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História das Três Internacionais

"Culpar o sistema, não as crianças"

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  • há 8 minutos
  • 6 min de leitura

 

Como pais, ou mesmo como cidadãos preocupados, ouvir notícias sobre atiradores em escolas pode ser chocante. Não tememos apenas que nossos filhos se tornem vítimas da violência, mas também que se tornem os agressores.

 

Duas pessoas foram baleadas e mortas em 22 de junho de 2026, em Tacloban, por colegas de escola de 14 e 15 anos. Enquanto toda a nação ficava perturbada com o ocorrido, as autoridades foram rápidas em tirar conclusões — os jovens envolvidos teriam sido condicionados a matar por jogos on-line, que por isso deveriam ser banidos; e a idade de responsabilidade penal deveria ser reduzida para 10 anos. Como se esses fossem os únicos fatores que levam uma criança a cometer atos criminosos.

 

A cultura de violência e impunidade no país tornou os jovens e as crianças suscetíveis à violência e à absorção de influências decadentes.

 

De início, sejamos claros: não podemos culpar as crianças. O principal culpado é o sistema em decomposição em que vivemos — uma sociedade que possibilita esse tipo de violência e aqueles que a perpetuam e dela se beneficiam.

 

Como diz o velho ditado, “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”.

 

Connie Ledesma, chefe do Escritório Especial para a Proteção da Criança (SOPC) da Frente Democrática Nacional das Filipinas (NDFP), afirmou em comunicado: “Todos os dias, as crianças testemunham e vivenciam os efeitos da pobreza, da violência estatal, da corrupção, da desigualdade social, da criminalidade, do abuso doméstico e da ausência de oportunidades reais para seu desenvolvimento. Essas condições criam um ambiente em que a violência se reproduz e se internaliza”. O comunicado foi divulgado após o tiroteio em Tacloban. O SOPC está vinculado ao Escritório de Direitos Humanos da NDFP e foi criado após a publicação da Declaração e Programa de Ação da NDFP para os Direitos, Proteção e Bem-Estar da Criança, em abril de 2012.

 

Atender às necessidades básicas

 

A pobreza extrema existe no país. Filhos de famílias sem renda estável e digna ficam suscetíveis a diversas influências enquanto os pais estão ocupados demais buscando trabalho e comida para cada refeição. Pais sob pressão econômica podem descontar facilmente nos filhos ou simplesmente não ter forças para passar tempo com eles. Outros não têm alternativa a não ser deixar suas famílias para trabalhar no exterior.

 

Pior: não apenas os pais, mas as próprias crianças passaram a ser trabalhadoras, sem-teto, separadas das famílias; há crianças vítimas de evacuações forçadas, bombardeios, órfãs em razão de execuções extrajudiciais; há crianças vítimas de redes de drogas e prostituição, e outras formas de exploração e opressão às quais os adultos também estão sujeitos.

 

Em uma sociedade que valoriza seus cidadãos, pais ou responsáveis devem ter renda e meios de subsistência adequados para alimentar toda a família. Não precisariam se preocupar com a comida ou as despesas dos dias seguintes. As famílias devem ter moradia digna, acesso a serviços públicos acessíveis, como água limpa e barata e eletricidade. Toda família deveria ter acesso gratuito a serviços de saúde e educação eficientes. As famílias filipinas devem se sentir seguras e protegidas — sem ameaças de despejo ou demolição, sendo donas da terra que cultivam ou onde vivem, com segurança no trabalho. Em caso de desastres, deve haver resposta imediata, e a reabilitação deve estar disponível para proteger as crianças e prevenir mais danos e transtornos. As famílias devem fazer parte de uma comunidade solidária, com senso de pertencimento.

 

Nas escolas, os professores devem receber salários dignos, carga horária reduzida e estabilidade no emprego. De modo geral, a educação deveria receber um orçamento maior para resolver o problema crônico da falta de escolas e salas de aula, de pessoal docente e de orientadores educacionais capazes de atender plenamente às necessidades educacionais e também às questões de saúde mental dos estudantes — e não o pagamento de dívidas nem os gastos militares.

 

Mas o país não dispõe de nada disso. A maioria dos filipinos é privada de suas necessidades básicas. As necessidades básicas tornaram-se um direito de poucos. Os serviços sociais foram privatizados, transformando-se em geradores de lucro para bilionários e para a burguesia burocrática.

 

O sistema semicolonial e semifeudal da sociedade e suas estruturas foram construídos para saciar a ganância sem limites das classes dominantes — para oprimir e explorar, e não para sustentar e nutrir as futuras gerações. A desigualdade está profundamente enraizada em um sistema dominado pelo imperialismo, pelo capitalismo burocrático e pelo feudalismo. Esse mesmo sistema gera violência.

 

Cultura de violência e impunidade

 

Por definição, cultura de violência é um ambiente social em que a violência se torna a norma, um modo de vida para resolver conflitos, afirmar poder ou manter a ordem. Trata-se menos de atos violentos individuais e mais das normas, instituições e narrativas compartilhadas que justificam a violência e a tornam rotineira e invisível.

 

Como instrumento das classes dominantes, o Estado é intrinsecamente violento. Ele usa a força para preservar o status quo e proteger os interesses dos latifundiários, da burguesia compradora e da burguesia burocrática. O uso da força também é normalizado por meio do engano e do controle das narrativas.

 

A violência concreta das execuções extrajudiciais — seja no âmbito do “tokhang” ou no assassinato de ativistas —, os repetidos bombardeios de comunidades indígenas e camponesas, somados ao assédio e às ameaças para abrir caminho a projetos corporativos, são exemplos da normalização da violência. Isso é reforçado ao rotular vítimas ou outros indivíduos como “terroristas” para justificar ou instigar mais violência. O Estado consolidou essa lógica por meio das Forças Armadas das Filipinas e da Polícia Nacional Filipina, e da criação da Força-Tarefa Nacional para Encerrar o Conflito Armado Comunista Local (NTF-ELCAC).

 

Diversas plataformas de mídia e a proliferação de fazendas de trolls reforçam as narrativas do Estado — por exemplo, chamando revolucionários e civis mortos indistintamente de “kornbip”, ou carne enlatada. A mensagem é: se os oprimidos e explorados lutarem contra o sistema, estarão mortos.

 

A cultura de violência e impunidade no país tornou os jovens e as crianças suscetíveis à violência e à absorção de influências decadentes. Isso, somado à ofensiva ideológica imperialista, também promoveu entre eles um estilo de vida individualista, violento, mesquinho, de curto prazo e acelerado. Nenhuma quantidade de punição ou responsabilização penal resolverá o problema.

 

Assim, “o debate público não deve se reduzir aos atos isolados de crianças individuais. A atenção deve ser voltada, sim, às condições sociais, econômicas, políticas e culturais que reproduzem o comportamento violento entre os jovens”, afirmou Ledesma.

 

O programa da NDFP vislumbra uma sociedade em que toda criança tenha acesso a nutrição adequada, educação de qualidade, saúde, moradia, lazer e um ambiente seguro, propício ao seu pleno desenvolvimento físico, intelectual, emocional, cultural e moral. Reconhece que a proteção genuína das crianças exige a eliminação das causas profundas da pobreza, da exploração, da discriminação e da violência, afirmou Ledesma.

 

A revolução do povo cuida dos jovens e das crianças

 

Para a Frente Democrática Nacional das Filipinas, o único caminho para salvar a próxima geração é travar a guerra popular que desmantelará o sistema semifeudal e semicolonial e construirá um Estado verdadeiramente voltado ao cuidado das crianças. Ledesma destacou: “A questão central não é como punir as crianças com mais rigor, mas como desmantelar a cultura de impunidade e violência perpetuada pelo sistema dominante.”

 

Nas áreas em que órgãos revolucionários de poder político popular e organizações de massa foram desenvolvidos, Ledesma disse que há esforços para promover o bem-estar das crianças por meio de campanhas de alfabetização, educação de base comunitária, programas de saúde, atividades culturais e mecanismos coletivos de proteção infantil. Esses esforços buscam garantir que as crianças possam desenvolver seus talentos, participar ativamente da vida social e crescer como membros socialmente conscientes e responsáveis da comunidade.

 

O movimento revolucionário cria coletivos infantis. Os jovens são organizados na Kabataang Makabayan (KM, Juventude Patriótica), tanto nas cidades quanto no campo. Os coletivos infantis e a KM são espaços para que crianças e jovens vivenciem uma participação significativa em suas comunidades e na revolução popular. Isso os desenvolve e amplia suas capacidades para que se tornem adultos responsáveis e membros produtivos da sociedade — revolucionários.

 

“O programa da NDFP para uma Filipinas liberada vislumbra uma sociedade em que toda criança tenha acesso a nutrição adequada, educação de qualidade, saúde, moradia, lazer e um ambiente seguro, propício ao seu pleno desenvolvimento físico, intelectual, emocional, cultural e moral. Reconhece que a proteção genuína das crianças exige a eliminação das causas profundas da pobreza, da exploração, da discriminação e da violência”, afirmou Ledesma.

 

Uma sociedade que cuida das crianças é, de fato, possível.

 

Por Mia Andres, no Liberation

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