A vacinação e os descalabros de Bolsonaro e Pazuello



Enquanto mais de 50 países já começaram a vacinar suas populações em dezembro, garantindo mais de 17 milhões de pessoas imunizadas em todo o mundo, a campanha nacional de imunização no Brasil continua marcada por incertezas. Entre a incompetência de Pazuello e dos militares que tomaram o Ministério da Saúde e os cálculos e disputas políticas mesquinhas entre o presidente e seus rivais, continuamos sem uma data para o início das vacinações e sem a garantia de que teremos os insumos necessários para imunizar nosso povo.

Vejamos alguns dos descalabros de Bolsonaro e Pazuello na condução dessa questão. Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que a vacinação é uma medida sanitária que possui caráter essencialmente coletivo. Ainda que a aplicação da vacina seja feita individualmente, só é possível restringir a circulação do vírus quando uma grande porcentagem da população está imunizada. Sem essa proteção coletiva, a vacina não será capaz de controlar a pandemia, e mesmo aqueles indivíduos que foram vacinados continuarão, em alguma medida, sujeitos ao perigo da contaminação.


A mobilização coletiva e a conscientização da população são objetivos fundamentais para que o programa de imunização tenha algum êxito – e não somente para a imunização, basta vermos a importância e efetividade da consciência coletiva durante todo o combate à pandemia em países como Cuba, Coreia Popular e Vietnã, cujas populações não possuem nenhum “espírito coletivo”, como querem nos fazer crer algumas interpretações. Simplesmente possuem governos populares que são capazes de mobilizar o seu povo em torno de um planejamento científico orientado para o enfrentamento da crise sanitária.


Em nosso país, tragicamente, o que vemos é o avesso disso. A principal liderança de turno do Estado reacionário, o presidente Jair Bolsonaro, assumiu desde o princípio um discurso e uma postura contrária à vacinação da população e à toda e qualquer forma de enfrentamento à crise que estamos passando. Bolsonaro espalhou desinformação, insegurança e assumiu posturas que desincentivam a consciência e a mobilização coletiva. Atuou, com diligência, a favor da pandemia e do genocídio de nosso povo.


O papel de qualquer líder e do próprio Estado, em uma situação como a que nos encontramos, seria a de orientar sobre a importância da imunização e incentivar que o máximo de pessoas se vacinassem. Agindo no sentido exatamente oposto, não foram poucas as vezes que o presidente insinuou que as vacinas disponíveis não seriam seguras, sem apresentar provas ou indícios a favor de suas afirmações. Também não mobilizou nenhum órgão, nem investiu um centavo para realizar uma campanha de conscientização; pelo contrário, desde que assumiu, reduziu em 21% o orçamento de tais campanhas. O resultado é que entre agosto e dezembro de 2020, o índice de brasileiros que declararam que não pretendem se vacinar cresceu de 9 para 22%, segundo pesquisas do Datafolha.

Os descalabros da dupla Pazuello-Bolsonaro seguem com o fracasso na aquisição dos insumos. Com relação às agulhas e seringas necessárias, o governo lançou uma licitação para aquisição de 331 milhões de unidades, considerado o número necessário para as primeiras fases do programa de imunização. Conseguiu apenas 7,9 milhões, pouco mais de 2% do que se esperava. Esta é uma indesculpável situação que resulta ao mesmo tempo da incompetência flagrante de Pazuello, que só abriu tal licitação no meio de dezembro, e da lastimável condição da indústria nacional, incapaz de produzir na escala exigida pela situação, mas confiante o bastante para cobrar valores de monopólio, acima do que é praticado no mercado.


A aquisição das vacinas em quantidade necessária para a imunização de 70% da população brasileira – considerado o mínimo necessário para que se crie uma imunidade comunitária suficiente para frear a disseminação do vírus – só foi garantida com o anúncio recente da compra de 100 milhões de doses da Coronavac, a serem produzidas pelo Instituto Butantan ao longo deste ano. Somada com as outras vacinas adquiridas, isso totalizaria 354 milhões de doses que poderiam ser aplicadas em 2021, o que seria, em hipótese, um número suficiente – isso desde que não se repita o episódio dos testes-PCR, que estragaram aos milhões em depósitos do governo ao invés de serem disponibilizados em unidades de saúde para o povo brasileiro.


As discussões sobre a aquisição das vacinas, na maioria das vezes, se reduziram a uma troca de acusações eleitoreiras entre Bolsonaro e seus rivais políticos mais imediatos. A postura da grande mídia se resumiu a acusar o presidente e seu ministro militar de incompetência na hora de garantir a importação de vacinas dos monopólios estrangeiros. Novamente, pouco foi comentado sobre o essencial: o necessário fortalecimento e o aumento da produção de vacinas pelos institutos nacionais, como o Butantan e a Fiocruz, ambos ameaçados pela política entreguista que unifica todos os atores no comando da alta institucionalidade brasileira.


O Brasil possui uma tradição em políticas de imunização e um sistema público de saúde que, apesar de suas inegáveis deficiências, possui uma capilaridade pelo território nacional que não se encontra com facilidade. Mesmo com todas as limitações estruturais, graças ao SUS, teríamos condições de estarmos muito mais avançados na proteção gratuita de nossa população. Claramente, não é esse o objetivo do governo Bolsonaro e do séquito de militares que o acompanham.


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