"Iraque, de agora em diante..."

há 6 horas
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Concluída a retirada das tropas norte-americanas no último dia 30 de setembro, depois de intervenções extenuantes, com incontáveis massacres que deixaram mais de um milhão e meio de mortos, o país destruído e milhares de doentes de câncer em consequência da contaminação de seus lençóis freáticos pelas infiltrações do urânio empobrecido contido nos invólucros das bombas com que os estadunidenses cobriram o país de maneira contínua durante anos, isso não deixa de ser uma boa notícia para os 47 milhões de iraquianos, ainda que também seja um desafio.
Nada garante que, com este recuo, que Donald Trump apresentou em Washington como uma vitória, quase pessoal, sobre o terrorismo, se encerre o ciclo de invasões norte-americanas que o Iraque sofre, com certa periodicidade, desde 1990, sob o pretexto de resgatar o Kuwait, que havia caído em mãos de Saddam Hussein, por muito tempo o queridinho dos Estados Unidos na região.
As tropas deslocadas só precisaram cruzar até a Jordânia, país que tem uma fronteira terrestre, sem maiores obstáculos naturais, de 180 quilômetros a oeste do Iraque. É importante assinalar que o terrorismo que Trump acaba de “vencer” se origina nas operações desestabilizadoras da CIA e que, desde o início, foi financiado pelos principais sócios de Washington na região (Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos).
Desde quarta-feira, o Iraque terá de enfrentar uma realidade regional em chamas, que a qualquer momento pode alcançá-lo, enquanto, no interior de suas fronteiras, o panorama tampouco é simples, já que se abrem múltiplas possibilidades que, como sempre nestes contextos, acabarão por fazer prevalecer as piores.
Desde a invasão de 2003, a retirada em 2011 e o posterior retorno em 2014, e tudo o que se seguiu à queda da ditadura de Saddam Hussein, que permaneceu no poder durante 25 anos com a anuência de Washington, para a sociedade iraquiana não houve mais que confusão e violência, devido ao aprofundamento das diferenças em uma sociedade fragmentada, de modo que será um desafio conseguir que o país não se balcanize, em razão da presença de múltiplas etnias (árabes, curdos, turcomanos, assírios e yazidis), tribos, clãs, diferentes escolas do islã, sunitas e xiitas, milícias armadas e interesses políticos diversos, cuja inserção no território é tão definida que quase seria possível traçar fronteiras precisas sem muitas discussões.
Com um norte curdo, que já tem um alto nível de autonomia com o Governo Regional do Curdistão, uma força de segurança própria, os Peshmerga, e com posições políticas cada vez mais diferenciadas das de Bagdá. Enquanto isso, a região centro-oeste do país, árabe-sunita, agora um pouco mais marginalizada, já que por anos foi o enclave territorial de Saddam, o que lhe permitiu obter vantagens materiais e políticas na hora de distribuir planos e benefícios, o que paga desde a queda do ditador; ao mesmo tempo, a comunidade xiita, majoritária em termos populacionais, que foi parte fundamental da construção política do Iraque pós-Saddam, é hoje o setor dominante do atual governo, cuja proximidade com Teerã é inocultável. Isso levou Trump, depois de vetar uma nova possibilidade para o duas vezes primeiro-ministro Nuri al-Maliki, entre 2006 e 2014, a impulsionar a designação de Ali al-Zaidi, que assumiu após um longo interregno de discussões, em maio último. Embora também xiita, como obriga a Constituição, é um homem mais palatável para Washington.
Neste universo de tensões cruzadas, a olho nu podemos inferir que o Iraque parece não estar muito preparado para iniciar um processo que lhe proporcione uma dinâmica virtuosa com a qual alcance estabilidade e desenvolvimento, mas, muito possivelmente, todo o contrário.
Ainda mais se levarmos em conta o turbulento contexto regional: na Síria, o governo do ex-terrorista, antigo emir do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), Abu Mohamed al-Golani, hoje remixado pela CIA no virtuoso presidente Ahmed al-Sharaa, que não pode, nem quer, conter seus homens, que, depois de quase dois anos no poder, continuam massacrando alauítas, xiitas, sunitas moderados e drusos.
Isso permite suspeitar que, se for o caso, os homens que respondem a al-Sharaa poderiam se reconverter outra vez em mujahideens para voltar a operar no Iraque, conforme sirva aos interesses de Washington e de Tel Aviv, que segue usurpando territórios nos países que invade: tendo estendido a zona-tampão para além das colinas de Golã, na Síria, e para o sul do Líbano, até o rio Litani, tal como está terminando de fazer com a totalidade da Palestina.
Quanto à situação de Ormuz, para além da disposição negociadora do Irã, Donald Trump parece ter perdido o roteiro que lhe traçou seu amigo Bibi Netanyahu. Com a Operação Fúria Épica, o presidente norte-americano iria descobrir que a questão não se resolvia em um fim de semana, como lhe haviam soprado ao ouvido seus assessores mais próximos: Pete Hegseth, secretário de Guerra, um fanático cristão, e o genro presidencial, Jared Kushner, um fanático sionista. Desde o início de março, Trump anda como um pião: salta da guerra total contra o “regime” dos aiatolás, a quem já não se sabe quantas vezes derrotou definitivamente, para a proposta de negociações de paz. Como resultado, o Estreito de Ormuz parece ter se perdido para sempre nas trevas mentais do presidente norte-americano.
Ao mesmo tempo, os houthis iemenitas, depois de se apoderarem de toda a costa de seu país no mar Vermelho e das ilhas ao norte do estreito de Bab al-Mandeb, o que lhes dá a possibilidade de fechá-lo à vontade, ameaçam incendiar o sul da Arábia Saudita, onde, além das principais jazidas de petróleo do reino, se assenta a minoria xiita, que há muito tempo espera o momento de dar uma guinada nas políticas dos Saud, com quem tem velhas queixas sobre a discriminação sistemática que sofre e os poucos benefícios econômicos do usufruto do petróleo que sai de seu subsolo. Por isso, aliar-se a seus irmãos iemenitas é agora uma possibilidade mais concreta.
Diante deste panorama, não deixa de chamar a atenção que, há meses, os contingentes da ampla coalizão da Operação Resolução Inerente, montada pelo Pentágono, que além de suas forças contava com o apoio da França, do Reino Unido, da Polônia e da Alemanha, estejam se retirando. Enquanto isso, a Turquia manterá a base militar de Bashiqa-Zelikan, próxima à cidade de Mossul, no norte do Iraque, cuja transferência gradual Ancara e Bagdá acordaram em setembro passado.
O ovo da serpente
Diante da retirada dos Estados Unidos, o primeiro-ministro Ali al-Zaidi declarou o dia 1º de outubro como Dia Nacional da Soberania, embora este não seja seu único projeto: ele tem outros muito mais complexos de levar a cabo, como o desarmamento das milícias xiitas pró-iranianas, cujo prazo máximo para fazê-lo é 30 de junho do próximo ano. Uma tarefa que sem dúvida não será simples, já que essas milícias entendem que, em grande parte, a razão da saída dos estadunidenses e da contenção do terrorismo wahabita se deve à sua presença.
Enquanto isso, o eixo central do desafio é em que medida será possível que as milícias pró-iranianas, como o Kataeb Hezbollah, o Harakat al-Nujaba e o Kata'ib Sayyid al-Shuhada, que até agora não deram sinais de ter vontade de se desarmar, exigem condições de al-Zaidi que vão atrasar o processo muito além da data estabelecida. Ao mesmo tempo, as milícias sem dúvida devem manter sua atenção no destino de seus irmãos iemenitas do movimento Ansarullah (houthis), com os quais fazem parte, junto ao Hezbollah e ao Hamas, do Eixo da Resistência, sabendo que, para seus povos, são até agora a única esperança de sobrevivência.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional











































































































































