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"Sacco e Vanzetti: um crime que gerou protestos no Brasil"



Estamos vendo transcorrer, neste ano, o sexagésimo aniversário de um dos crimes jurídicos mais odiosos praticados pela Justiça dos Estados Unidos. Trata-se do assassinato de dois lutadores anarquistas Sacco e Vanzetti, executados na cadeira elétrica pela simples razão de lutarem por melhores dias para os trabalhadores e a construção de uma sociedade mais justa, segundo o seu ideário político.


A Justiça americana necessitava dos bodes expiatórios para justificar a onda de repressão desencadeada contra os trabalhadores em consequência do aumento das suas lutas e a antevéspera da crise do capitalismo que atingiria profundamente a economia americana, criando uma onda de desemprego sem precedentes.


Para conseguirem esses objetivos, forjam uma farsa policial acusando-os de um crime de assalto seguido de assassinato. O crime do qual eles foram acusados era típico do período que antecedeu a depressão nos Estados Unidos e trazia no seu bojo um conjunto de contradições cada vez mais agudas. Refletiam as contradições que se aguçavam entre o capital e o trabalho, o desânimo e a marginalização, em nível de criminalidade; de melhores à ex-trabalhadores, agora desempregados. No dia 15 de abril de 1920, o pagador da firma Slater & Merril, quando transportava o total da folha de pagamento daquele estabelecimento, a qual ascendia a quinze mil setecentos e setenta dólares, foi assassinado. Um guarda também foi morto na ocasião. Foram assassinados friamente, segundo as testemunhas, por dois indivíduos que fugiram em seguida, carregando aquela elevada importância para a época.


A eficácia, a rapidez e a coordenação de Movimentos do crime faziam crer que se tratava de um dos muitos assaltos praticados por profissionais, planejado antecipadamente nos seus mínimos detalhes, com a possível participação ou conivência de funcionários da própria firma.


Após o assalto, um outro carro passou e os ladrões-assassinos transferiram para ele o dinheiro roubado. O crime, cometido na cidade de South Braintree, Estado de Massachusets, abalou a opinião pública e despertou a indignação dos empresários locais que se sentiam inseguros à medida que esse tipo de assalto se amiudava. Para satisfazer esta exigência da classe média norte-americana e das suas elites de poder, a polícia estadual entrou imediatamente em ação para tentar prender os criminosos.


Trama macabra da polícia contra a luta operária


Em face das características do assalto, a polícia ligou-o a outro que antecedera, em circunstâncias parecidas, na cidade de Brigdewater, não muito distante. Havia, por outro lado, necessidade de uma solução rápida para esses dois assaltos, pois a inquietação social manifestava-se de forma crescente. Como as testemunhas achavam que o criminoso desse outro crime era presumivelmente um italiano, e, como nos dois foi usado um automóvel, a polícia estabeleceu um silogismo elementar, segundo o qual o assassino devia ser italiano que possuía automóvel.


A polícia localizou, em seguida, um italiano chamado Boda, que possuía automóvel. Ficou de vigia. Como Sacco e Vanzetti, Boda era, também, um operário italiano de ideias avançadas: um anarquista. Acontece que, dias antes, um operário anarquista, depois de ter sido preso, havia sido atirado pela polícia do décimo andar de um edifício. Em vista disto, Sacco e Vanzetti solicitaram o automóvel de Boda para que pudessem avisar todos os seus companheiros a fim de que se protegessem contra possíveis prisões. Naquele tempo os emigrantes anarquistas eram violenta e constantemente perseguidos pela polícia política norte-americana.


Ao deixarem a garagem, onde foram devolver o carro, tomaram um bonde: os agentes de polícia que os seguiram prenderam-nos imediatamente sem que houvesse resistência. Estava armada a tragédia de suas vidas. A polícia tinha um prato cheio: Sacco e Vanzetti eram operários, estrangeiros e anarquistas. Isto era o bastante para usá-los como bodes expiatórios. Estavam de antemão condenados à morte.


Trabalhadores brasileiros se unem na solidariedade


Diante da injustiça de classe, ergueu-se um amplo movimento de defesa e solidariedade aos dois trabalhadores presos. Todas as chicanas jurídicas foram feitas contra eles, inclusive a intimidação de testemunhas. Finalmente, em 14 de junho de 1921 foram condenados a morrer na cadeira elétrica. Os trabalhadores do mundo inteiro protestaram. No Brasil, os trabalhadores se uniram em um amplo movimento de solidariedade proletária em prol da libertação de Sacco e Vanzetti.


Os trabalhadores não ficaram insensíveis ao crime político e, superando as divergências ideológicas que podiam separá-los, ingressaram nessa campanha pelo resgate dos dois prisioneiros. No Brasil, o movimento operário ascendia de nível e aumentava de qualidade. A greve de 1917, em São Paulo, quando os operários praticamente ocuparam a cidade, foi o seu ápice, embora o movimento grevista continuasse nos anos subsequentes.


Em relação a Sacco e Vanzetti e o nosso movimento operário há um fato relevante a destacar: o Partido Comunista do Brasil fora fundado em 1922, depois de uma acirrada luta ideológica com os anarquistas. Mas isto não afetará a unidade de comunistas e anarquistas na luta pela libertação de Sacco e Vanzetti. O jornal mensário "Movimento Comunista", datado de fevereiro de 1922, noticiava a realização de comícios de protestos promovidos pela Federação Operária do Rio de Janeiro e estampava uma proclamação do Centro Comunista daquela cidade denunciando o caráter de classe do processo movido pela justiça americana contra os dois operários italianos. No mesmo número, esse mensário divulgava uma mensagem do Partido Comunista dos Estados Unidos agradecendo a solidariedade.


Nasce o Comitê Popular Pró-Sacco e Vanzetti


Esse movimento de solidariedade se amplia à medida que se aproxima a data das execuções. No Rio de Janeiro, onde as grandes decisões políticas eram tomadas, inicia-se, em 1922, um amplo movimento de solidariedade aos dois operários italianos. Essa primeira etapa terminará com um grande comício na praça Mauá. A Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro lançou, então, o seguinte manifesto convocatório:


"Aos trabalhadores e ao povo: Quando os camaradas dos Estados Unidos da América do Norte apelaram para o proletariado internacional que se manifestasse sobre a condenação dos trabalhadores Nicolau Sacco e Bartolomeu Vanzetti, indicados a serem carbonizados na infame cadeira elétrica, tinha a certeza que ninguém os desampararia nessa humana campanha que devia fazer recuar os assassinos juízes norte-americanos a soldo do capitalismo.


Todos os operários se lançaram à luta. Em breve, no mundo, os protestos surgiram de toda a parte. O Brasil, que se acha no continente americano, não podia passar despercebido nesta justa cruzada."


Em outubro de 1921, no Rio de Janeiro, criou-se o Comitê Popular de Agitação Pró-Sacco e Vanzetti, com ramificação em vários Estados. Comícios são programados. O jornal A Plebe publicou artigos em defesa de Sacco e Vanzetti. O Ateneu libertário da Cultura Social e a Federação Operária de São Paulo também realizam vários atos.


No dia das execuções, greves em vários Estados


No dia da execução de Sacco e Vanzetti, houve um comício na praça do Patriarca do qual participou "toda a classe operária desta capital", conforme noticiou um jornal da época. No mesmo, falaram vários oradores que condenaram a injustiça que se estava praticando nos Estados Unidos. Os trabalhadores que compareceram à hora habitual aos seus serviços foram convidados pelos colegas a aderirem ao movimento de protesto. No Brás a maioria das fábricas foi imediatamente fechada, prosseguindo o trabalho de algumas delas até às onze, quando os operários abandonaram o serviço e dirigiram-se à praça do Patriarca.


Na Lapa houve conflitos sérios entre trabalhadores e policiais que foram "aos poucos serenados". No lpiranga esses conflitos se repetiram: em frente à Fábrica Nami Jaffet, um piquete convidava os colegas a participarem da greve de solidariedade. A diretoria da empresa, no entanto, chamou a polícia que efetuou várias prisões no local. Entre os presos estavam três jovens operárias que se "mostraram rebeldes ao pedido de dispersão do feito pelas autoridades". Depois de permanecerem algumas horas na delegacia "foram postas em liberdade". O movimento ganhava maiores proporções à medida que se aproximava a hora das execuções. Na estamparia A Liberty, na rua Piratininga, a polícia agiu com violência, alegando o comportamento altamente inconveniente de alguns grevistas. Às onze horas foram pedidos reforços para as fábricas Matarazzo, na Água Branca, e Crespi, na Mooca.


A noite foi grande e houve aglomeração de populares em frente aos placares dos jornais, nos quais eram afixadas notícias das agências internacionais. Essas notícias eram discutidas acaloradamente pela multidão parada. Um grupo de trabalhadores da construção civil, que convidava os seus colegas a paralisarem o trabalho, também foi preso.


No Rio de Janeiro a situação não era diferente. Um clima de tensão apoderou-se da cidade. A União dos Operários em Fábricas de Tecidos do Rio e Petrópolis lançou um vibrante manifesto no qual dizia:


"Camaradas: Hoje é o dia designado pela justiça norte-americana para o assassínio de nossos companheiros Sacco e Vanzetti. Talvez a estas horas estejam sendo eletrocutados nossos irmãos de sofrimento e não é possível que os trabalhadores do Rio de Janeiro, principalmente os das fábricas de tecidos, permaneçam indiferentes à injustiça que representa o assassínio legal de dois trabalhadores inocentes. Os nossos camaradas de Petropólis, como protesto pela desumanidade da 'justiça' norte-americana, paralisaram o movimento em todas as fábricas de lã, seda e algodão, ontem, segunda-feira, e permanecerão parados hoje, como demonstração de protesto à iniquidade e de solidariedade aos dois condenados pelo único crime de desejarem o bem-estar da humanidade. Aqui no Rio, infelizmente, só uma fábrica de tecidos paralisou ontem: e hoje continuará parada. É preciso que os companheiros de todas as fábricas, sem distinção de credos políticos, acompanhem o movimento mundial de protesto contra a selvageria dos expoentes dos dollars.


É necessário que os operários em fábricas de tecidos não trabalhem hoje, 23 de agosto de 1927, como um protesto à eletrocussão de Sacco e Vanzetti, acompanhando o protesto altivo dos camaradas da Fábrica Aurora, aqui do Rio. A União dos Operários em Fábricas de Tecidos do Rio e Petrópolis. Que nenhum operário trabalhe hoje em sinal de protesto pelo assassínio de dois inocentes, vítimas do capitalismo.


Todas as categorias aderem ao protesto em Petrópolis


Se esta era a situação no setor têxtil, o movimento de solidariedade dos operários da indústria mobiliária era bem mais intenso. Atendendo ao apelo da Comissão Executiva dos Trabalhadores da Indústria Mobiliária, os trabalhadores dessa categoria também pararam o trabalho na véspera da execução.


Os principais estabelecimentos do setor não funcionaram, especialmente as grandes empresas. Não funcionaram em consequência da greve, as empresas Leandro Martins & Cia, C. Daubisch, Hirt & Cia., Companhia Betenfeld, Moreira Mesquita, Ruggier, Reed Star, Viúva Magalhães & Cia., Salvador Storino & Cia., Marcenaria Auler, "A Nossa Casa", Casa Fonseca & Albino, Veiga & Pinto, Acácio & Santos, Sequeira & Cia., F. Criramo & Irmão, Otto Schutt & Filho, J. Ramalho, Vicente Miraglia, E. Jatocoz Fabrega, Gimenez de Souza, J. Palermo & Cia., Casa Verde, Marcenaria Brasil, Firmino & Cia., Casa Edson e muitas outras.


Esses trabalhadores, à medida que deixavam os seus locais de trabalho, dirigiam-se para a sede da sua Comissão Executiva. O movimento vai aumentando medida que o tempo passa, pois ninguém sabia, ao certo, a hora em que os dois seriam executados.


Se o setor têxtil não reagiu como se esperava, no Rio de Janeiro, o mesmo não aconteceu em Petrópolis. Apesar de ter sido lançado um manifesto em comum, em Petrópolis é que se concentrará o protesto dos têxteis brasileiros. Iniciada com vigor a greve de protesto, no dia 22, pelos operários das fábricas de tecidos Petropolitana, Petrópolis Industrial e Corneta do Alto da Serra, alastrou-se imediatamente à quase totalidade dos estabelecimentos congêneres e de outros, culminando essa movimentação no dia da execução, com a adesão dos trabalhadores de todos os ramos da indústria todo o comércio e de empregados em bondes e condutores de veículos.


Após a paralisação de todas as fábricas - inclusive as oficinas da Estrada de Ferro Leopoldina e do Alto da Serra, construção civil, bondes, veículos e o fechamento do comércio -, verdadeira multidão dirigiu-se ao local do comício que haviam programado.


Os discursos foram inflamados e violentos, atacava-se abertamente o imperialismo norte-americano e o seu sistema interno de repressão política. Segundo um jornal que registrou o acontecimento: "aos gritos de vivas à memória de Sacco e Vanzetti e de guerra aos assassinos, de vivas à solidariedade operária e de guerra ao código infame das leis celeradas, reiterando levar a efeito um boicote aos produtos norte-americanos, aquela massa se dispersou, sem registrar-se qualquer incidente". Outras manifestações no resto do Brasil registraram o protesto dos trabalhadores ao assassínio jurídico da justiça das classes dominantes dos Estados Unidos.


60 anos após o crime, a homenagem dos operários


Sessenta anos passados do crime, a classe operária do mundo inteiro ainda reverencia a memória desses dois heróis. Trinta anos depois do crime, a viúva Sacco entrou com um pedido de reabertura do processo. Inutilmente. Não foi considerado pela justiça americana. Sabino Sacco, irmão de Bartolomeu, fez um pedido de reabilitação no ano de 1973.


Mas a justiça americana, mais uma vez, negou-se a rever o caso. Como a farsa não podia ser mantida por mais tempo, a reabilitação dos dois operários executados não saiu através da revisão do processo, mas através de decisão do governador de Massachusts, isto é, autoridade idêntica a que cinquenta anos antes assinara a sentença fatal. Com este gesto de prestigiação política, o hímen complacente da justiça dos Estados Unidos continua virgem.


por Clóvis Moura, publicado na revista Debate Sindical nº 4, dezembro-janeiro-fevereiro - 1988

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