"O céu dos pobres, nós o faremos aqui na terra"

há 8 minutos
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De um simples doomscrolling, caí em um ponto polêmico de debate: “Jesus era comunista?”. É interessante ler discussões de gente aleatória na internet, principalmente quando acabam virando longas trocas de argumentos, com história, teologia e política.
Embora eu provavelmente já soubesse a resposta, o debate continuou interessante porque havia pontos que precisavam ser esmiuçados: o que significa “comunista”? Qual é o contexto histórico da pregação de Jesus? E, acima de tudo, como devemos entender a religião a partir de uma perspectiva materialista?
Jesus era comunista?
Antes de discutir se Jesus era comunista, é importante perguntar: como surgiu a religião?
Do ponto de vista materialista, a religião não caiu do céu como ideia. Ela surgiu das condições concretas da vida humana e da sociedade: primeiro, da capacidade limitada que o ser humano tinha, em outros tempos, de compreender e controlar as forças da natureza; depois, também de forças sociais que parecem separadas do indivíduo e acima dele.
Em uma parte da discussão, afirmou-se que Jesus frequentemente condenava a ganância e o apego à riqueza. Ele valorizava a partilha e a ajuda ao próximo, especialmente aos pobres e oprimidos. Nas primeiras comunidades cristãs descritas em Atos, há exemplos de cooperação e de partilha voluntária de bens.
Esses pontos são importantes, mas ainda não bastam para chamá-lo de comunista.
Primeiro, Jesus não poderia proclamar o marxismo na forma que conhecemos hoje. O socialismo científico ainda não existia, nem os conceitos que, mais tarde, foram sistematicamente construídos por Marx e Engels sobre a luta de classes, a produção capitalista e a propriedade privada dos meios de produção. Jesus também não traçou um programa de revolução proletária nem de transformação do modo de produção.
Segundo, nem toda partilha comunitária é comunismo. A partilha coletiva de bens pessoais pode ser uma forma de caridade e de bayanihan (solidariedade comunitária), mas não muda automaticamente a estrutura da produção. O comunismo não é simplesmente um apelo a “ser bom e partilhar”. Ele está enraizado nas relações materiais de produção, na abolição da propriedade privada dos meios de produção como base da exploração e na luta de classes rumo a uma sociedade sem classes.
A causa é a falta de fé?
Como alguém que cresceu em uma família religiosa, há muito tempo percebo essa visão idealista como forma de lidar com as dificuldades da vida.
Quando alguém passa por aperto, dizem: “reze”. Quando alguém adoece: “talvez você não esteja indo o bastante à missa”. Quando os problemas se sucedem: “confie em Deus”.
Mas por que raramente se perguntam: por que o salário é baixo? Por que os trabalhadores são contratados de forma precária? Por que a comida e os remédios são tão caros? Por que os serviços sociais são insuficientes? Por que os lucros das corporações são tão enormes enquanto os trabalhadores empobrecem?
Foi aí que me tornei mais cético em relação à religião, principalmente ao estudar história. Nas várias vezes em que fiz e ministrei o “Curso Breve sobre a Sociedade e a Revolução Filipina” (MKLRP), ficou claro para mim como o colonialismo espanhol usou a religião como um dos meios de seu domínio.
A religião não está separada da estrutura material da sociedade colonial. Junto com a conquista da terra e o controle da riqueza veio o controle das consciências. A religião serviu para justificar a ordem colonial.
Nessa perspectiva, um problema social se transforma facilmente num problema pessoal de fé. Em vez de buscar as causas concretas do sofrimento, a pessoa passa a ser medida pela firmeza de sua crença, pela dedicação às orações ou por ser uma boa cristã. Quando já não se enxerga nenhum apoio físico, seja pessoa ou instituição, é fácil entender por que se forma a crença em um Deus onisciente, onibenevolente e onipotente: um ser que tudo sabe, tudo ama e tudo pode.
É aqui também que o papel da religião se torna complicado. Ela pode ser usada para fazer as pessoas aceitarem a ordem vigente, ensinando-as a suportar, a obedecer e a encarar sua condição como destino.
Mas a fé não é automaticamente um instrumento da classe dominante. Ela também pode ser a linguagem dos oprimidos para nomear seu sofrimento, formar comunidade e expressar seu desejo de mudança.
O céu dos pobres, nós o faremos aqui na terra
Em uma integração com a comunidade, assisti a uma missa muito diferente das que eu estava acostumado a frequentar. Em vez de numa igreja de mármore, foi celebrada num barraco. Em vez de hóstia, pãozinho (pandesal). Em vez de vinho, café.
Mas não foi só a forma que foi diferente. A mensagem também era outra, assim como as raízes de onde vinha. Na missa, mostrou-se a legitimidade do bungkalan (o cultivo coletivo da terra), de que a fé pode fazer parte do reconhecimento e da luta pelo bem-estar dos oprimidos. Nessa visão, Jesus não fica confinado à igreja. Jesus está nas áreas de pesca e nos campos, junto com o povo comum. Ele está do lado dos oprimidos e luta contra os opressores.
Depois da missa, os moradores (mulheres, homens e jovens) compartilharam suas próprias experiências. O que se ouviu não foi apenas um sermão, mas o cotidiano de pobreza, opressão e luta.
A presença de Jesus ganhou outro significado. Ele já não era apenas o Jesus que ensina a suportar e promete recompensa na outra vida. Passou a ser também o Jesus que se põe ao lado dos pobres, convive com os pobres e oprimidos e desafia os abusivos e exploradores. Assim, a oração não precisa ser uma espera para chegar ao céu. Ela pode ser o ponto de partida da ação aqui na terra.
Isso é importante porque, no ensino cristão, o céu é descrito como um estado perfeito, livre de sofrimento, dor e carência. Para quem vive a pobreza extrema aqui na terra, essa promessa é muito poderosa. Ela justifica o sofrimento na terra enquanto alimenta a esperança de chegar ao céu mais tarde. A recompensa pela pobreza é adiada para a outra vida.
Assim, em vez de perguntar por que são pobres, quem controla a riqueza e o poder e como sua condição pode mudar, as pessoas podem ser induzidas a aceitar a situação atual e um sistema social que, supostamente, não precisa ser mudado.
Aquela missa diferente me mostrou que a fé não precisa ter esse significado. Se Jesus está nas áreas de pesca e nos campos, se ele está do lado dos oprimidos e luta contra os opressores, então a fé também pode ser uma ponte para reconhecer a realidade e agir para transformar a condição das massas.
Não precisamos transformar Jesus em marxista para reconhecer seus ensinamentos que condenam a ganância e valorizam o próximo e os pobres.
Aprendi com essa experiência que uma pessoa pode começar pela oração, mas não termina nela. Afinal, a transformação da sociedade não virá de um milagre. Ela não se espera de ninguém. Não desce do céu. As próprias massas farão a história: as massas agirão para mudar sua condição e a sociedade, agora, aqui na terra, e não no céu.
Do Liberation











































































































































