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O cenário da vacinação no Brasil e a política genocida de Bolsonaro-Pazuello



Em 12 de janeiro deste ano, publicamos neste site um texto denunciando os descalabros de Bolsonaro e Pazuello na condução da política de imunização contra o vírus da Covid-19. Naquele momento, denunciávamos o atraso do governo brasileiro em iniciar a vacinação de nossa população – um atraso considerável, tendo em vista que em dezembro de 2020 mais de 50 países já haviam iniciado seu processo de imunização em todo o mundo, inclusive nações vizinhas como a Argentina.


Apenas em 17 de janeiro teve início o processo de vacinação da população brasileira. Desde então, quase um mês depois, muito pouco foi feito. Aproximadamente 4,7 milhões de brasileiros foram vacinados, algo em torno de 2,2% da população.


O Chile, em comparação, conseguiu vacinar 9,7% de sua população, e os Emirados Árabes Unidos 49,6%. Evidentemente, os países imperialistas e seus aliados ocupam posições de liderança na corrida pela vacinação: Israel já vacinou 71% de sua população, o Reino Unido 21% e os Estados Unidos da América 14,5%. Os dados são site Our World in Data.


Ainda que o Brasil não esteja entre as piores posições no ranking mundial de vacinação, seu atraso é evidente e seu desempenho é inaceitável, como veremos após alguns fatores serem considerados. Em comparação com outros países latino-americanos, asiáticos e principalmente africanos, o Brasil teve acesso relativamente privilegiado às doses de imunizantes contra o novo coranavírus. Isso aconteceu, ironicamente, por conta do péssimo desempenho do país durante a pandemia, devido às políticas genocidas conduzidas pelo consórcio Bolsonaro-Pazuello.


Como o Brasil manteve a posição de segundo país com maior número de casos absolutos da Covid-19 e o quarto em casos por 1 milhão de habitantes, tornou-se um país escolhido por diversos desenvolvedores de vacinas para a aplicação de testes em larga escala. Isso garantiu alguma facilitação no fechamento de acordos para compra e até mesmo de produção doméstica de vacinas, a exemplo dos acordos fechados entre o consórcio AstraZeneca-Oxford com a Fundação Fiocruz e entre a Sinovac e o Instituto Butantan.


Diversos países africanos e asiáticos, que tiveram um bom desempenho no combate e controle da pandemia, apesar de todas as dificuldades que enfrentam em comparação com países centrais do capitalismo, não tiveram as mesmas possibilidades de acordos que o Brasil, e estão enfrentando uma inaceitável escassez de vacinas, simplesmente porque não conseguem acessá-las no mercado internacional.


Voltando ao Brasil, o segundo aspecto a ser considerado é o fato de que o Brasil dispõe de um parque industrial, ainda que reduzido, e de instituições capazes de produzir as vacinas, bem como um Sistema Único de Saúde com capilaridade no território, experiência e capacidade técnica de destaque mundial.


Mesmo assim, o país começou a vacinar com meses de atraso em comparação com outros países em piores condições e menos tradição em políticas de imunização que o nosso. Lembremos ainda que nosso país teve evidentes dificuldades diplomáticas em conduzir a negociação com fornecedores na China – país constantemente atacado pela xenofobia característica da famiglia Bolsonaro e seus sequazes – e a Índia.


Até o presente momento, o Brasil conseguiu iniciar a imunização de cerca de 5 milhões de pessoas em quase um mês de vacinação. Segundo José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da USP, o Brasil, com suas mais de 40 mil salas de vacinação, poderia aplicar em média 2 milhões de doses por dia, desde que dispusesse das vacinas em quantidade suficiente.


Essa inépcia diplomática, misturada com a falta de vontade política do governo federal, portanto, continua causando atrasos na política de imunização e custando a vida de inúmeros brasileiros, e isso não é mais do que um capítulo na história desse genocídio promovido por todas as forças que compõem o governo de Bolsonaro.


Os empecilhos para a continuidade do processo de vacinação estão longe de terminar. Segundo a epidemiologista e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI), a doutora Carla Domingues, o Brasil poderá interromper completamente a aplicação de novas doses por até duas semanas por conta da falta de insumos. Essa é uma perspectiva para os próximos dias, em especial para capitais como Manaus e Rio de Janeiro.


Segundo pesquisa realizada pela Economist Intelligence Unit (EIU), instituição de pesquisa e análise da revista The Economist, existe a projeção de que o Brasil só irá finalizar a imunização de sua população em meados de 2022, um semestre mais tarde do que está prometendo o Ministro da Saúde e general da ativa das Forças Armadas, Eduardo Pazuello.


Mas projeções internas de cientistas na linha de frente do combate à pandemia em nosso país indicam um cenário ainda pior. Eles afirmam que, caso não haja uma mudança no ritmo de aquisição de insumos para a produção de novas doses, só alcançaremos um índice de 70% de imunização no início de 2024.


É um fato que existe uma desigualdade mundial na distribuição de vacinas, fato amplamente denunciado por autoridades sanitaristas em todo o mundo, a exemplo do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que afirmou que o “mundo está à beira de um fracasso moral catastrófico, e o preço desse fracasso será pago com a vida e o sustento dos países mais pobres”.


Mas, ao mesmo tempo, no caso específico do Brasil, sobretudo porque dispomos de algumas condições favoráveis em comparação com outros países do terceiro-mundo, existe também uma política por parte do governo federal para dificultar o combate à pandemia e desperdiçar as potencialidades da nação brasileira. Em parte por incompetência, em parte por cálculo político deliberado.


Tudo isso apenas reforça o que já apontamos no último texto publicado sobre este assunto: o Brasil (e todas as nações subjugadas da Ásia, África e América Latina) precisa urgentemente conquistar a verdadeira independência política e econômica frente às potências imperialistas e, de maneira mais especifica e imediata, fortalecer a capacidade de produção de insumos de instituições nacionais estratégicas como a Fiocruz e o Butantan.


São tarefas que exigem, imediatamente, a derrubada do governo Bolsonaro e a retirada dos militares de todos os cargos que foram ocupados por eles no Estado brasileiro, a começar pela vice-presidência; e que não podem ser levadas até as suas últimas consequências nos marcos da estrutura econômica e institucional existente.

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