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"Sudão: a guerra circular"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • 27 de abr.
  • 4 min de leitura

 

Esquecida pela guerra no Oriente Médio, passou praticamente despercebido que, em 15 de abril, completaram-se três anos do início da Guerra Civil do Sudão, que continua igualmente ativa e violenta, sem que sequer tenha sido alcançado um cessar-fogo para atender às vítimas mais urgentes.

 

O número de mortos é incalculável; as Nações Unidas falam em cerca de 65 mil, mas, pelas condições em que a guerra é travada, o número é obrigatoriamente maior. Foram descobertas dezenas de valas comuns não declaradas. Por isso, é impossível saber quantas mais existem, assim como têm sido incontáveis — e continuam sendo — os massacres, muitos deles marcados por limpeza étnica (fur, masalit e zaghawa, agricultores negros, cristãos e animistas), bombardeios contra a população civil, incluindo hospitais, universidades, mercados e blocos de habitação em cidades densamente povoadas como Cartum e Omdurmã, na confluência do Nilo Branco com o Azul, onde ver corpos sendo levados pelas correntes é uma visão cotidiana.

 

A aniquilação de prisioneiros, a fome (cerca de 34 milhões de pessoas precisam de assistência alimentar), as epidemias, principalmente o cólera, ao mesmo tempo em que setenta por cento dos centros de saúde estão total ou parcialmente destruídos, obrigaram o deslocamento forçado de 14 dos seus 50 milhões de habitantes; destes, entre 3 e 4 milhões encontram-se refugiados em países vizinhos. Esse é o quadro que deu origem à maior crise humanitária desencadeada desde a Segunda Guerra Mundial. Enquanto o fim do conflito nem sequer se vislumbra, as batalhas e os massacres se sucedem sem uma hora de trégua; tudo, desde sempre, foi deixado à própria sorte ou ao capricho dos comandantes. Agora, com o início da guerra no Oriente Médio, alguém passou a chamar a guerra do Sudão de a “crise abandonada”. E isso é muito verdadeiro, inclusive desde antes de 28 de fevereiro.

 

As fontes que financiam o exército regular, as Forças Armadas do Sudão (FAS), e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (FAR), parecem inesgotáveis, já que na guerra, que abrange praticamente todo o país — o terceiro mais extenso da África e cuja superfície é três vezes e meia a da França —, seus fronts, em vez de se extinguirem, multiplicam-se. Sendo os mais ativos desde o início da guerra: Darfur, Cordofão e Cartum.

 

Nas primeiras semanas da guerra da Liga Epstein contra o Irã, considerou-se que os fronts ativos no Sudão poderiam diminuir sua intensidade, já que os Emirados Árabes Unidos (EAU), tão envolvidos agora no conflito do Golfo Pérsico e com importantes interesses na guerra civil latente do Iêmen, continuam sendo o principal financiador das forças paramilitares do pseudo-general Mohamed Hemetti Dagalo, responsáveis pelo genocídio contra a população negra de Darfur e pelos massacres que continuaram após a tomada de El-Fasher, capital do Darfur do Norte, em novembro passado, o último bastião importante sob controle dos regulares na região de Darfur, após uma resistência de 18 meses ao cerco dos paramilitares.

 

Segundo as Nações Unidas, em El Fasher morreram mais de 6 mil pessoas nos três dias posteriores à sua queda, em 25 de novembro, onde execuções sumárias e estupros em massa tornaram-se também ali, como em tantos outros lugares, uma realidade que, por conhecida, não deixa de ser menos aterradora. Enquanto outras 11 mil pessoas desapareceram ao longo do cerco.

 

A guerra, desde o início, tem apresentado cenários absolutamente mutáveis; enquanto os paramilitares, desde o princípio do conflito, haviam se fortalecido ao redor da capital do país, a cidade de Cartum, de onde foram expulsos pelas forças regulares após um ano de cerco, já no início de 2025. Enquanto isso, na região de Darfur, as FAR foram perdendo, uma a uma, as principais capitais regionais.

 

Muitos consideraram que, com o controle total da região de Darfur — que tem uma superfície semelhante à da Espanha — por parte dos paramilitares, no final do ano passado, e já que a maioria dos integrantes dessa força (pastores, árabes-muçulmanos) é originária dessa região, eles se concentrariam ali para tentar uma saída diplomática, exigindo reconhecimento como nação independente, repetindo a alternativa do atual Sudão do Sul, que se tornou independente em 2011, após décadas de guerra e negociações. Porém, rapidamente, os homens de Hemetti Dagalo lançaram uma forte ofensiva contra a região vizinha de Cordofão, a leste de Darfur, onde mantêm, desde o início do ano, o cerco a várias cidades, e a partir dali continuaram avançando em direção à região de Cartum, tentando retomar a capital, de onde haviam sido expulsos oito meses antes.

 

Ações como essas, que já se repetiram em outros fronts de recuperação e perda de objetivos estratégicos, nos levam a considerar que a guerra civil sudanesa parece ser uma guerra circular.

 

Apesar de, nos últimos meses, o exército ter se consolidado nas regiões centro, norte e leste, controlando Porto Sudão e os principais portos do Mar Vermelho, as FAR controlam Darfur, setores de Cordofão e a fronteira com o Sudão do Sul. Ambos os lados dispõem do controle de refinarias de petróleo, oleodutos, além de minas de ouro e outros ricos depósitos minerais.

 

Berlim: paz ou um novo fracasso?

 

Foram vários os meses de negociações desde o início da guerra, articuladas principalmente pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos, das quais nenhuma produziu resultados promissores; nem sequer conseguiram estabelecer rotas seguras para o fornecimento humanitário que alcance os campos de deslocados. Sistematicamente, esses comboios, que em alguns casos precisam percorrer até dois mil quilômetros para chegar a esses pontos onde são aguardados com necessidades críticas, têm sido atacados e saqueados por diversas forças, principalmente pelas FAR, embora também atuem ao longo dessas rotas dezenas de milícias locais, que apoiam um ou outro lado ou simplesmente funcionam como autodefesas. Essas caravanas humanitárias também são atacadas por grupos criminosos comuns que, na ausência de qualquer tipo de controle estatal, aproveitam para saquear tudo: alimentos, medicamentos e combustíveis.

 

Agora chegou a vez da Alemanha, onde, apesar de o chefe das FAS, o general Abdel Fattah al-Burhan, ter classificado a conferência como “ingerência inaceitável”, afirmando que a Alemanha não o consultou antes de convocá-la, tampouco chegaram delegados das FAR. No último dia 15, Berlim sediou uma conferência sobre o Sudão que, além de arrecadar mais de 1,5 bilhão de dólares para enfrentar as questões mais urgentes, contou, além de uma importante delegação das Nações Unidas, com representantes de 60 países e 50 organizações, tentando alcançar “um cessar-fogo imediato”, para que a guerra circular detenha, de uma vez, seu giro infernal.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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