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"Mexendo com nossos cérebros: determinismo biológico e contrarrevolução"

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  • há 4 minutos
  • 5 min de leitura

Sem ideias, os fascistas estão vindo atrás dos nossos cérebros. Não estou brincando — em um artigo da primeira edição do Philippine Journal on National Security, o Prof. Teodoro Lloydon Bautista, DPA, fez uma afirmação ousada: as pessoas vulneráveis ao chamado “aliciamento terrorista” ou à radicalização são principalmente produto de cérebros estruturados de forma diferente. Para Bautista, essa seria a peça que faltava para explicar por que os “grupos extremistas muçulmanos” e a CPP-NPA-NDF persistem há tantos anos.

 

Como bióloga, isso é risível. Ainda mais quando se percebe que todos os artigos dessa revista, incluindo o de Bautista, foram chancelados por ninguém menos que o próprio Eduardo Año, da tristemente célebre NTF-ELCAC — o que significa que os principais arquitetos da contrarrevolução nas Filipinas devem estar levando todo esse lixo muito a sério.

 

A mente sobre a matéria, segundo Bautista

 

Por mais difícil que seja, vamos tentar levar Bautista a sério também. Seu artigo pode ser resumido assim: partindo de uma “revisão bibliográfica abrangente de periódicos revisados por pares, publicações, artigos e outros estudos”, Bautista tenta associar a suscetibilidade ao “aliciamento terrorista” a uma amígdala (estrutura cerebral) maior ou mais ativa e a um córtex cingulado anterior (outra estrutura cerebral) menor ou menos ativo. Depois de resumir os achados de um punhado de artigos científicos que sustentam sua visão, ele conclui que os determinantes usuais do “extremismo” — condição socioeconômica, escolaridade, etnia e afins — são insuficientes para explicar por que as pessoas continuam a se radicalizar. Entra em cena sua “ideia inovadora”: a causa deve ser um cérebro defeituoso. Curiosamente, a conclusão final de Bautista é bastante resignada — afinal, estariam lutando contra a biologia, e “seriam necessários milênios [sic] de evolução natural” antes que essa vulnerabilidade à radicalização fosse eliminada.

 

Pois bem, doutor Bautista, aqui estou eu, uma millennial da evolução natural, revolucionária e também cientista, para tirá-lo dessa miséria resignada. Talvez console o Dr. Bautista saber que seu argumento central e suas conclusões são infundados. Primeiro, a maioria dos estudos citados no artigo trabalha correlacionando certos valores (por exemplo, o tamanho da amígdala) com determinados comportamentos, e qualquer pesquisadora que se preze dirá que correlação não é causalidade. Em outras palavras, só porque duas coisas acontecem juntas não significa que uma cause a outra. O fato de uma parte do corpo ter tamanho diferente em algumas pessoas que fazem coisas semelhantes não constitui, por si só, um dado robusto ou significativo.

 

O artigo de Bautista e a revista endossada pela NTF-ELCAC à qual ele pertence representam uma tentativa de academicizar e higienizar a imagem da contrarrevolução no país.

 

Segundo, os estudos citados nem sequer tratam diretamente do “aliciamento terrorista” ou da radicalização. Por exemplo, nenhum deles acompanha o tamanho da amígdala e, digamos, a eventual filiação a alguma organização “terrorista” ao longo do tempo, para um grupo de indivíduos. (Duvido até que existam estudos assim.) Tudo indica que Bautista simplesmente reuniu uma coletânea de artigos que ligam diferenças na estrutura cerebral a certas atividades e crenças que ele associa à sua ideia de “radical”. Pela seleção de artigos de Bautista, um “radical” seria alguém “conservador”, alguém “dogmático” ou alguém que “desumaniza” pessoas fora do seu grupo. Não fica nada claro como se pode tirar conclusões sobre, por exemplo, os participantes da revolução filipina a partir de um conjunto tão limitado e arbitrário de características.

 

Mas, acima de tudo, o que Bautista faz é um caso de manual de determinismo biológico. Desesperado para encontrar uma explicação para o problema, já com décadas de existência, da “insurgência” e do “terrorismo”, nosso ilustre doutor em administração pública recorreu à biologia humana e à genética. E aí a mágica acontece: uma questão complexa de repente se torna simples. “Cérebros ideologicamente programados” seriam agora o problema, e, como Bautista faz em sua conclusão, podemos então descartar todos os demais possíveis determinantes da radicalização.

 

Talvez para desgosto do Dr. Bautista, o determinismo biológico está longe de ser uma “ideia inovadora”. Na verdade, muitos pesquisadores da biologia construíram carreiras inteiras sobre esse tipo de trabalho. Isso inclui o desacreditado biólogo estadunidense E.O. Wilson, que defendeu posições semelhantes sobre a capacidade de doutrinação e a fé cega como “natureza humana” já nos anos 1970. Outros cientistas também tentaram associar raça e QI, sustentando suas afirmações racistas com supostas explicações “biológicas”. Esse tipo de pesquisa há muito é considerado falho e problemático, mas aparentemente ainda encontra espaço nos recantos acadêmicos reacionários do Philippine Journal on National Security.

 

Se é que serve de algo, o recurso de Bautista ao determinismo biológico reflete o próprio viés que colore sua pesquisa. Ele começa sua investigação já supondo que há algo diferente nos cérebros dos radicais. Não deveria surpreender, então, que ele enxergue padrões onde eles não existem. Variações anatômicas normais entre indivíduos são percebidas como indicadores de predisposição ideológica. Claro que a amígdala do radical é diferente, tem que ser! Mas, se não for a amígdala, será o hipotálamo; ou talvez o cerebelo; ou por que não o fígado? Aqui, a conclusão vem primeiro; os dados e as explicações vêm depois. Em outras palavras, é simplesmente má ciência.

 

Ao envolver seus próprios preconceitos na linguagem estéril e “neutra” da academia, esses acadêmicos ajudam a reforçar os fundamentos ideológicos da reação. O fascismo e a violência da classe dominante são normalizados, enquanto a revolução e seus proponentes são retratados como o problema e como objeto estático de estudo.

 

Tendo em mente a contrarrevolução

 

Podemos dar um passo atrás e enxergar o trabalho de Bautista como parte de um quadro maior. Seu artigo e a revista endossada pela NTF-ELCAC à qual pertence representam uma tentativa de academicizar e higienizar a imagem da contrarrevolução no país. Isso é tudo parte dos esforços contínuos do regime EUA-Marcos Jr. para sustentar a ofensiva contrarrevolucionária, agora sob o Plano de Ação Nacional para Unidade, Paz e Desenvolvimento (NAP-UPD).

 

Sob o NAP-UPD, o Estado reacionário renova sua licença para praticar todas as formas de violência e repressão contra forças progressistas e revolucionárias. O arcabouço é, em grande medida, o mesmo dos planos operacionais de regimes anteriores: a chamada abordagem “limpar, conter, consolidar, desenvolver”, inspirada nos programas de contrainsurgência dos Estados Unidos. Na prática, isso significa um fascismo revigorado, praticado por forças reacionárias contra civis, progressistas e revolucionários por igual — os milhares de casos de execuções extrajudiciais, detenção ilegal, cerco de comunidades (“hamletting”), tortura, guerra psicológica e outras violações já documentadas sob o regime EUA-Marcos Jr.

 

Então, qual é o papel do Dr. Bautista em tudo isso? Seu trabalho, junto com os demais artigos publicados no Philippine Journal on National Security, constitui parte da retaguarda intelectual que sustenta a violência contrarrevolucionária desenfreada. Ao envolver seus próprios preconceitos na linguagem estéril e “neutra” da academia, esses acadêmicos ajudam a reforçar os fundamentos ideológicos da reação. O fascismo e a violência da classe dominante são normalizados, enquanto a revolução e seus proponentes são retratados como o problema e como objeto estático de estudo. Não é de se surpreender que, nesse processo, as conclusões mais vergonhosas da ciência racial e da sociobiologia sejam ressuscitadas por algum acadêmico excêntrico de plantão.

 

Então, graças ao Dr. Bautista, ao menos podemos ter algum consolo em saber que as coisas não andam nada bem para a NTF-ELCAC no front acadêmico. O Estado reacionário está claramente em falta de boas ideias e de gente competente nessa área. E, sinceramente, mesmo que Bautista esteja, de alguma forma, parcialmente certo em suas conclusões, isso pouco me importa — eu ficaria com um cérebro revolucionário e anatomicamente divergente antes que com sua falta de miolos fascista, qualquer dia.

 

Por Cassandra Bigwas, no Liberation

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