"Quem alimenta a guerra do Sudão?"
- NOVACULTURA.info

- há 2 minutos
- 5 min de leitura

Como em todas as guerras, antes das diferenças políticas, religiosas, étnicas ou territoriais, antes mesmo do ódio ancestral entre dois povos que rivalizam por um espaço compartilhado há séculos, antes de tudo isso, as guerras são movidas por interesses estritamente econômicos; dê a isso o nome que quiser: água, petróleo, ouro, urânio, marfim ou ópio.
São esses fatores que liberam forças capazes de exterminar milhares e milhares de vidas, arrasar geografias inteiras e aniquilar civilizações milenares. A guerra civil do Sudão, que agora completa 1.180 dias, é apenas mais um exemplo desse postulado. Por isso, se alguma vez se acreditou que era apenas um conflito “doméstico”, o mundo está descobrindo que nele estão em jogo interesses externos, ainda que para muitos isso seja uma verdade óbvia.
A guerra do Sudão talvez nunca tenha sido uma questão exclusiva dos sudaneses. No confronto entre as Forças Armadas do Sudão (FAS) comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (FAR) de Mohamed Hemetti Dagalo, desde o início estão em jogo interesses de potências regionais e internacionais, que veem em suas reservas de ouro e petróleo uma oportunidade que merece investimento em armas, fundos, inteligência, mercenários e apoio diplomático. As principais jazidas de ouro no Sudão foram monopolizadas, quase em sua totalidade, por cartéis controlados por Hemetti Dagalo, que o exporta de maneira irregular para os Emirados.
Esse fluxo de recursos é a única razão pela qual a guerra se manteve tão ativa desde 15 de abril de 2023, sem um único dia de interrupção, apesar da gigantesca bola burocrática, resumida em mesas de negociação, cúpulas e fóruns realizados em torno do conflito, sem sequer conseguir um cessar-fogo humanitário, para poder abastecer de alimentos e remédios os mais de 15 milhões que precisam disso urgentemente, ou enterrar os mortos que apodrecem em ruas e estradas, que, além de tudo o que significam culturalmente, representam um foco latente de todo tipo de doenças.
Um ator-chave para que o conflito mantenha seu volume tem sido os Emirados Árabes Unidos (EAU), que nos últimos anos se tornaram o grande financiador do terrorismo na África, onde, dependendo do país ou da região, apoiam khatibas tributárias da al-Qaeda ou do Daesh. De que outra forma, senão, se pode entender a evolução extraordinária do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos ou do Estado Islâmico no Grande Saara, no Sahel, que ameaça governos e bloqueia capitais de milhões de habitantes, como se fossem apenas vilarejos? Enquanto outros grupos como al-Shabaab na Somália, Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental da Nigéria, Ansar al-Sunna (Moçambique) ou o Estado Islâmico na República Democrática do Congo, as antigas Forças Democráticas Aliadas, além de facções dessas milícias que já avançam sobre alguns países do Golfo da Guiné e além de sua forte presença militar dos emirados no sul do Iêmen, assistindo e financiando grupos separatistas.
Até o momento, a comunidade internacional tolerou a atuação dos EAU, sem sanções de nenhum tipo, como se por trás deles houvesse interesses muito mais poderosos do que eles, como poderiam ser os Estados Unidos e Israel.
É por isso que o general al-Burhan, de fato presidente do Sudão, denunciou em várias ocasiões perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas que empresas de segurança privada de origem emiratense, como a Global Security Services Group (GSSG), sediada em Abu Dhabi, estão por trás da contratação de instrutores e mercenários para auxiliar as FAS.
É importante lembrar, neste ponto, que, após a tomada do palácio presidencial de Cartum pelo exército em março do ano passado, foram encontrados salões abarrotados de caixas de armamento, cuja etiquetagem as vinculava a Abu Dhabi. Para concretizar essas operações, Abu Dhabi tem tecido uma intrincada rede de contatos e traçado rotas de financiamento e abastecimento para fazer chegar recursos e armamento às Forças de Apoio Rápido.
Investigações recentes da organização jornalística Lighthouse Reports deram detalhes, após contatar na Líbia desertores das FAR, do fluxo constante de comboios que, partindo da Líbia, entram no Sudão pelo triângulo de Kufra (sudeste da Líbia), fronteiriço com Sudão e Egito, que se soma à rota até agora mais conhecida, a do Chade. Já se mencionou aqui várias vezes que aviões de carga fretados pelos Emirados chegam até o aeroporto da cidade de Amdjarass, na província chadiana de Ennedi Oriental, a cerca de cem quilômetros a leste da fronteira com o Sudão, e de lá são transportados em caminhões até a região de Darfur, oeste do Sudão, que desde o início da guerra esteve sob controle dos paramilitares.
Enquanto isso, no leste e no sul da Líbia, territórios controlados por Khalifa Haftar, chefe da facção armada conhecida como Exército Nacional Líbio (ENL) e outras milícias associadas, permitem que a região de Kufra tenha se tornado um santuário das FAR, onde estabeleceram acampamentos, campos de treinamento, arsenais e hospitais em Seweidiya, perto da cidade de al-Kufra.
Enquanto isso, a apenas cerca de 20 quilômetros da cidade de Bengasi, quartel-general das forças de Haftar, funciona o que se conhece como Campo 17, uma antiga base do ENL onde mercenários, aparentemente colombianos, contratados e pagos pelos Emirados, treinam combatentes das Forças de Apoio Rápido no manejo de drones e armas pesadas, como metralhadoras pesadas DShK e lança-foguetes múltiplos RPG.
Segundo o informante, ali, nas últimas semanas, aumentou a movimentação de pessoas, transportes de tropas e veículos de carga, “como se estivesse na fase final de algo importante”. O que, para alguns, é o prólogo do assalto final à cidade de El Obeid, capital do Cordofão do Norte (Sudão), onde acaba de se saber que, nos últimos meses, morreram cerca de 300 crianças de fome.
Segundo o recente relatório do Lighthouse Reports que acaba de ser divulgado, o armamento destinado aos paramilitares do Sudão chega de navio ao porto de Bengasi e, de lá, por via aérea, é enviado a bases do interior do país, de onde é transportado em caminhões até Kufra, um deserto extremamente árido de aproximadamente 50 quilômetros de comprimento e 20 de largura, cuja escassa população e proximidade com a fronteira do Sudão a tornam uma posição estratégica privilegiada.
Essas denúncias foram rejeitadas tanto pelo ENL quanto pelos paramilitares sudaneses, que insistem que estão fazendo a guerra por conta própria, sem receber apoio de ninguém. Já os Emirados jamais se pronunciaram sobre as acusações.
Nesse contexto, soube-se que o Egito, aliado das forças do general al-Burhan, realiza ataques aéreos esporádicos contra comboios de caminhões que pretendem chegar com armamento ao Sudão, para abastecer as FAR.
El-Obeid, o desastre iminente
Enquanto tudo isso acontece, a cidade de El-Obeid, capital do Cordofão do Norte, com mais de meio milhão de habitantes, se prepara para um novo ataque dos paramilitares, que há mais de um mês estabeleceram um cerco, como parte de sua tentativa de se aproximar novamente de Cartum e repetir o massacre cometido na cidade de El-Fasher, após conquistá-la em novembro passado, onde algumas estimativas falam em até 60 mil civis mortos.
Nos estudos recentes sobre a assistência do general Haftar aos paramilitares do Sudão, detectou-se que, no grupo comandado por Hemetti Dagalo, o tão anunciado assalto é iminente, o que abrirá uma nova fase da guerra, que sem dúvida aumentará as mortes de civis e a destruição do que ainda resta de pé, em uma guerra em que os mortos se aproximam de meio milhão, os deslocados chegam a 15 milhões e cerca de um milhão de crianças estão em situação de desnutrição aguda.
As forças paramilitares estão neste momento na fase final, anterior ao assalto a El-Obeid, onde certamente se repetirá a chacina de El-Fasher, dando continuidade a uma guerra movida por interesses econômicos e alimentada com a vida de milhões de sudaneses.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional







































































































































