"Níger, algo mais do que um ensaio de golpe de Estado"

há 49 minutos
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Já há alguns anos, o Sahel se tornou um campo de batalha, onde os poderes imperiais deslocados (Estados Unidos e França) tentam retornar depois de terem sido expulsos de maneira escalonada do Mali, em 2020-2021, de Burkina Faso em 2022 e do Níger em 2023, transformando essa região da África em uma das mais disputadas do mundo por seu valor geoestratégico, econômico e também simbólico, já que essas três nações, a partir de 2023, integraram-se principalmente em uma confederação militar, conhecida como Aliança dos Estados do Sahel (AES), com um forte discurso pan-africanista, que conta com o apoio de Moscou, por intermédio das forças do Corpo Africano, que substituiu o extinto Grupo Wagner. São uma porta aberta para que outras nações do continente as imitem, integrem-se a elas e se libertem do poder colonial, particularmente o da França, que com alguns detalhes continua regendo os destinos de suas antigas colônias desde meados do século XIX.
Desde que a AES se constituiu, suas três nações-membros vêm sendo acossadas militarmente por grupos terroristas tributários da al-Qaeda (Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos) que recentemente se aliaram ao Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), além do Daesh (Estado Islâmico do Grande Saara (EIGS)), financiados pelas monarquias do Golfo e com suspeitas fundamentadas de serem auxiliados por baixo dos panos, militarmente e em inteligência, por Washington, Paris e Kiev. Enquanto isso, a CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) as cerca política e economicamente, ao mesmo tempo em que continua latente, desde 2023, uma intervenção militar no Níger. Ao mesmo tempo, nas juntas militares que governam esses países, agentes externos operam buscando a fragmentação, o que tem gerado alguns deslocamentos e passagens para a reserva entre chefes e comandos intermediários.
É nesse contexto que se entende a vigorosa presença dos mujahidin, que de maneira praticamente diária atacam posições de forma exclusiva, tanto militares quanto civis, das nações da AES. Já suas operações em países como Chade, Costa do Marfim, Mauritânia, Gana ou Camarões são ocasionais ou inexistentes, apesar de esses territórios compartilharem amplas fronteiras com a região em disputa.
É por isso que é preciso inscrever o fracassado golpe de Estado no Níger como parte da grande ofensiva imperial e que, apesar de ter sido frustrado, não resta dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, tentará novamente, não importa se contra Niamei, Bamaco ou Uagadugu.
No último dia 29 de agosto, a junta militar liderada pelo general Abdourahamane Tchiani enfrentou e desarticulou a maior das ameaças que teve de superar desde que, em julho de 2023, derrubaram o governo pró-ocidental de Mohamed Bazoum, quando um grupo de jovens oficiais tentou atacar o palácio presidencial, o aeroporto e a estação de televisão nacional. As forças leais, que perderam três homens, conseguiram rapidamente recuperar o controle da Base Aérea 101, onde os amotinados estavam entrincheirados.
Durante várias horas, na capital nigerina, soldados leais repeliram a tentativa de motim por parte de um grupo pertencente às próprias Forças de Segurança do Níger (FDS), quando se completava um ano desde que terroristas do EIGS chegaram às portas da capital.
O episódio de fins de agosto levanta uma questão, já que é difícil estabelecer o quanto se abriu a fenda no interior das forças armadas, pois os objetivos com os quais o general Tchiani chegou, chefe do Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP) já há três anos, estão longe de se cumprir, fundamentalmente no que se refere ao controle do terrorismo, que somente no ano passado gerou cerca de dois mil mortos entre civis e militares.
Oficiais de patentes médias e inferiores estão pagando, em muitos casos, com suas próprias vidas a forte ofensiva terrorista, que já não busca como objetivo a instauração de um emirado, mas sim a queda dos inimigos de seus mandantes. Essa frustração se manifesta em discrepâncias internas dentro da força. Este não foi o primeiro ataque sofrido pelo aeroporto internacional Presidente Diori Hamani, o mais importante do país, no qual morreram, entre atacantes e militares, cerca de trinta pessoas.
Algo parecido, e pelas mesmas razões, vem ocorrendo também em Burkina Faso e no Mali, onde o problema parece se retroalimentar à medida que as operações terroristas se tornam cada vez mais eficazes. Recordemos o bloqueio de suprimentos essenciais, como o combustível, sofrido por Bamaco durante a última parte do ano passado, e que desde abril deste ano foi reativado, conseguindo executar uma grande operação contra a base militar de Kati, a mais importante do país, muito próxima de Bamaco, onde foi assassinado nada menos que o ministro da Defesa, o general Sadio Camara, junto com sua família.
Uma intensa erupção cutânea
As constantes operações que o Níger vem sofrendo, assim como seus outros dois sócios da AES, ocorrem praticamente desde o princípio de seu surgimento. Até agora sofre uma intensa erupção cutânea, de modo que, se não for aplicado um remédio contundente, pode se transformar em algo muito mais profundo, e o que até agora foram sintomas contornáveis, como a tentativa de fins de agosto ou o ocorrido na guarnição de Termit, no leste do país, onde houve um princípio de rebelião da tropa devido à escassez de suprimentos e às más condições de vida, entendidas como falta de apoio do governo — ao chegarem os chefes para negociar, foram detidos por seus subordinados, incorrendo em uma violação extrema da cadeia de comando.
Algumas fontes apontam essas operações como a atuação de um grupo autodenominado Movimento Patriótico pela Liberdade e pela Justiça (MPLJ), por trás do qual estaria o ex-presidente. É um grupo rebelde que apoia o presidente Mohamed Bazoum, aparentemente eleito democraticamente, e boa parte do establishment que o acompanhou em seu governo. Fontes do MPLJ afirmaram ter matado quinze homens das Forças de Segurança do Níger (FDS), embora nenhum veículo jornalístico tenha conseguido confirmar essa informação, assim como seus divulgados ataques. Segundo o movimento, suas forças já executaram uma operação contra um acampamento das FDS e um destacamento policial em Séguédine, na região de Agadez, no extremo nordeste do país, onde teriam provocado importantes danos materiais, além de terem se apropriado de uma série de veículos e de uma quantidade considerável de armamento e munições. Além disso, teriam atentado contra vários trechos de um oleoduto de aproximadamente dois mil quilômetros em direção à República do Benim, petróleo bruto nigerino, uma exportação vital para Niamei.
A partir do canal de televisão estatal do Níger, acusou-se diretamente o governo de Emmanuel Macron de estar por trás desse motim e do financiamento não apenas dos terroristas wahabitas, mas também do Movimento Patriótico pela Liberdade e pela Justiça, que, sem dúvida, a partir de agora ganhará maior destaque, tentando desestabilizar toda a AES visando ao retorno de sua influência e ao controle dos recursos naturais, que é o único interesse de Paris, enquanto Washington também tem interesses estratégicos para se posicionar no continente, onde a China já lhe tirou muita vantagem no plano comercial, já que várias nações do continente, incluindo Chade, Níger e Mali, aderiram à Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). Enquanto isso, a Rússia vem fazendo o mesmo no plano militar.
Enquanto isso, a esse conflito acaba de se somar a Argélia, uma potência regional, um ator-chave na região, que havia se mantido em silêncio, embora a atual crise de segurança fosse contraproducente para seus próprios interesses. Por isso, acaba de enviar quatro aviões de combate Sukhoi-30 ao Níger, após o fracassado motim. Argel já havia doado a Niamei quatro helicópteros: dois de ataque Mi-24V e outros dois de transporte multipropósito Mi-171, todos de fabricação russa, no início do mês passado. Este é um fato altamente significativo, já que a Argélia, aliada histórica de Moscou no continente, envia pela primeira vez em 50 anos armamento ao exterior.
Pelo que se entende, ela o faz para além de conter os terroristas; tenta evitar que a França volte a ingressar no Sahel, depois de ter sido expulsa em 2020, ao mesmo tempo em que incrementa suas relações com o Marrocos, a principal hipótese de conflito de Argel, com quem rompeu relações em diversas ocasiões, agora desde 2021, apesar de compartilharem uma fronteira de mais de 1.500 quilômetros.
Rabat, o mais servil dos estados do continente às determinações de Washington, é o maior comprador de armamento norte-americano do continente. Por isso, nesse contexto, somos obrigados a entender que a recente operação em Niamei é algo mais do que um ensaio de golpe de Estado.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional









































































































































