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"O magnicídio de Minnesota"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Quando, em 2024, foi lançado o filme do britânico Alex Garland, Civil War, no qual três jornalistas atravessam os Estados Unidos, da Califórnia a Washington, no contexto de uma insurgência generalizada contra o governo federal, em um futuro extremamente próximo, a história de Civil War, a poucos anos da tomada do Capitólio em 2020, a ideia não parecia nem tão louca nem tão remota, embora o ritmo que Donald Trump está imprimindo à decomposição dos Estados Unidos vá muito além do que qualquer produtor de Hollywood possa digerir.

 

Colocando as coisas em dimensão e contexto, para quem conheça minimamente a história da relação entre os Estados Unidos e a América Latina, não se pode surpreender que tenha bombardeado a Venezuela, capturado o seu presidente, que hoje está sendo julgado em Nova York por narcotráfico e não por inútil e inepto para o cargo, os que sim têm sido, até agora, seus dois piores crimes. A longa história de intervenções diretas ou por meio de lacaios locais nas quais não se privou de nada. Desde assassinatos de presidentes (Allende, Torrijos, Roldós ou Chávez, entre outros), de dirigentes populares, de golpes de Estado com genocídios incluídos, apropriações territoriais, geração de guerras civis, bloqueios, golpes de mercado, saque de recursos naturais, culturais e arqueológicos (algum dia será preciso escrever longamente sobre o Summer Institute of Linguistics) e até infiltração de vírus em plantações e animais; disso Cuba sabe muito. A panóplia é tão ampla quanto intensa, pelo que já cansa continuar.

 

Tampouco jamais alguém teria pensado em uma confrontação direta entre a União Europeia, a OTAN? e os Estados Unidos, cujo território de guerra fosse a Groenlândia, porque Trump a quer “pelas boas ou pelas más”. Pensar que a Dinamarca envie militares à ilha dá riso, ao mesmo tempo em que arrepia as pretensões do déspota de Washington; pareceu demais com a ucronia de Garland.

 

Que Trump anatematize Emmanuel Macron e sua turma, ameaçando-os com mais e mais sanções, como se fosse apenas o príncipe de uma tribo zulu, porra, diverte, em um mundo onde já não há lugar para semelhantes luxos. Ninguém conhece as conversas cifradas entre Vladimir Putin e Xi Jinping, mas não há dúvida de que nelas também deve haver lugar para risadas e regozijos, além da gravidade geral do assunto.

 

Os chiliques de Trump já não têm limites; quase poderíamos entender em sua paranoia a defesa desesperada de seu Lebensraum, para o que não apenas precisa da Groenlândia, mas também do Canadá, e pobrezinho do México, sempre tão longe de Deus..., mas o episódio da medalha do Prêmio Nobel da Paz, que acaba de arrancar de sua dona original, María Corina Machado, a quem ainda por cima obrigou a praticar-lhe uma felação simbólica, muito mais divulgada do que a da senhorita Mônica Lewinsky.

 

Sem dúvida, a Trump esse reconhecimento, como qualquer outro dessa laia, importa-lhe um pepino, mas semelhante exibição não é para humilhar essa pobre mulher, e sim para mostrar ao mundo, ao seu mundo, que consegue tudo o que quer “pelas boas ou pelas más”.

 

E bem o saberão senhoras infinitamente mais dignas do que Machado, como Renee Nicole Good, a cidadã norte-americana, “uma terrorista doméstica”, segundo Trump, que apenas com sua dignidade e sua vergonha enfrentou os sicários de Washington, que sob a cobertura do ICE (United States Immigration and Customs Enforcement), organismo dependente do Departamento de Segurança Nacional, atiraram nela à queima-roupa, com o que não apenas a assassinaram, mas também massacraram a infância de seus três filhos. Ao vivo e a cores para os sete bilhões de “humanos”? que, estupefatos, observamos, talvez já definitivamente robotizados, sem entender o magnicídio, porque que dúvidas restam de que o assassinato da senhora Good, na cidade de Minneapolis (Minnesota), no último 7 de janeiro, é um verdadeiro magnicídio, porque com ele atentaram contra a condição humana.

 

Quem escreve estas linhas é simplesmente um jornalista, com nulos conhecimentos em psiquiatria, antropologia e sociologia, pelo que ignora tudo acerca do manejo profundo do inconsciente coletivo, se isto existisse, e tampouco sabe nada sobre a manipulação da opinião pública, mas permito-me uma reflexão: crimes como o da senhora Good são admitidos porque a opinião pública mundial já foi domesticada pelo genocídio a céu aberto de Gaza ou pelo extermínio de Gaza que continua sendo executado. Começou como um plano-mestre para que assassinatos como o da senhora Good, os outros 35 assassinados desde janeiro de 2025 e os que virão, nos resultem pasmosamente naturais.

 

A invasão aos Estados Unidos

 

É uma tentação do lugar-comum comparar o ICE com as Schutzstaffel, as famosas SS nazistas, embora talvez, com os tempos que correm, fosse mais adequado compará-las às Forças de Defesa de Israel (FDI), tão ocupadas nesses últimos vinte e oito meses em exterminar gazatíes, porque tanto o ICE quanto as FDI são forças de ocupação e extermínio, utilizadas por tiranos para exterminar a razão.

 

Desde a chegada, pela segunda vez, à Casa Branca, de Donald Trump, há exatamente um ano, no dia 20, os efetivos do ICE, integrados por cerca de 20 mil homens de rua, fortemente armados, com táticas militares e em toda oportunidade sem identificação e com os rostos ocultos por balaclavas, apontam; sua missão é controlar os indocumentados. Converteram-se em uma força de ocupação do governo federal, que desconhece inclusive a autoridade dos governadores e das polícias estaduais. Com o aceno dos mais altos níveis da Casa Branca. Como a sentença do vice-presidente a respeito do agente que assassinou a senhora Renne Good lhes deu ainda mais ânimo e maior certeza de que são imunes a qualquer lei: “Está protegido por imunidade absoluta”, ao mesmo tempo em que, referindo-se à senhora Good, disse que ela “era vítima de ideologia de esquerda”.

 

Enquanto Trump, que qualificou Good de “terrorista doméstica”, afirmou que ela tentava atropelar o agente do ICE com sua caminhonete. Fiel ao seu estilo, Trump não apenas não reconsidera a atuação de sua força de ocupação em território norte-americano, como incentiva a promoção de mais agentes, aumentando o efetivo, destinando mais de cem milhões para novas contratações, buscadas em nichos como feiras de armas e locais por onde transitam elementos de ultradireita. Além de ter diminuído o período de treinamento dos novos agentes de 110 dias para 47 dias, coincidindo com o fato de Trump ser o quadragésimo sétimo presidente dos Estados Unidos.

 

E é nesse contexto de agressão constante do ICE, já não apenas contra as comunidades latinas, principal alvo da busca de imigrantes indocumentados ou não, dos quais conseguiram expulsar dos Estados Unidos cerca de 200 mil, alguns enviados às prisões de Nayib Bukele em El Salvador ou repatriados a seus países de origem, não respeitando em sua caçada nem hospitais nem igrejas. Essa onda repressiva também se estendeu à população negra e a qualquer outra pessoa que se indigne com suas arbitrariedades, o que foi o caso da senhora Good.

 

Alguns setores da sociedade utilizam a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante o direito à posse e ao porte de armas segundo a necessidade de uma milícia para a segurança de um Estado livre. Embora sua interpretação seja objeto de controvérsias e decisões judiciais, alguns setores decidiram se armar e se organizar como medida de autodefesa frente à agressão trumpista.

 

Isso resultou no surgimento do Black Panther Party, um arremedo da organização que tanto deu o que falar há 50 anos. A nova organização já desfilou com armas longas pelas ruas da Filadélfia, enquanto se espera que novos grupos se somem a eles ao longo do país.

 

Rapidamente, Donald Trump anunciou que colocaria em funcionamento uma lei do século XIX, raramente utilizada, que lhe permitiu deslocar o exército para a cidade de Minneapolis (Minnesota), onde os protestos pela execução da senhora Good, longe de se calarem, vão aumentando, junto com as exigências pelo recuo dos agentes do ICE. Situação que poderia transformar em documentário o filme de Alex Garland.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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