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História das Três Internacionais

"Sahel, sangue na areia"

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há 2 minutos
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Há mais de uma década, o centro do Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger) tornou-se uma das principais frentes de guerra do terrorismo wahabista, onde operam duas poderosas khatibas em busca de estabelecer um emirado: o Jama’at Nasr al-Islām wal Muslimin (Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos), ou JNIM, que se transformou na franquia da al-Qaeda mais poderosa do continente, com cerca de 8 mil combatentes, e o Daesh para o Grande Saara, agora denominado ISSI-Sahel, com pouco mais de dois mil.

 

Desde 2012, as cifras da guerra superam os 10 mil mortos, já que a cada ano aumentam em milhares, tanto de civis quanto de militares, o que provocou o deslocamento forçado de mais de cinco milhões de pessoas, além de arrasar aldeias e plantações agrícolas, sacrificar milhares de cabeças de gado, ocupar cidades e bloquear o abastecimento de produtos essenciais e combustíveis em amplos setores urbanos das três nações. O sequestro extorsivo tornou-se uma de suas muitas fontes de financiamento, entre as quais também figuram o tráfico de pessoas, o encarregar-se da proteção das rotas usadas pelo narcotráfico que, do golfo da Guiné, chega à costa sul do Mediterrâneo para seguir rumo à Europa, e ainda todo tipo de contrabando. Esses grupos também recrutaram compulsoriamente milhares de jovens, ao passo que as mulheres costumam ser transformadas em escravas sexuais ou vendidas a redes de traficantes. Tudo isso foi utilizado para sua expansão rumo aos países litorâneos do golfo. Talvez um dos fatos que melhor testemunham a perversidade dessas organizações seja o que ocorre há pelo menos três anos no norte de Burkina Faso, onde o governo central se viu obrigado a fechar praticamente todas as escolas da região norte, onde atuam não só o JNIM e o ISSI-Sahel, mas também um grupo autóctone fundado em 2016, autodenominado Ansarul Islām (em português, Defensores do Islã), depois que professores foram assassinados por cumprirem sua tarefa.

 

Suas ações nesses três países aumentaram exponencialmente a partir de 2020, após a sucessão de movimentos nacionalistas, encabeçados por jovens militares, que derrubaram governos pró-ocidentais e corruptos, que utilizavam os recursos do Estado em benefício pessoal em vez de investi-los na guerra contra o terrorismo. Após os golpes, os novos governos de Bamaco, Uagadugu e Niamei seguiram caminhos semelhantes quanto a repensar a guerra, expulsar tanto empresas quanto missões militares francesas e norte-americanas, pôr fim aos abusos que estas cometiam na exploração de seus recursos naturais — protegidos por essas mesmas forças, que ao mesmo tempo atuavam como forças de ocupação — e às pressões sobre as políticas internas desses governos.

 

Prevendo o novo cenário sem forças militares estrangeiras, Mali, Burkina Faso e Níger formaram, a partir de 2023, a Aliança dos Estados do Sahel (AES), de caráter defensivo mútuo, solicitando ainda a assistência militar russa, encarnada no Africa Corps, oficialmente Corpo Expedicionário Russo (REK), que substituiu o antigo e controverso Grupo Wagner, auxiliando os exércitos da AES principalmente no treinamento de pessoal, na inteligência e na vigilância por satélite e territorial.

 

O aumento das ações terroristas coincidiu com a expulsão das forças militares ocidentais e o fechamento de explorações mineiras nessas nações, “fenômeno” que muitos analistas interpretaram como indício de que o renovado impulso dos mujahideens se baseia na assistência militar, por baixo dos panos, de franceses e norte-americanos, e ultimamente também de agentes ucranianos, que se somaram ao financiamento que os takfiristas recebiam desde o início, por volta de 2012, das monarquias do Golfo Pérsico, fundamentalmente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU). Este último país está empenhado em se tornar um fator de poder na África, sustentando e financiando diferentes khatibas que operam em vários países do continente, e também participando a favor das Forças de Apoio Rápido (FAR), um dos dois lados imersos na guerra civil do Sudão desde abril de 2023. Abu Dabi está intervindo fortemente na Somália e no conflito regional da Etiópia, que parece caminhar para um novo capítulo da guerra civil entre o Estado central e a província do Tigré, como a que se estendeu entre 2020 e 2022, embora desta vez a Kililoch rebelde conte com o apoio de outras seis regiões etíopes, que formaram a Aliança para a Sobrevivência das Forças Populares da Etiópia (Tsimdo), à qual se juntou, nas últimas semanas, o poderoso exército eritreu, conferindo ao conflito um perfil internacional, ao qual poderia somar-se, em primeira instância, o Egito, por contas pendentes com Adis Abeba, a partir da significativa redução do fluxo do rio Nilo após a entrada em operação da Grande Represa do Renascimento Etíope, um investimento chinês de mais de 5 bilhões de dólares.

 

A nova guerra do Sahel

 

Desde agosto passado, recrudesceram os confrontos entre o JNIM e o Daesh-Sahel, iniciados em 2019. Desta vez, os choques ocorreram na fronteira de Burkina Faso com o Mali, e nas proximidades do Níger começaram a ser registrados combates, não apenas por questões territoriais, mas também doutrinárias. O JNIM se mostra menos rigoroso na aplicação da Sharia (lei islâmica), diferentemente de seus rivais, que a aplicam com todo o peso que essas leis impõem, inclusive aos civis. Uma diferença que foi fundamental na divisão entre o Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) na Nigéria, e que provocou a morte dos dois emires mais importantes de ambas as organizações: o histórico emir do Boko Haram, Abubakar Shekau, em maio de 2021, e, em agosto desse mesmo ano, Abu Musab al-Barnawi, líder do ISWAP.

 

Essas diferenças impediram qualquer aliança e provocaram confrontos em outros cenários, como na Síria, no Iraque, na Líbia, na Nigéria ou na Somália. O que, em qualquer contexto, provocou e continua provocando deserções de combatentes de um lado para o outro.

 

Na sexta-feira, 9 de outubro, em Gonadaouri, na província burkinesa de Oudalan, conhecida por suas reservas de ouro, principalmente as de Essakane, a maior mina de ouro do país, segundo fontes do Daesh, ocorreu um combate que teria deixado mais de 400 mortos entre os combatentes do JNIM, além de terem sido confiscadas 100 motocicletas e centenas de armas.

 

As cifras, que como sempre nesses casos são extremamente aleatórias, além de outras fontes, confirmam que o número de mortos de ambos os lados na batalha foi elevado, e registram também a morte de um emir do Daesh. Enquanto isso, o JNIM não comunicou nada sobre esses confrontos. Se confirmada essa informação, Oudalan se tornaria o confronto mais sangrento já registrado entre as duas organizações em qualquer outro contexto, nem mesmo na Síria, que foi o ponto mais quente das guerras entre khatibas.

 

Independentemente dos resultados reais desses confrontos, dos quais, é verdade, participaram centenas de milicianos, isso dá a dimensão do verdadeiro volume do problema de segurança que enfrentam os países do Sahel, e não apenas os que pertencem à AES.

 

Ambas as organizações ocupam e disputam não só a conquista do mesmo espaço geográfico, mas também os mesmos núcleos de recrutamento, particularmente da etnia fulani, pastores transumantes. Essa “moderação” do JNIM, que já demonstrou nas aldeias e cidades que ocupou, permitiu-lhe pelo menos a intenção de fazer um apelo aos civis por unidade contra o governo malinês do general Assimi Goïta.

 

Essas políticas do JNIM geraram maiores diferenças com o Daesh-Sahel, que mantém suas posturas intransigentes e uma atuação muito mais violenta, incluindo a população civil.

 

No início de setembro, ocorreu a batalha em Kacham, a cerca de trinta quilômetros ao norte da fronteira com o Mali. Nessa ocasião, o Daesh afirma ter assassinado mais de 200 combatentes do JNIM e, depois de capturar cerca de trinta, tê-los executado.

 

Um dos fatores que pode ter precipitado essa nova fase do confronto foi a execução, em meados de julho, por tributários da al-Qaeda, de Sadou Samahouna, um de seus comandantes em Burkina Faso, que, após renunciar em janeiro, juntou-se ao Daesh. Isso desencadeou uma cadeia de vinganças e represálias, que foram elevando o conflito até a magnitude que tem agora. Desde seu início, em 2019, o conflito já registra mais de 320 confrontos, com um saldo de 2.200 mortos, sem contar os mortos ocorridos desde julho último.

 

Esse agravamento do conflito entre os terroristas não deixa de ser uma boa notícia para as nações da AES. Enquanto isso, algumas fontes dizem que tanto o presidente malinês, general Goïta, quanto seu par burkinês, capitão Ibrahim Traoré, teriam incentivado pactos informais de não agressão com o Daesh, para enfraquecer o JNIM, em uma guerra que encharca de sangue as areias do Sahel.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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