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Marxismo-leninismo e lutas revolucionárias dos povos do mundo

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História das Três Internacionais

"Instantes da história"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 11 minutos
  • 6 min de leitura

 

A geografia adquire sentido moral quando a história irrompe em suas paisagens: uma batalha, um desembarque, uma derrota, um pacto traidor, um protesto, um grito durante muitos anos anônimo de “aqui ninguém se rende”, mas que finalmente encontrou corpo e voz, um abraço de “agora sim vencemos a guerra” quando restavam apenas poucos fuzis. Cintio Vitier nos ensinou a compreender essa relação misteriosa entre a poesia e os atos, entre a natureza e a história, que ocupa cada espaço do território que habitamos e o transforma em Pátria. Em seu livro “Esse Sol do Mundo Moral”, ele descobre o instante superior dessa relação no relato de uma jovem que foi protagonista e testemunha da história na noite de 25 de julho de 1953, na Granjita Siboney:

 

“Aquela noite foi a noite da vida – recordava Haydée Santamaría – porque queríamos ver, sentir, olhar tudo aquilo que talvez nunca mais olharíamos, nem sentiríamos, nem veríamos. Tudo se torna mais belo quando se pensa que depois não se terá mais. Saíamos para o pátio, e a lua era maior e mais brilhante; as estrelas eram maiores, mais reluzentes; as palmeiras, mais altas e mais verdes.”

 

Haydée não deixava de olhar para Abel, para Fidel, e sabia que alguns, talvez ela mesma, teriam de morrer. Cintio conclui então: “A natureza e o homem, a beleza e o bem, fundiam-se nesse olhar (...) naquele limiar do perigo e da morte.”

 

Mas não foi a única vez. Não existem fotografias daquele momento. Apenas palavras que, ao serem lidas, se deslocam como imagens em movimento. As fotos viriam depois, e são terríveis. Homens caídos, ou feridos e depois assassinados, como José Luis Tassende, erguido em um canto do Hospital Civil, que olha sem medo para a câmera, o mesmo olhar que veremos anos depois no Che ferido em La Higuera. Do tirano viria a ordem: para cada soldado morto em combate, assassinar dez prisioneiros. Os covardes sempre se enganam: as ideias não podem ser mortas.

 

Mas aquela jovem que, na primeira noite, se extasiava diante da beleza da natureza, que era também a de seus companheiros de combate, recebeu na cela que compartilhava com Melba o castigo mais cruel: levaram até ali os olhos de Abel, seu irmão, porque olhar de frente a verdade e a beleza era um delito, e os restos dos órgãos genitais mutilados de seu namorado, Boris Luis Santa Coloma. Mas ela não falou. A história de Cuba é pródiga em exemplos supremos. Céspedes não aceitou depor as armas quando lhe ofereceram, em troca, a vida de seu filho prisioneiro:

 

“Oscar não é meu único filho; são todos os cubanos que morram por nossas liberdades pátrias”, respondeu. E converteu-se no Pai da Pátria. Como aquela mulher que entregou à gesta independentista, um por um, todos os seus filhos e, quando lhe disseram que o mais velho havia morrido, instou o mais novo a ocupar o seu lugar. Por isso Mariana é hoje a Mãe de todos os cubanos. Martí, que carregava o anel de compromisso com a Pátria, fundido com o ferro das correntes que feriram para sempre seu tornozelo adolescente nas pedreiras de San Lázaro, com seu traje pobre e seus sapatos descosturados, foi o Apóstolo da independência, o autor intelectual do ataque ao Quartel Moncada. Não permitiram que Fidel tivesse na prisão as suas obras, mas isso não importou. Ele próprio disse: “Trago em meu coração as doutrinas do Mestre e no pensamento as nobres ideias de todos os homens que defenderam a liberdade dos povos.”

 

E mais uma vez o olhar em uma fotografia icônica, desta vez dupla: Fidel erguido, desafiador, com os olhos postos na Revolução que então muitos acreditavam impossível, e na parede, atrás dele, levemente inclinado, como para enxergar melhor, um desenho de Martí. Eles defendiam seu legado, sua vigência, no ano de seu centenário.

 

Melba e Haydée são retratadas juntas atrás das grades da prisão; elas são as mulheres do Moncada. Na Ilha que quiseram nos arrancar com a Emenda Platt e que depois os rebeldes encheriam de escolas e de estudantes cubanos, latino-americanos, árabes e africanos, passando a chamá-la de “da Juventude”, estiveram presos os sobreviventes. Há fotografias. Em uma delas, um rapaz muito magro, de camiseta branca, olha fixamente para a câmera. Seus olhos semicerrados, mais do que olhar, sonham. É Raúl, o irmão mais novo de Fidel, o mesmo que sustentou a bandeira cubana em 1952 durante o enterro simbólico da Constituição de 1940, e que desceu a escadaria da Universidade em janeiro de 1953, na primeira Marcha das Tochas em homenagem a Martí. Alguns deles, meses depois, assaltariam o Quartel Moncada. Era um grupo de jovens que, em sigilo, havia se preparado, como diria Cintio Vitier, “para realizar o ato – a única coisa ‘grande’ que se podia fazer ‘aqui’ –, que varreria o círculo vicioso das palavras e das ‘atitudes’, para abrir, pela brecha da dignidade, da coragem e do sacrifício, a possibilidade da luta revolucionária definitiva.”

 

Nas palavras de Fidel: “Era necessário erguer novamente as bandeiras de Baire, de Baraguá e de Yara. Era necessária uma investida final para concluir a obra de nossos antecessores, e essa foi o 26 de Julho (...) Era necessário formar novamente o Exército Mambí.”

 

A dialética do possível e do impossível percorreu a história de Cuba: os reformistas, desconfiados do povo, acreditavam que o possível era a autonomia ou, em seu lugar, a anexação, e a história demonstrou que o único caminho possível era a independência; os neocolonizados da República mutilada pensavam que não era possível enfrentar o exército e os norte-americanos, e a geração do Centenário demonstrou que o justo e o possível eram precisamente desafiar o impossível. Onde não há impossíveis a vencer, não há revolucionários. O Che explicaria isso de forma breve, no “Diário da Bolívia”: o 26 de julho foi “uma rebelião contra as oligarquias e contra os dogmas revolucionários”.

 

Da prisão, anistiados pela pressão popular, partiram para o México, onde os combatentes se reagrupariam, alguns novos, como aquele argentino asmático chamado Ernesto Guevara de la Serna, que Raúl e Ñico López apresentariam a Fidel. No México se reuniriam alguns dos combatentes mais relevantes da luta que viria, entre eles Juan Almeida, Ramiro Valdés, Jesús Montané, Pedro Miret, Julio Díaz, Armando Mestre, homens do Moncada e do Granma.

 

“Se eu sair, chego; se chego, entro; se entro, triunfo”, diria Fidel.

 

Anos depois, ao partir para “outras terras do mundo”, Che Guevara escreveria estas palavras amplamente conhecidas: “Lembro-me nesta hora de muitas coisas, de quando te conheci na casa de María Antonia, de quando me propuseste vir, de toda a tensão dos preparativos. Um dia passaram perguntando quem deveria ser avisado em caso de morte e a possibilidade real desse fato nos atingiu a todos. Depois soubemos que era verdade, que numa revolução se triunfa ou se morre (se ela for verdadeira). Muitos companheiros ficaram ao longo do caminho rumo à vitória.”

 

A morte, não como fim, mas como possibilidade na dura e heroica tarefa de resgatar a vida, a pátria; a pátria ou a morte, como Fidel diria depois, sempre com a convicção da vitória. Durante a travessia, um homem caiu ao mar. Fidel ordenou parar os motores e iniciar a busca, apesar do risco que isso representava. Desde então ficou claro: a vida de um homem valia tanto quanto a de todos os homens. Em Alegría de Pío, denunciados e surpreendidos pelo exército, derramou-se o primeiro sangue. E Almeida selou com seu grito o destino daqueles homens, do povo cubano, que jamais se renderia.

 

Os expedicionários dispersaram-se, até que Raúl e Fidel se reencontraram em Cinco Palmas. Depois do abraço, o diálogo entre os irmãos tornou-se parte da história:

 

— Quantos fuzis você traz? — perguntou Fidel.

 

— Cinco — respondeu Raúl.

 

— E os dois que eu tenho, sete! Agora sim vencemos a guerra!

 

Muitos anos depois, Raúl disse: pensei que meu irmão estava louco. E era verdade: aqueles homens e mulheres padeciam da loucura assertiva dos revolucionários, dos que mudam o mundo. Eles a haviam herdado de Mella, de Guiteras, de Martí, de Maceo, de Céspedes. Era a geração do centenário de Martí, a quem não deixaram morrer.

 

Nós somos a geração (no singular, porque todas as idades cabem nessa definição) do centenário de Fidel. Somos os filhos de Fidel, daquele 26 de julho, das vitórias e das derrotas de uma Revolução que começou em 1868 e nunca claudicou, dos impossíveis vencidos, dos sonhos realizados e por realizar. Não vamos parar.

 

Do Granma

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