos lugares foram abandonados e numerosas organizações de massas, órgãos do poder político e unidades do Partido foram dissolvidos. Formas de exploração feudais e semifeudais ainda mais retrógradas e opressoras voltaram, junto à criminalidade. O desenvolvimento do trabalho de massas nas cidades perdeu vigor como resultado de campanhas e ações de massas que tendiam a desgastar o povo, junto a ações partisans putchistas destinadas a incitar a insurreição.


Para recuperar forças, é necessário repudiar cabalmente a linha oportunista de “esquerda” do aventureirismo militar e da insurreição urbana, assim como o outro erro oportunista de direita de capitulacionismo, parlamentarismo e reformismo.


3. Como aplicamos a linha revolucionária classista no trabalho de massas?


A linha revolucionária classista distingue os verdadeiros amigos da revolução dos verdadeiros inimigos. Apoia-se nas classes e forças mais básicas enquanto convence e se une às forças médias para isolar os inimigos obstinados. Este princípio está de acordo com a linha das massas e a linha política do Partido.


De acordo com a linha revolucionária classista, enfatizamos, em nosso trabalho de massas como um todo, as massas trabalhadoras. A linha da revolução democrático-popular, por outro lado, estabelece que a principal preocupação do Partido é com o trabalho em massas no campo, particularmente entre as camadas dos camponeses pobres, trabalhadores assalariados rurais e camponeses médios de estrato inferior.


Em cada local, é necessário conhecer a composição de classe da população; determinar as classes revolucionárias e progressistas, as forças médias e os reacionários; e com base nisso, tentar um trabalho de massas que dê ênfase às forças de massas mais básicas e numerosas em qualquer escopo considerado.


Para fortalecer ainda mais o movimento das massas trabalhadoras, é necessário fazer avançar o movimento das mulheres e dos jovens. Nas cidades, é preciso dar atenção particular ao trabalho nas camadas jovens estudantes, professores e funcionários públicos, que são os setores mais concentrados e mais ativos da pequena burguesia.